Política
Publicado em 22/03/2026, às 11h32 Foto: Freepik Érica Sena
O consumo de drogas ilícitas no Brasil apresentou crescimento significativo na última década, segundo dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo.
O estudo mostra que o percentual de brasileiros que já experimentaram algum tipo de substância proibida ao menos uma vez na vida saltou de 10,3% para 18,8% em um intervalo de 11 anos, como citado pelo G1.
De acordo com os pesquisadores, o avanço está diretamente ligado ao aumento do consumo de maconha, que passou a ocupar papel central nesse cenário. A tendência acompanha o comportamento observado em outros países ocidentais, onde a substância também ganhou maior aceitação social nos últimos anos.
Segundo a psicóloga Clarice Madruga, coordenadora do levantamento, o aumento já era esperado devido ao longo intervalo entre as edições da pesquisa e à mudança na percepção sobre os riscos associados à maconha.
“O Brasil tinha uma prevalência de consumo mais baixa em 2012. Hoje, esse índice se aproxima da média internacional, principalmente por causa da cannabis”, explica a pesquisadora. Ela destaca ainda que, embora o uso ao longo da vida tenha aumentado, o consumo recente de cocaína e crack apresenta sinais de estabilidade.
Esse comportamento sugere que, ao longo do período analisado, pode ter havido um crescimento pontual no uso dessas substâncias, seguido por uma desaceleração, o que reforça o protagonismo da maconha na elevação geral dos índices.
Outro dado relevante do levantamento é a transformação no perfil de quem consome drogas no país. Embora os homens ainda representem a maioria dos usuários, o crescimento entre mulheres chama atenção.
Entre o público feminino adulto, o percentual de consumo ao longo da vida quase dobrou, passando de 7% para 13,9%. Para os pesquisadores, esse aumento pode estar relacionado a uma percepção equivocada de que a maconha ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade.
“Existe um mal-entendido importante. A cannabis pode, na verdade, aumentar o risco de transtornos ansiosos, especialmente devido à maior potência das substâncias disponíveis atualmente”, afirma Madruga.
O estudo também acende um alerta para o consumo entre jovens. A pesquisa indica que o acesso facilitado e a banalização dos riscos contribuem para o aumento do uso nessa faixa etária.
Especialistas destacam que substâncias psicoativas podem causar impactos significativos no cérebro em desenvolvimento, afetando funções como memória, aprendizado e controle de impulsos.
Considerado uma das principais referências epidemiológicas do país, o Lenad III entrevistou 16.608 pessoas com mais de 14 anos em todas as regiões do Brasil, incluindo áreas urbanas e rurais. O estudo utilizou um método de autopreenchimento sigiloso, garantindo maior precisão nas respostas e reduzindo a subnotificação.
Para os pesquisadores, o enfrentamento do problema exige mais do que campanhas de conscientização baseadas no medo. A solução passa por políticas públicas integradas, que incluam investimento em educação, apoio às escolas e ampliação de atividades culturais e esportivas, especialmente em regiões mais vulneráveis.
O levantamento reforça que o debate sobre drogas no Brasil precisa avançar para além da repressão, incorporando estratégias de prevenção e cuidado, diante de um cenário que continua em transformação.
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