Política
Publicado em 06/02/2026, às 09h00 Foto:Divulgação Érica Sena
Documentos internos, e-mails e depoimentos de corretores obtidos com exclusividade revelam que a correção das redações do Enem 2025 seguiu orientações diferentes das adotadas em edições anteriores, o que pode ter impactado diretamente as notas dos candidatos.
As competências avaliadas permaneceram as mesmas, mas especificações adicionais e mudanças de interpretação tornaram o processo mais rigoroso e subjetivo, segundo especialistas e profissionais envolvidos na correção, como citado pelo G1.
Relatos de estudantes com histórico de alto desempenho se multiplicaram após a divulgação das notas, em janeiro. Candidatos que tradicionalmente alcançavam acima de 900 pontos passaram a receber notas entre 700 e 760, sem alterações evidentes na estrutura ou na qualidade dos textos. A discrepância alimentou suspeitas sobre possíveis mudanças não comunicadas oficialmente.
Uma das diferenças identificadas está na competência 4, que avalia o uso de elementos coesivos. Em anos anteriores, havia parâmetros mais objetivos, com contagem e frequência desses conectivos.
Em 2025, a orientação passou a classificar o uso como “pontual”, “regular”, “constante” ou “expressivo”, abrindo margem para interpretações distintas entre corretores. “Perdemos o parâmetro técnico que existia antes”, relatou um avaliador sob condição de anonimato.
Outra mudança ocorreu na competência 5, responsável pela proposta de intervenção. Embora a exigência dos cinco elementos tenha sido mantida, uma nota de rodapé incluiu punição maior para a ausência específica do item ‘ação’, elevando o desconto de 40 para 120 pontos. Segundo corretores, essa orientação não foi amplamente divulgada aos candidatos.
A terceira diferença envolve o repertório sociocultural, avaliado na competência 2. Um documento complementar enviado após os treinamentos determinou que repertórios considerados inadequados também impactassem a competência 3. Na prática, um mesmo erro passou a ser penalizado duas vezes, o que explicaria quedas expressivas nas notas.
O Inep afirma que não houve mudança nos critérios de correção e reforça que o processo segue com dupla correção e possibilidade de terceira avaliação para garantir isonomia.
Especialistas, porém, alertam que alterações operacionais não comunicadas comprometem a comparabilidade entre edições, especialmente em um cenário em que o Sisu passou a aceitar notas de três anos diferentes.