Política
Publicado em 29/09/2026, às 14h40 Foto: Reprodução Amanda Ambrozio
Entidades da sociedade civil cobram do governo de São Paulo dados atualizados sobre a quantidade de fósforo que chega à represa Guarapiranga, um dos principais mananciais responsáveis pelo abastecimento da Grande São Paulo.
O reservatório atende cerca de 5,6 milhões de pessoas, mas a última estimativa oficial da carga diária de fósforo é de 2018.
A cobrança foi formalizada na quarta-feira (23), quando 42 representantes de movimentos e organizações profissionais divulgaram o manifesto “Salvemos a Guarapiranga”. O grupo afirma que existe um “apagão de dados” sobre a situação ambiental da bacia.
Segundo os representantes, o Mqual (Modelo de Correlação Uso do Solo/Qualidade da Água) deveria ser atualizado periodicamente para medir a quantidade de poluentes que chega ao reservatório.
Dados do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (CBH-Alto Tietê) mostram que as últimas avaliações já apontavam uma situação acima do limite previsto pela legislação.
Em 2014, a carga de fósforo que chegava ao reservatório foi estimada em 306 quilos por dia. Quatro anos depois, em 2018, o volume chegou a 340 quilos diários.
A meta estabelecida pela Lei Específica da Guarapiranga é de 147 quilos por dia. Ou seja, a estimativa de 2018 representava mais que o dobro do limite definido para o manancial.
Segundo a Folha de S. Paulo, o dado não foi atualizado desde então. Nesse período, São Paulo teve três governadores: Geraldo Alckmin, João Doria, Rodrigo Garcia e, desde 2023, Tarcísio de Freitas.
Para Ivan Carlos Maglio, um dos articuladores do manifesto, não basta produzir novos diagnósticos sem estabelecer medidas concretas para reduzir a poluição.
“Não basta repetir os diagnósticos, mas transformá-los em responsabilidades, metas e resultados ambientais”, afirmou.
O fósforo em excesso pode acelerar o processo de eutrofização, que ocorre quando há grande concentração de nutrientes na água e aumenta a proliferação de organismos como cianobactérias e macrófitas.
Segundo a professora Marta Marcondes, da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, as cianobactérias podem produzir microcistinas, toxinas que exigem tratamento adequado para impedir que cheguem à água distribuída à população.
As macrófitas, por sua vez, podem reduzir a quantidade de oxigênio nas camadas mais profundas do reservatório. Quando morrem, também contribuem para o acúmulo de matéria orgânica no fundo da represa.
Para a pesquisadora, uma das principais fontes de fósforo é o esgoto sem tratamento lançado nos rios que abastecem a Guarapiranga. O rio Embu-Mirim é apontado por ela como um dos pontos mais críticos.
Um documento apresentado no fim de 2025 ao Comitê Municipal de Segurança Hídrica da Prefeitura de São Paulo também indicou agravamento das condições do reservatório, com avanço de áreas classificadas como supertróficas e hipertróficas, estágios mais graves da degradação de corpos d'água.
O monitoramento mais recente da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) também mostra concentração de fósforo acima do limite considerado para os pontos analisados.
No boletim referente ao período de abril a junho deste ano, foram identificadas concentrações de 0,05 mg/L no braço do Taquacetuba e 0,16 mg/L no braço do Parelheiros. O limite considerado é de 0,02 mg/L.
Apesar dos resultados, o documento classifica a água como boa para abastecimento público. Para a vida aquática, porém, a avaliação é ruim nos dois braços.
O boletim não apresenta a quantidade total de fósforo que chega diariamente ao reservatório, indicador que depende do Mqual.
O CBH-Alto Tietê informou que uma nova atualização do Mqual está em andamento na Cetesb, com financiamento do Fehidro (Fundo Estadual de Recursos Hídricos) e indicação do próprio comitê. A previsão é que o trabalho seja concluído até o fim de 2026.
Em nota, o governo Tarcísio afirmou que mantém ações de recuperação e proteção da Guarapiranga, incluindo fiscalização e monitoramento da qualidade da água.
A gestão também citou o programa Nossa Guarapiranga, executado pela Sabesp, que prevê cerca de R$ 3 bilhões em investimentos até 2029 e a implantação de aproximadamente 24 mil novas economias de esgoto na região.
Segundo o governo, a Cetesb fiscaliza fontes de poluição e realiza coletas trimestrais para acompanhar a qualidade da água. A companhia também monitora dez pontos destinados à balneabilidade e divulga semanalmente as condições para banho.
A administração estadual afirma que a expansão do saneamento, aliada à fiscalização e ao monitoramento, deve contribuir para reduzir progressivamente a carga de poluentes no manancial.
O governo, porém, não informou qual é a carga atual de fósforo na Guarapiranga e não comentou especificamente a atualização do Mqual.
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