Polícia
Publicado em 23/10/2026, às 09h59 Foto: Divulgação Tatiana Ribeiro
A cidade de São Paulo registrou ao menos 13 corpos com sinais de violência encontrados em vias públicas entre 5 de setembro e 22 de outubro. Apesar da sequência de ocorrências em diferentes regiões da capital, a Polícia Civil ainda não apresentou uma conclusão sobre as motivações dos crimes nem confirmou uma ligação entre os casos.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) descarta, até o momento, evidências de que todas as mortes tenham sido provocadas pela mesma pessoa. As autoridades afirmam que as ocorrências apresentam características distintas e são investigadas individualmente.
O caso mais recente foi registrado na noite de quinta-feira (22), quando um corpo foi encontrado na rua Paulo da Silva, no Rio Pequeno, zona oeste da capital. Segundo a Polícia Militar (PM), a ocorrência foi registrada por volta das 21h20. A vítima estava com as mãos amarradas, a cabeça coberta por um saco plástico preto e apresentava sinais de violência, incluindo indícios de tortura.
A sequência de casos levou à circulação de especulações nas redes sociais sobre a possível atuação de um serial killer. No entanto, o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou, em vídeo publicado nas redes sociais, que não foram identificados indícios de que os crimes tenham sido cometidos pelo mesmo autor.
“Estamos trabalhando muito nisso e aguardando os laudos”, declarou o secretário.
O delegado-geral da Polícia Civil, Artur Dian, afirmou que as semelhanças entre as ocorrências estão sendo analisadas. Segundo ele, as equipes trabalham para esclarecer todos os casos. A diretora do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Ivalda Aleixo, também participa das apurações.
De acordo com as autoridades, as hipóteses investigadas incluem motivações distintas, como desavenças locais e vinganças. Em algumas ocorrências, a polícia já trabalha com suspeitos e solicitou prisões à Justiça.
Os registros ocorreram em bairros das zonas sul, leste, norte e oeste da capital. Parte das vítimas apresentava sinais de violência extrema, como ferimentos por disparos de arma de fogo, esquartejamento e queimaduras. Em alguns casos, os cadáveres estavam dentro de sacos plásticos ou enrolados em lençóis e amarrados com cordas.
A sequência começou em 5 de setembro, com um corpo encontrado na zona sul. Outros dois foram localizados em 10 de setembro, na zona leste, seguidos por ocorrências nos dias 13, 19, 21, 25 e 30 do mesmo mês.
Em outubro, foram registrados novos casos nos dias 2 e 12, na zona leste, além de duas ocorrências em 21 de outubro, na zona norte, e a mais recente, em 22 de outubro, na zona oeste.
A Polícia Civil aguarda a conclusão de exames da Polícia Técnico-Científica para avançar na elucidação das mortes. Segundo as informações divulgadas, outros nove casos com circunstâncias semelhantes estão sob investigação do DHPP.
Entre janeiro e agosto, a capital paulista contabilizou 304 vítimas de homicídio doloso, crime cometido com intenção de matar, segundo dados da SSP. O número representa uma média de pouco mais de uma vítima por dia no período.
No mesmo intervalo do ano passado, foram registrados 350 casos. A comparação indica redução nos homicídios dolosos, embora os dados mensais da secretaria não detalhem quantas vítimas foram encontradas em vias públicas, o que impede uma análise específica sobre a sequência recente de cadáveres.
A SSP foi procurada por e-mail e mensagem na quinta-feira (22) para comentar os casos, mas não havia respondido até o horário de publicação da reportagem.
A Polícia Civil investiga se parte das mortes pode estar relacionada a conflitos locais, vinganças ou execuções. Entre as possibilidades consideradas estão crimes associados a disputas entre criminosos e punições promovidas por grupos organizados.
O governo estadual, entretanto, evita atribuir os episódios ao Primeiro Comando da Capital (PCC) sem evidências que sustentem essa relação. Especialistas em segurança pública apontam que facções podem recorrer a julgamentos clandestinos, conhecidos como tribunais do crime, para executar pessoas acusadas de desobedecer às regras impostas pelos grupos.
Nesse contexto, as execuções podem ocorrer após acusações de desvio de recursos, homicídios ou agressões não autorizadas pela organização. Até o momento, porém, não há confirmação oficial de que esse mecanismo explique o conjunto de casos registrados na capital.
Em entrevista a Folha, Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a localização de cadáveres em São Paulo não é um fenômeno novo.
“Encontrar corpo em São Paulo é algo que acontece há 30 anos. Então, não é algo incomum”, afirmou.
O especialista também observou que o PCC teria adotado, em determinados contextos, a prática de esconder corpos em cemitérios clandestinos para dificultar a descoberta dos crimes. Para ele, uma eventual mudança nessa dinâmica poderia representar uma demonstração de força diante das autoridades e da população. A hipótese, contudo, não foi confirmada pela polícia.
Na quarta-feira (21), policiais militares encontraram partes de um corpo feminino dentro de sacos pretos na região da marginal Tietê, próximo ao Parque Novo Mundo, na zona norte.
Conforme o boletim de ocorrência, os agentes desconfiaram de um homem que estava próximo a caixas. Ao receber ordem de parada, ele teria desobedecido e disparado contra os policiais, que revidaram. Dois agentes efetuaram 12 disparos contra o suspeito: um atirou sete vezes e o outro, cinco.
Após a troca de tiros, os policiais fizeram buscas nas proximidades e encontraram os sacos com partes do corpo da mulher. A Polícia Civil apura a relação entre o homem morto e o caso, mas não havia confirmação de que ele fosse o autor do esquartejamento.
Na mesma quarta-feira, outro cadáver foi localizado na avenida Coronel Sezefredo Fagundes, também na zona norte. A vítima foi identificada como um homem de 43 anos que estava desaparecido desde 16 de outubro.
Já em 12 de outubro, um corpo masculino foi encontrado enrolado em um cobertor e amarrado com cordas em uma rua do Belenzinho, na zona leste. Segundo o registro policial, o homem apresentava ferimentos de tiros na cabeça, que estava coberta por um saco plástico.
No bolso do casaco, os investigadores encontraram uma autorização para refeição emitida em 8 de outubro pelo Centro de Acolhida Boracea, localizado na Barra Funda, zona oeste.
Na manhã de quinta-feira (22), um cadáver em avançado estado de decomposição também foi encontrado às margens do rio Tietê, próximo à ponte dos Remédios, na zona oeste. Essa ocorrência, porém, não foi incluída na contagem dos 13 casos porque, segundo a polícia, não havia indícios de morte violenta.
As investigações seguem em andamento. A análise dos laudos periciais e a identificação dos responsáveis são consideradas etapas fundamentais para esclarecer as circunstâncias das mortes e verificar se existe alguma conexão entre os episódios.
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