Política
Publicado em 21/09/2026, às 13h55 Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil Amanda Ambrozio
A velocidade dos ônibus municipais de São Paulo chega a cair para 12,37 km/h às 17h, no início do horário de pico da tarde.
O índice é inferior à velocidade de uma galinha, que pode atingir cerca de 14,5 km/h, e representa menos da metade da velocidade de uma abelha, que chega a 25 km/h.
Os dados foram levantados pela SPTrans, estatal responsável pelo gerenciamento do transporte urbano por ônibus na capital, e mostram que os coletivos enfrentam dificuldades para circular, principalmente no sentido dos bairros durante o pico da tarde.
Segundo a Folha de S. Paulo, a velocidade de 12,37 km/h foi registrada às quartas-feiras, dia em que os ônibus apresentam o pior desempenho.
Nas segundas e terças-feiras, a menor média chega a 13,08 km/h. Já durante a madrugada, fora dos horários de maior movimento, os veículos alcançam a maior velocidade média: 28,84 km/h às 2h das segundas-feiras.
As aferições da SPTrans indicam que, apesar de pequenas variações ao longo da semana, os ônibus circulam mais devagar do que antes da pandemia.
No horário de pico da manhã, no sentido centro, a velocidade média atual é de 15 km/h. Em 2019, era de 16 km/h. Nas faixas exclusivas, a média passou de 20 km/h para 19 km/h, enquanto nos corredores caiu de 22 km/h para 20 km/h.
No pico da tarde, no sentido bairro, os coletivos registram média de 16 km/h, ante 15 km/h em 2019. Nas faixas exclusivas, a velocidade permaneceu em 17 km/h nos dois períodos. Já nos corredores, houve uma pequena queda, de 20 km/h para 19 km/h.
A lentidão não é exclusiva da capital paulista. Em Paris, a velocidade média dos ônibus nos horários de pico foi de 8,85 km/h em 2024. Em Barcelona, chegou a 10,8 km/h. Londres registrou 14,76 km/h, índice ligeiramente superior ao de São Paulo.
Segundo a Associação Nacional de Transporte Urbano (NTU), não há um estudo recente que reúna indicadores de velocidade de ônibus de todo o país, e poucos municípios disponibilizam esse tipo de dado.
O técnico de informática Carlos Henrique dos Santos, de 51 anos, mora no Bixiga, região central, e conta que já sabe que o trajeto de volta para casa pode demorar quando precisa ir à região da Rua 25 de Março ou à zona norte.
Ele cita a linha 106A, que liga Santana ao Itaim Bibi, como um exemplo das dificuldades enfrentadas no trânsito.
“A linha Santana-Itaim Bibi, quando volta, é cruel”, afirma. “O trecho do [Terminal] Bandeira, que não tem faixa exclusiva, mata a linha das 17h às 19h30.”
A comerciante Luiza Costa Oliveira, de 45 anos, moradora da Zona Sul, também relatou que um motorista de ônibus evitava acelerar por medo de ser multado, mesmo com a reclamação dos passageiros.
Enquanto isso, outros coletivos que vinham atrás precisavam ultrapassar o veículo na Avenida Ibirapuera.
“Naquele dia era para eu estar em casa por volta das 18h45, mas só cheguei depois das 20h”, conta.
Para Ciro Biderman, diretor do FGV Cidades, a lentidão dos ônibus reflete a falta de prioridade dada ao transporte público. Ele defende investimentos em corredores eficientes à esquerda e na ampliação das faixas exclusivas.
O especialista cita como exemplo os corredores da Avenida 9 de Julho, que conectam a região central ao Itaim Bibi, na zona oeste. Segundo ele, a velocidade dos ônibus poderia aumentar significativamente com infraestrutura que reduzisse a interferência do trânsito geral.
Biderman afirma que dobrar a velocidade dos coletivos poderia reduzir custos operacionais, como os relacionados à contratação de motoristas e ao consumo de combustível.
A maior fluidez também permitiria aumentar a frequência dos ônibus nos pontos e reduzir o tempo de espera dos passageiros.
“Geralmente não se tem coragem de priorizar os ônibus porque o retorno político é baixo. O próprio usuário sonha em ter um carro”, diz.
Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans afirmaram que a gestão Ricardo Nunes (MDB) entregou 54 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus e um novo trecho do corredor Itaquera, na zona leste.
A Prefeitura também informou que estão em andamento obras dos BRTs Radial Leste e Aricanduva, além dos corredores Celso Garcia, Itaquera, Santo Amaro, Amador Bueno da Veiga, Interlagos e Estrada de Itapecerica.
Segundo a administração municipal, as intervenções devem contribuir para melhorar a velocidade média dos coletivos quando forem concluídas.
A gestão também destacou que São Paulo possui a maior frota de ônibus elétricos do país, com 1.759 veículos. A Prefeitura informou ainda que o número de ônibus com ar-condicionado aumentou de 6.804, em 2019, para 12.120 atualmente. Segundo a nota, 100% da frota operacional conta com entradas USB e Wi-Fi.
Além dos problemas de circulação, o sistema de ônibus da capital está no centro de investigações sobre a possível infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas do setor.
A Operação Vectura Corrupta apontou que a facção controlaria 12 empresas de ônibus da Grande São Paulo em um esquema de lavagem de dinheiro. Entre as companhias investigadas está a Transwolff, que atua na zona sul da capital e nega irregularidades.
As informações constam da representação que deu origem à operação deflagrada no dia 17, que resultou na prisão do ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil).
O sistema de transporte coletivo paulistano é dividido em três lotes: o primeiro reúne veículos de maior porte que fazem ligações entre grandes eixos da cidade; o segundo, chamado de articulação regional, conecta bairros aos corredores; e o terceiro abrange linhas locais.
Segundo a investigação, as empresas suspeitas de manter relações com a facção estão concentradas nesse último grupo.
A Prefeitura afirmou ter criado um grupo de trabalho para analisar os elementos da investigação e declarou que está examinando contratos, documentos e eventuais vínculos com os fatos apurados.
A gestão também disse que não compactua com irregularidades e que continuará colaborando com as autoridades.
A lentidão e a irregularidade dos intervalos estão entre os fatores que levam passageiros a buscar alternativas individuais de deslocamento, incluindo mototáxis, segundo o especialista em mobilidade Sérgio Ejzenberg, mestre em engenharia de transportes.
De acordo com dados da SPTrans citados por ele, o sistema transportou quase 212 milhões de passageiros em julho de 2019, contra 166,5 milhões no mesmo mês de 2026, uma redução de aproximadamente 22%.
No mesmo período, a frota de ônibus passou de 14.151 para 13.573 veículos.
“É um ciclo destrutivo, cai o número de passageiros, de ônibus e da velocidade”, afirma Ejzenberg.
A combinação de trânsito intenso, infraestrutura insuficiente e redução no número de passageiros mantém o desafio de tornar o transporte coletivo mais rápido e atrativo para quem depende dos ônibus na capital.
Ônibus de romeiros que caiu de ribanceira estaria com pneu careca e não tinha autorização para viagem
Feriado de 7 de Setembro trava rodovias de SP com quase 100 km de lentidão no sábado