Política

Creches em São Paulo: por que famílias ainda enfrentam a “fila invisível” mesmo sem espera oficial

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Relatos de mães, dados oficiais e estudos apontam que distância, horários e falta de transparência mantêm crianças fora da creche, mesmo com a fila oficialmente zerada.  |   BNews SP - Divulgação Foto: Unsplash

Publicado em 02/01/2026, às 14h00   Nathalia Quiereguini e Fernanda Montanha



Apesar de a Prefeitura de São Paulo afirmar que mantém a fila oficial por vagas em creches zerada há seis anos, a experiência cotidiana de muitas famílias revela um cenário mais complexo.

Mesmo com cadastro realizado e demanda registrada, parte dos responsáveis enfrenta períodos de espera sem informações claras, dificuldade para acompanhar o andamento do pedido ou incompatibilidade entre a vaga oferecida e a rotina familiar. Esse fenômeno tem sido descrito por pesquisadores e órgãos de controle como a “fila invisível” das creches.

Essa situação aparece quando o acesso ao direito consta nos registros, mas não se efetiva. Questões como distância grande entre casa e escola, horários de aula que não encaixam com o trabalho e barreiras práticas, afastam as famílias do atendimento, sem aparecer nas listas oficiais.

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O acesso real à vaga vai além do cadastro administrativo; ele depende de logística, transporte e compatibilidade com a rotina das famílias trabalhadoras / Foto: Unsplash

O debate sobre a fila invisível se insere em um contexto mais amplo da Educação Infantil no Brasil, etapa que compreende o atendimento a crianças desde o nascimento até os 5 anos e 11 meses e que se consolidou, nas últimas décadas, como base para o desenvolvimento integral.

Embora o atendimento em creches não seja obrigatório para as famílias, ele é um direito subjetivo da criança e um dever constitucional do Estado, conforme entendimento reafirmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do Tema 548, em 2022.

Além de impactar o desenvolvimento cognitivo, social e emocional, a oferta de vagas em creches é apontada um fator crucial para a entrada e estadia de responsáveis, a maioria mulheres, no mercado de trabalho.

Panorama nacional: o direito que ainda não virou acesso universal

O Brasil encerrou, em 2024, o ciclo de vigência do Plano Nacional de Educação (PNE 2014–2024) sem cumprir integralmente a Meta 1, que previa a matrícula de pelo menos 50% das crianças de 0 a 3 anos em creches.

Dados da PNAD Contínua, do IBGE, e do Censo Escolar mostram que o avanço foi constante, mas insuficiente para alcançar o objetivo.

As estatísticas do déficit

Atualmente, cerca de 39,4% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos frequentam algum tipo de atendimento escolar. Isso significa que mais de 60% seguem fora do sistema formal.

Em um universo estimado de 11,2 milhões de crianças nessa faixa etária, aproximadamente 6,8 milhões não frequentavam creches em 2024. Desse total, cerca de 2,3 milhões integram a chamada “demanda manifesta reprimida": famílias que desejam a vaga, realizam o cadastro, mas não conseguem acesso.

A geografia da desigualdade

O acesso à educação infantil acompanha as desigualdades socioeconômicas do país. Dados do Censo Escolar e da PNAD-C indicam que:

  • entre os 20% mais ricos, o acesso à creche chega a cerca de 59%;
  • entre os 20% mais pobres, o índice cai para aproximadamente 33%.

Especialistas destacam que a creche pública de qualidade é um dos principais instrumentos para reduzir a pobreza intergeracional, ao ampliar estímulos, segurança alimentar e oportunidades educacionais desde a primeira infância.

São Paulo e o paradoxo da fila zerada

Na contramão da média nacional, São Paulo, que abriga a maior rede municipal de ensino da América Latina, registra indicadores elevados de cobertura. Desde dezembro de 2020, a Secretaria Municipal de Educação (SME) afirma ter eliminado a fila nominal por vagas em creches.

Em 2025, a gestão municipal completa o sexto ano consecutivo sem fila oficial para crianças de 0 a 3 anos. Ainda assim, relatos de famílias indicam que a ausência de fila formal não elimina totalmente os obstáculos de acesso.

A experiência de Giovanna Santos, mãe de um bebê na capital paulista, ilustra esse cenário. Após realizar o cadastro, ela aguardou cerca de dois meses sem receber informações sobre prazos ou previsão de atendimento.

“A gente fica sem informação, sem saber se está perto ou se vai demorar. É uma fila que existe, mas que não dá para acompanhar”, relatou ao BNews São Paulo.

A vaga só foi disponibilizada após uma ida presencial à Secretaria Municipal de Educação. Durante o período de espera, Giovanna precisou recorrer ao apoio de familiares para conseguir manter a rotina de trabalho.

O que é a “fila invisível” das creches

Segundo o Panorama da Educação Infantil no Município de São Paulo, elaborado pelo Todos Pela Educação, a matrícula formal não garante, por si só, o acesso efetivo à vaga.

A pesquisa aponta que fatores como distância entre residência e unidade escolar, incompatibilidade de horários e dificuldade de acompanhamento dos cadastros acabam excluindo parte das famílias da rede, sem que essa demanda apareça nos dados oficiais.

É nesse contexto que surge a chamada “fila invisível”: crianças que não constam nas estatísticas de espera, mas cujas famílias seguem reorganizando a vida, buscando apoio informal ou adiando o retorno ao trabalho enquanto aguardam o acesso ao serviço público.

O BNews São Paulo ainda aguarda retorno da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo sobre o tema. 

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