Política
Publicado em 23/01/2026, às 13h02 - Atualizado às 13h02 Foto: reprodução/Freepik Ana Caroline Alves
A queda no uso do transporte público em São Paulo não está ligada apenas à redução da oferta ou às mudanças no mundo do trabalho. Os crimes cometidos dentro de ônibus, trens e estações aparecem como um dos principais fatores que afetam diretamente a percepção de segurança e alteram os hábitos de quem depende diariamente do sistema coletivo.
Casos de furtos, roubos e assédio sexual são recorrentes, principalmente em veículos superlotados e nos horários de pico.
O medo de novas ocorrências, somado à falta de confiança na punição dos responsáveis, faz com que muitos passageiros deixem de denunciar e passem a adotar estratégias individuais de proteção ou, quando possível, evitem o transporte público.
Levantamento da Secretaria da Segurança Pública (SSP), obtido via Lei de Acesso à Informação, aponta que os casos de importunação sexual no transporte público da capital bateram recorde em 2023, com 601 registros — o maior número desde que a lei que tipifica o crime entrou em vigor, em 2018.
Na prática, ao menos um caso foi registrado a cada 14 horas. Em apenas um ano, as ocorrências cresceram 116%, saltando de 277 em 2022 para 601 em 2023.
Morador de Guarulhos, Rodrigo Felipe relata um episódio de assédio ocorrido em 2019, no metrô da Linha 12, durante o trajeto entre Brás e Engenheiro Goulart, em um trem lotado. Segundo ele, a situação aconteceu no retorno do trabalho.
“Estava voltando do trabalho quando entendi o que estava acontecendo. Havia um senhor pressionando seu órgão genital em mim; quando eu tentava mudar de posição, ele se mexia para continuar ali.”
Ele conta que não buscou ajuda nem registrou denúncia após o ocorrido, pois se sentiu humilhado e, no momento, não conseguia processar o que havia acontecido. O episódio também gerou um forte sentimento de impotência.
Situações como essa evidenciam o silêncio em torno do assédio sexual no transporte público, tanto entre mulheres quanto entre homens. Mesmo com a existência de medidas para coibir esse tipo de crime, como vagões exclusivos para mulheres ou canais de denúncia, a subnotificação dificulta a formulação de políticas específicas de prevenção.
Ainda assim, muitos casos, como o de Rodrigo, nunca chegam às estatísticas oficiais.
A análise da série histórica mostra que 76% dos crimes sexuais registrados no transporte público da capital ocorreram no metrô e nos trens. As ocorrências se distribuem por vagões, plataformas, escadas, elevadores e até banheiros das estações.
O horário também é um fator relevante: quatro em cada dez crimes sexuais aconteceram no período da manhã, seguido da noite e da tarde. As regiões com maior número de registros são as zonas Sul, Leste e Central, com destaque para bairros como Brás, Sé, Tatuapé, Barra Funda, Santo Amaro e República.
Além da violência sexual, furtos e roubos continuam sendo as ocorrências mais frequentes no transporte público. Entre janeiro de 2022 e janeiro de 2024, foram registrados 34.248 incidentes em São Paulo, uma média de 71 crimes por dia, com concentração em terminais, estações e regiões centrais da cidade.
A auxiliar de limpeza Margarida Moura Martins, moradora da Grande São Paulo, foi vítima de furto em um ônibus intermunicipal lotado.
“Eu estava voltando para casa do trabalho, em um sábado à tarde. Peguei o ônibus intermunicipal da linha 392, no Tamboré. O ônibus estava muito cheio, passei pela catraca e fiquei em pé. Fiz o percurso todo assim. Quando desci no ponto perto de casa, percebi que minha mochila estava com o bolso aberto e meu celular não estava mais lá.”
Após o furto, Margarida relata mudanças de comportamento, mas afirma que a sensação de insegurança permanece. Depois do ocorrido, passou a ficar muito mais atenta aos pertences.
Assim como ocorre em muitos casos, Margarida não registrou boletim de ocorrência. “Acabei não registrando por achar que não adiantaria e que a empresa de transporte provavelmente não iria resolver nem se responsabilizar pela minha perda.”
Procurada pelo BNews São Paulo, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) enviou uma nota reforçando a necessidade de registro das ocorrências para orientar o trabalho das forças de segurança:
A Secretaria da Segurança Pública reforça a importância de que as vítimas registrem o boletim de ocorrência, seja por meio da Delegacia Eletrônica ou na unidade policial territorial mais próxima.
A medida é fundamental para a adequada investigação dos crimes e para permitir às forças de segurança um mapeamento mais preciso das áreas com maior incidência criminal. A SSP destaca ainda que a Polícia Militar reorienta constantemente o policiamento ostensivo nessas regiões, com o objetivo de coibir diferentes modalidades criminosas.
Entre janeiro e novembro, os roubos apresentaram queda de 17% no estado de São Paulo e de 14% na capital paulista, o que representa mais de 18,3 mil crimes evitados. Somente em novembro, o estado registrou a maior redução do ano, com queda de 26% nos roubos, enquanto a capital teve recuo de 22%, consolidando o 11º mês consecutivo de diminuição desse tipo de crime.
Para especialistas, os crimes no transporte público criam um ambiente de medo constante, que afeta diretamente a decisão de deslocamento da população. A insegurança leva passageiros a mudarem rotinas, adotarem estratégias defensivas ou buscarem alternativas individuais, aprofundando a crise do sistema coletivo.
Enquanto ônibus, trens e metrô continuarem associados a experiências de risco e vulnerabilidade, a violência seguirá sendo um dos principais empecilhos para a recuperação do transporte público em São Paulo.
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