Política
Publicado em 26/08/2026, às 09h22 - Atualizado às 09h22 Foto: Reprodução Linkedin Tatiana Ribeiro
O ex-presidente do conselho de administração da Reag Investimentos, João Carlos Mansur, apresentou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma proposta de acordo de delação premiada com informações sobre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo informações divulgadas pelo UOL, o acordo está em fase final de ajustes antes de ser formalmente assinado. A proposta reúne 17 anexos com relatos sobre supostas irregularidades e crimes financeiros. Como parte da negociação, Mansur também deverá pagar R$ 40 milhões em multas, valor que corresponde ao montante que teria recebido da Reag durante o período em que esteve à frente da empresa.
O principal alvo das informações apresentadas pelo executivo é Daniel Vorcaro. Conforme o relato atribuído a Mansur, ele teria participado de negociações diretamente com o banqueiro e afirma que, durante essas tratativas, teria identificado indícios de que Vorcaro tinha conhecimento dos supostos desvios e estaria por trás de determinadas operações.
SEgundo o UOl, a proposta ainda precisa ser formalizada. Depois da assinatura, o material deverá ser encaminhado ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que é o relator das investigações relacionadas ao Banco Master. Caberá ao magistrado avaliar se os requisitos legais estão preenchidos para uma eventual homologação do acordo.
De acordo com a apuração, um dos principais objetivos da PGR com a colaboração é obter informações que permitam identificar o caminho dos recursos que teriam sido desviados do Banco Master e, dessa forma, aumentar as possibilidades de recuperação dos valores. Mansur também teria apresentado aos investigadores nomes de novas empresas e fundos que supostamente integravam a estrutura investigada.
Entre os documentos apresentados à PGR estão informações sobre fundos administrados pela Reag. Em um dos anexos relacionados a Vorcaro, Mansur teria relatado a existência de pessoas que atuariam formalmente como cotistas de fundos, mas que, segundo ele, estariam beneficiando o banqueiro.
Um dos casos citados é o Jaguar Multimarket Fund Ltd, registrado nas Ilhas Cayman. O fundo teria recebido aproximadamente R$ 494 milhões do Banco Master.
Segundo o relato atribuído a Mansur, o beneficiário formal do fundo seria o empresário Benjamin Botelho, que manteve negócios com o Banco Master e foi sócio da Sefer, gestora que também está sob investigação. Mansur, no entanto, sustentaria que o verdadeiro beneficiário dos recursos seria Vorcaro.
As investigações conduzidas pelo Banco Central e pela Polícia Federal também apuram um possível mecanismo envolvendo empréstimos concedidos pelo Banco Master a empresas recém-criadas e sem atividade operacional relevante.
Segundo as suspeitas, os recursos obtidos por essas empresas teriam sido posteriormente direcionados para fundos administrados pela Reag. Esses fundos, por sua vez, teriam utilizado os valores para adquirir ativos por preços considerados muito acima dos praticados no mercado.
Um dos exemplos mencionados nas investigações é o fundo High Tower, que teria adquirido cerca de R$ 850 milhões em carteiras de crédito originadas pelo extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Esses ativos, posteriormente, teriam sido registrados com valor de aproximadamente R$ 10 bilhões.
Ainda segundo o UOL, seis fundos relacionados à Reag apresentavam, somados, patrimônio declarado de R$ 102,4 bilhões. Investigadores, entretanto, suspeitam que parte desse patrimônio possa ter sido artificialmente inflada dentro da estrutura financeira investigada.
A colaboração apresentada por Mansur também contém relatos envolvendo políticos, segundo a reportagem.
Um dos nomes citados é o senador Jaques Wagner (PT-BA). Conforme o relato, Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, teria pedido a Mansur que comprasse ingressos para um show da cantora Taylor Swift no Allianz Parque, em São Paulo. Os ingressos, avaliados em R$ 53,3 mil, teriam sido destinados ao senador.
Procurado pela reportagem, Wagner afirmou que a aquisição ocorreu a partir de um pedido pessoal feito a um amigo para ajudá-lo a conseguir os ingressos. O senador também declarou não conhecer Mansur e afirmou não ter mantido relação com a Reag.
Outro político mencionado é ACM Neto (União-BA), candidato ao governo da Bahia e que teria mantido investimentos administrados pela Reag.
De acordo com a reportagem, Neto era cotista do fundo Seattle 95, administrado pela Reag até 2025. Por meio desse fundo, foram realizadas aplicações no Structure, veículo composto por empréstimos consignados originados pelo Banco Master.
ACM Neto afirmou que os recursos utilizados nos investimentos tinham origem lícita e que a contratação da Reag ocorreu para atender às regras estabelecidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O político também declarou que as operações foram devidamente declaradas e realizadas dentro da legalidade.
João Carlos Mansur também é investigado em diferentes frentes. O executivo foi alvo da Operação Carbono Oculto, que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro e a atuação de organizações criminosas no setor de combustíveis.
A Reag, que atuava na gestão e administração de fundos, posteriormente foi liquidada pelo Banco Central.
Mansur também passou a ser investigado por sua relação com o Banco Master no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro André Mendonça.
De acordo com o UOL, o executivo também negocia uma possível colaboração com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), responsável pelas investigações relacionadas à Operação Carbono Oculto.
Entre os elementos apresentados à PGR estão operações envolvendo fundos da Reag que teriam sido utilizados por Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva, conhecidos pelos apelidos de “Primo” e “Beto Louco”. Os dois empresários são investigados por suspeitas relacionadas ao setor de combustíveis.
A relação financeira entre o Banco Master e fundos administrados pela Reag já vinha sendo analisada pelas autoridades antes da proposta de delação de Mansur.
Em julho, documentos apresentados à Justiça pelo liquidante do Banco Master indicaram que a instituição havia transferido pelo menos R$ 3,6 bilhões em créditos de dívidas para fundos administrados pela Reag. Os valores estavam relacionados a um conjunto de 112 operações de crédito cedidas a terceiros.
Meses antes, durante depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado, Mansur confirmou que o Banco Master era cliente da Reag. Na ocasião, porém, afirmou que a relação entre as duas instituições seguia um modelo semelhante ao mantido pela gestora com outros clientes.
A eventual homologação da delação pela Justiça poderá ampliar as investigações sobre as operações envolvendo o Banco Master, a Reag e os fundos citados, além de fornecer novos elementos para identificar a origem, o destino e os possíveis beneficiários dos recursos investigados.
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