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Publicado em 07/04/2026, às 19h51 Foto: Unsplash. Bianca Novais
O avanço das recuperações judiciais no Brasil acendeu um alerta em 2025. Segundo dados divulgados pelo Terra, com base em levantamento da Serasa Experian, 2.466 empresas recorreram à Justiça no último ano para reorganizar dívidas e evitar o colapso financeiro, o maior número desde o início da série histórica, em 2012.
O crescimento foi de 13% em relação ao ano anterior e reflete, principalmente, o impacto de um ambiente de juros elevados.
Mesmo com o início de cortes na taxa básica, que saiu de 15% para 14,75%, o custo do crédito segue alto, dificultando a renegociação de dívidas e a manutenção das operações.
Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, em entrevista ao Terra, o volume é “alarmante”, especialmente quando analisado pelo número de CNPJs envolvidos. Ainda assim, ela pondera que parte desses pedidos está concentrada em grupos econômicos, o que relativiza a leitura dos dados, sem diminuir a preocupação.
Apesar do recorde, o cenário atual difere da crise de 2016, quando o país enfrentava uma recessão profunda, com queda do PIB por dois anos consecutivos, inflação elevada e juros altos.
Agora, o problema é mais específico: uma desaceleração econômica combinada com crédito caro. Na prática, isso significa que muitas empresas até continuam operando, mas têm dificuldade para administrar dívidas acumuladas ao longo dos últimos anos.
A expectativa do mercado é que os juros encerrem o ciclo de queda ainda em patamares elevados, próximos de 12,5% ou até 13%, o que mantém o desafio financeiro no radar das companhias.
Um dos dados mais surpreendentes do levantamento está no perfil dos setores mais afetados. A agropecuária liderou os pedidos de recuperação judicial em 2025, com 743 casos, equivalente a 30,1% do total.
O número representa uma mudança estrutural relevante: em 2012, o setor respondia por apenas 1,3% dos pedidos. Em pouco mais de uma década, tornou-se o principal protagonista desse movimento.
Logo atrás aparecem os serviços, com participação de 30%, seguidos por comércio (21,7%) e indústria (18,2%), ambos em queda proporcional.
Embora ainda minoritária, a recuperação extrajudicial começa a ganhar espaço. Em 2025, foram registrados 62 processos desse tipo, número bem inferior aos 977 processos judiciais, mas com tendência de crescimento.
A principal vantagem está no custo mais baixo e na flexibilidade das negociações, feitas diretamente entre empresas e credores. Além disso, esse modelo permite maior liberdade operacional durante o processo de reestruturação.
Nos últimos anos, a relação entre pedidos judiciais e extrajudiciais diminuiu, indicando que mais companhias estão buscando alternativas fora do Judiciário.
O recorde de recuperações judiciais não aponta, necessariamente, para uma crise generalizada como a de anos anteriores, mas evidencia um ambiente de negócios pressionado.