Esportes
Publicado em 16/01/2026, às 12h57 Bianca Novais e Marcela Guimarães
A temporada 2026 do futebol brasileiro começou neste sábado (10) com o retorno dos campeonatos estaduais e, na cidade de São Paulo, a maratona de grandes shows em estádios começa no próximo dia 24, com o CarnaUOL, que traz a cantora Kesha ao Allianz Parque, na Barra Funda.
Um festival dessa magnitude, que atrai milhares de fãs para assistir à apresentação de um grande artista internacional, precisa do espaço que apenas um estádio de futebol pode oferecer.
Mas, para as quatro linhas receberem tanta gente pulando e dançando de maneira financeiramente sustentável, elas precisaram passar por uma boa adaptação.
A massificação do gramado sintético no futebol brasileiro estabeleceu um novo modelo de negócios, o que acabou polarizando a eficiência financeira e a preferência técnica dos atletas.
Dados de 2024 e 2025, analisados pela reportagem do BNews São Paulo, mostram que o Allianz Parque, único entre os grandes da capital paulista com grama artificial, lidera o mercado de entretenimento.
No entanto, o modelo enfrenta críticas de jogadores e alertas médicos sobre a incidência de lesões.
No começo do Campeonato Brasileiro de 2025, em fevereiro do ano passado, jogadores de alto perfil como Neymar (Santos), Gabigol (à época, no Cruzeiro) e Memphis Depay (Corinthians) se manifestaram contra o gramado artificial em suas redes sociais através de depoimentos, em uma campanha conhecida como #NãoAoGramadoSintético.
Concordo 👍🏽👏🏽
— Neymar Jr (@neymarjr) August 28, 2025
Treinadores como Fernando Diniz e Rogério Ceni também criticaram a suposta tecnologia, argumentando que ela altera a velocidade do jogo e o quique da bola, criando vantagens técnicas artificiais para quem está adaptado ao piso.
Outro ponto crítico é o calor: a borracha do sintético retém temperatura, podendo ficar de 20 a 30 graus Celsius mais quente que a grama natural.
A discussão sobre lesões, frequentemente citada pelos atletas, possui nuances importantes segundo a medicina esportiva.
A Dra. Ana Paula Simões, ex-médica da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e o Dr. Gustavo Arliani, da Newon, ambos ortopedistas especializados em esporte, explicam que não há consenso científico sobre um aumento no número total de lesões. A diferença está na gravidade.
Eles relatam em suas redes sociais que a grama natural, por ser mais macia, quando causa lesões musculares (como estiramentos), a recuperação é mais rápida.
Já a artificial, por conta de sua característica de “travar” a chuteira (maior aderência), favorece lesões ligamentares em joelhos e tornozelos quando o corpo gira e o pé fica preso. Essas lesões são frequentemente cirúrgicas e exigem longos períodos de afastamento.
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Apesar do debate e do movimento de alguns clubes contra os gramados artificiais, a CBF colocou um ponto final na discussão em dezembro, ao divulgar a tabela básica do Brasileirão de 2026 e o Regulamento Específico da Competição.
Segundo o artigo 24 do regulamento, “os clubes estão autorizados a utilizar estádios com piso de grama sintética, que deverão obedecer aos requisitos previstos no RGC (Regulamento Geral de Competições)”.
Já a FIFA permite o uso do sintético através do selo FIFA Quality Programme (que o Palmeiras possui), mas exige grama natural para as fases decisivas da Copa do Mundo.
A principal força do modelo adotado pelo Palmeiras fica na economia e na capacidade de exploração comercial.
A tecnologia sintética permite uma rotatividade de eventos inviável para a grama natural. No período analisado, o Allianz Parque recebeu 74 eventos, volume 4,3 vezes superior ao do MorumBIS (17) e cinco vezes maior que o da Neo Química Arena (14).
O Allianz Parque ainda não divulgou os números de receita com shows em 2025, mas no ano anterior foram R$ 241 milhões, com 47 shows, dos quais R$ 40,5 milhões foram repassados ao Palmeiras. Em 2023, o faturamento foi de R$ 200 milhões.
Além da receita de bilheteria, a manutenção do sintético é drasticamente mais barata. Enquanto gramados naturais exigem replantio, irrigação complexa e tratamento de pragas, que custam milhões por ano, a preservação do gramado artificial gira em torno de R$ 200 mil anuais — apenas 0,5% do lucro do Alviverde com eventos em 2024.
Esse modelo, porém, gera o “custo do exílio”. Para viabilizar a agenda de shows, o Palmeiras precisou mandar dez jogos longe de casa no período revisado, na Arena Crefisa Barueri, onde a média de público caiu para menos da metade da capacidade de seu estádio.
Em 2024, a média de torcedores na “segunda casa” do Verdão foi de 15.084, versus 31.455 no Allianz Parque.
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Em dezembro de 2025, na mesma semana da publicação do regulamento da CBF, o Palmeiras anunciou a troca do gramado (mas ainda sintético), em um processo de sete etapas, que deve durar até o início de fevereiro de 2026. Por isso, o time iniciou a temporada na Arena Crefisa Barueri de novo.
O contrato do São Paulo com a Live Nation, assinado no fim de 2023, prevê um faturamento de R$ 120 milhões até 2031, caso cumpra o mínimo de 36 apresentações no MorumBIS (6 shows por ano, em média).
A nível do calendário, o Tricolor precisou jogar os últimos (e decisivos) quatro jogos como mandante do Campeonato Brasileiro de 2025 na Vila Belmiro, estádio do Santos, devido à sequência de shows de Linkin Park, Dua Lipa e Oasis.
Enquanto o Brasil debate a escolha entre “lucrar com shows no sintético” ou “preservar o natural e faturar menos”, o futebol europeu apresenta uma alternativa de alta tecnologia.
O Estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid, concluiu recentemente uma reforma de quatro anos, ao custo de 400 milhões de euros, implementando um sistema de gramado retrátil.
Diferente de modelos onde o campo desliza para fora do estádio (o que exige grandes terrenos livres, inviáveis em centros urbanos como Madri ou São Paulo), o sistema do Bernabéu funciona como um tipo de “persiana”.
O campo é dividido em grandes placas que descem para o subsolo e são armazenadas empilhadas em uma estufa subterrânea.
Nesse “bunker”, a grama natural recebe tratamento completo com luz artificial, irrigação e controle de temperatura, enquanto a superfície do estádio fica livre para receber shows e eventos sem danificar o piso de jogo.
Embora resolva o conflito entre arena multiuso e excelência esportiva, o alto custo de implementação ainda torna essa solução uma realidade distante para a maioria dos clubes brasileiros.
A reportagem do BNews São Paulo procurou a assessoria de imprensa do Allianz Parque, MorumBIS e Neo Química Arena, mas não obteve posicionamento até a publicação da matéria.
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