Polícia

Queda nos roubos, mas aumento do medo: a contradição da segurança em SP em 2025

Foto: Pexels
Apesar da queda histórica nos roubos, expansão de quadrilhas, circulação de armas ilegais e vulnerabilidade de regiões periféricas redesenham o cenário da criminalidade na maior cidade do país  |   BNews SP - Divulgação Foto: Pexels

Publicado em 28/11/2025, às 14h50   Érica Sena e Marcela Guimarães



Os assaltos armados continuam entre os principais desafios da segurança pública na capital paulista, mesmo com os indicadores de roubos registrando os menores níveis em 25 anos.

Dados recentes da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), relatos de vítimas e análises da inteligência policial compartilhados com o BNews São Paulo revelam que, embora a criminalidade patrimonial tenha recuado, a dinâmica dos crimes violentos nas ruas de São Paulo vem se transformando, com concentração de ocorrências em pontos específicos e a persistência do acesso ilegal a armas.

Cidade de São Paulo vista de cima
Foto: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

A geografia do risco: onde os assaltos se concentram

Análises recentes da SSP mostram que três regiões continuam liderando os índices de crimes patrimoniais armados na capital paulista. Veja:

Capão Redondo (Zona Sul)

O distrito permanece no topo das estatísticas de roubos, impulsionado pelo grande fluxo de moradores, transporte público saturado e presença de quadrilhas especializadas em abordagens rápidas. As ações geralmente ocorrem em ruas de ligação entre bairros e em pontos próximos a terminais de ônibus.

Campo Limpo (Zona Sul)

Também na periferia sul, o Campo Limpo enfrenta desafios estruturais que favorecem a atuação de criminosos, como iluminação irregular, vias estreitas, falta de monitoramento e alta densidade populacional. A região registra grande incidência de motoassaltos e roubos a pedestres.

Centro (Sé, República, Liberdade e Brás)

Segundo estudo do Centro de Inteligência da Polícia Militar, essas áreas concentram algumas das maiores taxas de roubo de celular por 100 mil habitantes.

O ambiente de intenso fluxo de turistas, comércio popular e transporte coletivo cria oportunidades para assaltantes, principalmente no período da noite e nas imediações de estações de metrô.

A estatística com nome e sobrenome

Marcelo Vagner, de 47 anos, contador e morador da região da República, faz parte dessa estatística crescente de vítimas de assaltos armados no Centro de São Paulo. Ao BNews São Paulo, ele conta que foi assaltado na região onde vive, no Centro, por volta das sete da noite de um sábado, em agosto, enquanto caminhava distraído e usando o celular em um trajeto que fazia diariamente. “Do nada, para uma moto do meu lado e o rapaz bota a arma na minha cabeça pedindo celular e carteira”, relembra.

Acostumado a circular a pé pela região, ele diz que já viveu outras situações semelhantes, mas assalto à mão armada foi uma novidade. “Só entreguei, nessas horas não pode pensar muito, não”. Após o crime, Marcelo pediu para a afilhada registrar o boletim de ocorrência on-line, procedimento rápido, mas que não impediu a perda total dos documentos e do celular, que não tinha seguro.

O episódio mudou sua relação com a cidade. “O cuidado tem que ser em qualquer lugar, não tem mais isso, bandido tá em todo canto”, comenta. Para ele, melhorias recentes no policiamento da região têm feito diferença, mas Marcelo reforça que a segurança ainda está longe do ideal.

O que explica a persistência dos assaltos armados?

De acordo com a SSP, há quadrilhas especializadas em roubos patrimoniais, principalmente os crimes cometidos a pé ou em abordagens rápidas nas ruas, que seguem atuando em áreas de grande circulação.

Mesmo com a queda dos indicadores, esses grupos continuam estruturados, aproveitando falhas de iluminação, movimentação intensa e deslocamentos noturnos.

A pasta também aponta a circulação de armas ilegais como um fator crucial. Por mais que as apreensões tenham aumentado, o fluxo clandestino ainda abastece os criminosos e eleva o risco de confrontos violentos. Questões econômicas e sociais, como desemprego e desigualdade em regiões vulneráveis, também contribuem para a permanência desse tipo de crime.

Por outro lado, parte da redução recente nos roubos é atribuída a investimentos em policiamento inteligente, integração de forças e tecnologias como drones, câmeras e sistemas de leitura automática de placas, a exemplo do programa Smart Sampa.

Horários e locais mais perigosos

  • Das 18h às 22h: período de maior incidência, quando pedestres circulam de volta para casa, muitas vezes carregando celulares expostos;
  • Madrugada em regiões centrais: bares, eventos e fluxo turístico atraem criminosos que buscam vítimas isoladas;
  • Pontos de ônibus mal iluminados em bairros periféricos: locais com grande fluxo, mas pouca vigilância;
  • Travessias próximas ao Centro: principalmente para quem caminha entre estações, estacionamentos e paradas de ônibus.

Relatos de vítimas também indicam aumento de tentativas de sequestro-relâmpago e de abordagens em semáforos, embora a SSP não disponha de estatísticas consolidadas específicas sobre esses recortes.

Como as vítimas se tornam mais vulneráveis

Comportamentos aparentemente simples podem elevar o risco de ser abordado. Pesquisas da SSP comprovam que exibir objetos de valor, como celulares e relógios, mesmo por poucos segundos, pode chamar atenção de grupos que monitoram pedestres à distância.

Caminhar sozinho à noite, principalmente em ruas estreitas e com pouca iluminação, também aumenta as chances de ser alvo. Reagir ao assalto é outro fator de destaque.

Em abordagens armadas, qualquer movimento brusco ou resistência física pode intensificar a violência. A orientação policial segue priorizando a preservação da vida: entregar os pertences quando houver ameaça direta costuma reduzir danos.

Nesses casos, para minimizar os riscos, algumas medidas de precaução podem ser adotadas, como avisar alguém de confiança sobre o trajeto feito, usar aplicativos de alerta, memorizar números de emergência e utilizar rotas mais movimentadas.

Crimes em queda histórica, mas desafios persistem

Os números mais recentes revelam oscilações. Enquanto a sensação de insegurança persiste em muitas regiões, São Paulo registrou, em setembro de 2025, os menores índices de roubos em 25 anos.

Roubos em geral

  • Setembro de 2025: 7.966 casos (queda de 5,9%)
  • Acumulado de janeiro a setembro: 76.188 registros (queda de 12,2%)

Roubos de veículos

  • Setembro: 800 casos (queda de 14,9%)
  • Acumulado no ano: 7.650 registros (queda de 15,8%)

Além disso, o número de veículos recuperados alcançou recorde desde 2020: 1.584 recuperações em setembro, alta de 7,2%. Mesmo assim, os indicadores de crimes violentos preocupam.

O latrocínio, roubo seguido de morte, contabiliza 28 ocorrências em 2025, e os furtos continuam em patamar elevado, somando 188.976 registros até novembro.

Tecnologia e policiamento: o que tem funcionado

Programas de vigilância digital têm ganhado espaço nas estratégias policiais. O uso amplia a capacidade de monitoramento da cidade e auxilia na localização de suspeitos e veículos.

A integração entre Polícia Civil e Militar, segundo a SSP, também contribuiu para resultados expressivos. A área da 1ª Seccional, que abrange o Centro, garantiu quedas significativas nos nove primeiros meses do ano, inclusive com mais de 5.800 prisões em flagrante.

Por que investigar assaltos armados ainda é tão difícil

Investigações desse tipo de crime dependem de recursos humanos especializados — delegados, investigadores e escrivães — que muitas vezes enfrentam sobrecarga. A ausência de evidências materiais em abordagens rápidas e a dificuldade de as vítimas reconhecerem criminosos são entraves frequentes.

Outro desafio é o rastreamento de armas usadas nos crimes. Parte delas nunca é apreendida e, quando é, nem sempre é possível chegar ao fornecedor ou ao traficante responsável pela distribuição, justamente por serem ilegais.

Como prevenir: o papel das comunidades

Além das medidas individuais, iniciativas comunitárias têm se mostrado importantes para reduzir a vulnerabilidade. Grupos de bairro, redes de mensagens para alertas, iluminação coletiva instalada por moradores e solicitação organizada de rondas para a PM tornam regiões mais seguras.

No Centro, comerciantes da região da República implementaram um grupo de monitoramento integrado com câmeras particulares. Em bairros da Zona Sul, moradores criaram rotas seguras compartilhadas para quem retorna do trabalho à noite.

O que esperar daqui para frente

Especialistas avaliam que, apesar da queda consistente nos indicadores de roubos, os assaltos armados devem continuar como tema central do debate sobre segurança pública em São Paulo.

O avanço tecnológico e o reforço do policiamento mostram resultados, mas especialistas defendem que a segurança não se resume a prisões; passa por urbanismo, iluminação, transporte eficiente, educação e combate ao fluxo de armas.

Nota oficial da SSP-SP

“As Polícias Civil e Militar seguem com as medidas de prevenção e repressão a ações criminosas. O policiamento foi reforçado em toda a capital, com prioridade para os pontos com maior incidência de crimes patrimoniais. Somente nos nove primeiros meses do ano, o trabalho integrado das forças de segurança na área da 1ª Seccional (Centro) possibilitou a redução de 18,9% dos roubos; 22,22% dos roubos de veículos e 27,22% dos furtos de veículos na capital. Ainda no período, 5.816 pessoas foram presas e apreendidas em flagrante e 149 armas foram retiradas das ruas.”

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp