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Uma perna humana, grande, peluda e sem corpo, andando sozinha pelas ruas do Recife. O que parece invenção de filme de terror foi, durante anos, tratado como fato por moradores, jornais e até autoridades.
A Lenda da Perna Cabeluda, uma das mais conhecidas do imaginário pernambucano, voltou ao centro das atenções após ser retratada em O Agente Secreto, filme que ganhou destaque internacional ao receber indicações ao Oscar 2026, como citado pelo site Terra.
Os relatos mais conhecidos surgiram em meados da década de 1970. Manchetes e depoimentos descreviam aparições da perna em bairros da Região Metropolitana do Recife, como São Lourenço da Mata. Havia quem jurasse ter visto sombras se projetando nas paredes e quem afirmasse que a figura “atacava” pessoas nas ruas.
Com a repetição das histórias, o medo passou a orientar comportamentos cotidianos, como evitar sair de casa ao anoitecer. O que começou como boato ganhou estatuto de investigação pública, mostrando a força que rumores podem assumir em contextos de tensão.
Pesquisadores apontam que a lenda não pode ser dissociada do período histórico. O Brasil vivia sob a ditadura militar, marcado por repressão, censura e circulação limitada de informações. Nesse cenário, o fantástico surge como linguagem possível para expressar angústias coletivas.
Segundo interpretações acadêmicas, a Perna Cabeluda funcionaria como metáfora da violência difusa e do controle social. Uma ameaça sem rosto, mas presente, capaz de simbolizar o medo constante vivido pela população.
Com o passar dos anos, a lenda deixou o campo do pânico e entrou no da cultura. Passou a aparecer em músicas, cordéis, esculturas e blocos de carnaval. O medo virou humor, crítica e memória, transformando a Perna Cabeluda em símbolo da criatividade popular recifense.
Em O Agente Secreto, a história é resgatada como parte de um repertório maior de medos urbanos. Para o pesquisador João Paulo Braga Reis, a presença da lenda ajuda a apresentar ao mundo aspectos sociais do Recife. Mais do que assombração, ela é um retrato de época.
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