Política
Publicado em 02/01/2026, às 14h00 Nathalia Quiereguini e Fernanda Montanha
Apesar de a Prefeitura de São Paulo afirmar que mantém a fila oficial por vagas em creches zerada há seis anos, a experiência cotidiana de muitas famílias revela um cenário mais complexo.
Mesmo com cadastro realizado e demanda registrada, parte dos responsáveis enfrenta períodos de espera sem informações claras, dificuldade para acompanhar o andamento do pedido ou incompatibilidade entre a vaga oferecida e a rotina familiar. Esse fenômeno tem sido descrito por pesquisadores e órgãos de controle como a “fila invisível” das creches.
Essa situação aparece quando o acesso ao direito consta nos registros, mas não se efetiva. Questões como distância grande entre casa e escola, horários de aula que não encaixam com o trabalho e barreiras práticas, afastam as famílias do atendimento, sem aparecer nas listas oficiais.
O debate sobre a fila invisível se insere em um contexto mais amplo da Educação Infantil no Brasil, etapa que compreende o atendimento a crianças desde o nascimento até os 5 anos e 11 meses e que se consolidou, nas últimas décadas, como base para o desenvolvimento integral.
Embora o atendimento em creches não seja obrigatório para as famílias, ele é um direito subjetivo da criança e um dever constitucional do Estado, conforme entendimento reafirmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do Tema 548, em 2022.
Além de impactar o desenvolvimento cognitivo, social e emocional, a oferta de vagas em creches é apontada um fator crucial para a entrada e estadia de responsáveis, a maioria mulheres, no mercado de trabalho.
O Brasil encerrou, em 2024, o ciclo de vigência do Plano Nacional de Educação (PNE 2014–2024) sem cumprir integralmente a Meta 1, que previa a matrícula de pelo menos 50% das crianças de 0 a 3 anos em creches.
Dados da PNAD Contínua, do IBGE, e do Censo Escolar mostram que o avanço foi constante, mas insuficiente para alcançar o objetivo.
Atualmente, cerca de 39,4% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos frequentam algum tipo de atendimento escolar. Isso significa que mais de 60% seguem fora do sistema formal.
Em um universo estimado de 11,2 milhões de crianças nessa faixa etária, aproximadamente 6,8 milhões não frequentavam creches em 2024. Desse total, cerca de 2,3 milhões integram a chamada “demanda manifesta reprimida": famílias que desejam a vaga, realizam o cadastro, mas não conseguem acesso.
O acesso à educação infantil acompanha as desigualdades socioeconômicas do país. Dados do Censo Escolar e da PNAD-C indicam que:
Especialistas destacam que a creche pública de qualidade é um dos principais instrumentos para reduzir a pobreza intergeracional, ao ampliar estímulos, segurança alimentar e oportunidades educacionais desde a primeira infância.
Na contramão da média nacional, São Paulo, que abriga a maior rede municipal de ensino da América Latina, registra indicadores elevados de cobertura. Desde dezembro de 2020, a Secretaria Municipal de Educação (SME) afirma ter eliminado a fila nominal por vagas em creches.
Em 2025, a gestão municipal completa o sexto ano consecutivo sem fila oficial para crianças de 0 a 3 anos. Ainda assim, relatos de famílias indicam que a ausência de fila formal não elimina totalmente os obstáculos de acesso.
A experiência de Giovanna Santos, mãe de um bebê na capital paulista, ilustra esse cenário. Após realizar o cadastro, ela aguardou cerca de dois meses sem receber informações sobre prazos ou previsão de atendimento.
“A gente fica sem informação, sem saber se está perto ou se vai demorar. É uma fila que existe, mas que não dá para acompanhar”, relatou ao BNews São Paulo.
A vaga só foi disponibilizada após uma ida presencial à Secretaria Municipal de Educação. Durante o período de espera, Giovanna precisou recorrer ao apoio de familiares para conseguir manter a rotina de trabalho.
Segundo o Panorama da Educação Infantil no Município de São Paulo, elaborado pelo Todos Pela Educação, a matrícula formal não garante, por si só, o acesso efetivo à vaga.
A pesquisa aponta que fatores como distância entre residência e unidade escolar, incompatibilidade de horários e dificuldade de acompanhamento dos cadastros acabam excluindo parte das famílias da rede, sem que essa demanda apareça nos dados oficiais.
É nesse contexto que surge a chamada “fila invisível”: crianças que não constam nas estatísticas de espera, mas cujas famílias seguem reorganizando a vida, buscando apoio informal ou adiando o retorno ao trabalho enquanto aguardam o acesso ao serviço público.
O BNews São Paulo ainda aguarda retorno da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo sobre o tema.
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