Política
O Carnaval costuma ser associado à liberdade, à celebração e à ocupação das ruas com música e fantasia. Mas, para muitas mulheres, a folia também carrega um alerta constante.
Pesquisa divulgada em 2025 pelo Instituto Locomotiva aponta que 45% das mulheres entrevistadas afirmaram já ter sofrido importunação sexual durante o Carnaval. O dado expõe uma realidade que contrasta com o discurso de que “na festa vale tudo”.
O levantamento também mostra que parte da sociedade ainda relativiza comportamentos invasivos. Segundo a pesquisa, 33% dos homens acreditam que, se uma pessoa está sozinha, é porque quer ficar com alguém, como citado pelo site Metrópoles.
Outros 25% consideram que usar pouca roupa justificaria uma abordagem. Além disso, 19% dos entrevistados disseram não ver problema em um homem “roubar” um beijo durante a folia.
Para a delegada Raquel Gallinati, especialista em segurança pública e direitos da mulher, os números revelam uma mentalidade antiga e perigosa.
Consentimento não é contexto, não é vestimenta, não é horário, não é Carnaval. Consentimento é manifestação livre, clara e inequívoca da vontade.
Ela destaca que a interpretação equivocada de que o corpo feminino estaria “disponível” em ambientes festivos contribui para a sensação de permissividade.
Segundo a delegada, quando o agressor acredita que o ambiente o autoriza, ele age com maior sensação de impunidade. Ao mesmo tempo, muitas vítimas deixam de denunciar por medo de julgamento ou revitimização.
Gallinati ressalta que o enfrentamento exige mais do que policiamento ostensivo. É necessário investir em delegacias preparadas para acolhimento imediato, protocolos claros para responsabilização rápida e campanhas que dialoguem também com potenciais agressores, reforçando que importunação é crime.
Para 89% das mulheres ouvidas na pesquisa, combater o assédio é responsabilidade coletiva. Nesse contexto, ganhou força o movimento Não é Não, criado em 2017 com foco no combate à importunação sexual, especialmente durante o Carnaval.
A iniciativa ficou conhecida pela distribuição de tatuagens temporárias com a frase que virou símbolo da luta contra o assédio.
A mensagem é direta: fantasia não é convite, silêncio não é consentimento e insistência não é paquera. Enquanto parte da sociedade continuar relativizando comportamentos abusivos, especialistas alertam que o problema tende a persistir, exigindo respostas firmes do poder público e mudança cultural duradoura.
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