Política
Publicado em 18/08/2026, às 07h00 Fotos: Reprodução e TJ-MG Amanda Ambrozio
O juiz Milton Lívio Lemos Salles, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG), foi afastado do cargo pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após ser flagrado consumindo bebida alcoólica e fumando durante uma sessão de julgamento virtual.
O episódio ocorreu na segunda-feira (10), e a sessão foi suspensa depois que os participantes perceberam o comportamento do magistrado.
Salles é juiz de direito auxiliar em uma unidade de segunda instância do TJ-MG e atua em processos relacionados ao direito de família.
Após a repercussão das imagens, ele publicou um vídeo nas redes sociais no qual afirmou ser vítima de difamação e fez críticas a integrantes e órgãos do Judiciário.
O caso também trouxe à tona um episódio anterior envolvendo o magistrado.
Em 2020, quando atuava na 4ª Vara Criminal de Belo Horizonte, Salles foi até o prédio onde morava uma desembargadora para questionar uma nota recebida em um processo de promoção por merecimento.
Segundo a apuração realizada pelo tribunal na época, ele apresentava sinais de embriaguez.
O porteiro do edifício relatou que o juiz carregava uma lata de cerveja, apresentava odor de álcool e caminhava de forma cambaleante.
A desembargadora não autorizou sua entrada e posteriormente apresentou uma representação ao tribunal. As supostas ameaças atribuídas a Salles, porém, não foram comprovadas.
O episódio resultou em uma sindicância e, posteriormente, em um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Em 2022, o Órgão Especial do TJ-MG considerou a acusação procedente e aplicou ao magistrado uma pena de advertência.
A sequência de episódios levanta uma discussão que vai além do caso específico: quando o consumo de álcool deixa de ser ocasional e passa a representar um problema na vida profissional?
Em entrevista ao BNews São Paulo, o psicólogo Rafael Ambrosio de Lima descreve que alguns comportamentos podem indicar que a relação com o álcool deixou de ser recreativa e começou a produzir consequências no ambiente profissional.
Entre eles estão queda de produtividade, dificuldade de concentração, esquecimentos e erros recorrentes em tarefas que antes eram realizadas normalmente.
“Problemas disciplinares e de relação, como consumo de álcool durante o expediente, chegar alcoolizado ou com ressaca frequentemente e piora nas relações com os colegas” também são sinais de alerta, explica o especialista.
Rafael ressalta, porém, que um episódio isolado não permite concluir que uma pessoa tenha dependência de álcool.
O que deve ser observado é a frequência dos comportamentos e os prejuízos provocados em diferentes áreas da vida.
“Um episódio isolado pode acontecer com qualquer pessoa, porém, se os comportamentos problemáticos começam a ficar frequentes e afetam diversas áreas da vida do indivíduo — como vida familiar, profissional e social — pode ser o sinal de que a pessoa está perdendo ou já perdeu o controle na sua relação com o álcool”, afirma.
De acordo com o psicólogo, pessoas que desenvolvem uma relação problemática com o álcool podem ter dificuldade para reconhecer os prejuízos causados pelo consumo.
A situação pode fazer com que o indivíduo tente normalizar o próprio comportamento e minimize os impactos da bebida na rotina.
O especialista também chama atenção para o efeito da pressão profissional. Em cargos de alta responsabilidade, o álcool pode acabar sendo utilizado como uma forma de aliviar temporariamente o estresse, a ansiedade e a preocupação.
“O álcool proporciona, de forma momentânea, um relaxamento após um longo dia estressante e cheio de preocupações no trabalho, porém pode virar um hábito problemático porque, muitas vezes, se torna a forma mais rápida e fácil que um indivíduo encontra de alcançar esse relaxamento”, afirma.
Outro fator apontado pelo psicólogo é a expectativa de que pessoas em posições de liderança demonstrem força, controle e autossuficiência.
“Muitas vezes, o indivíduo nessa posição cria expectativas de autossuficiência, com dificuldade em reconhecer suas vulnerabilidades e medo de perder credibilidade entre os colegas”, diz.
Oambiente ao redor também pode contribuir para que o problema permaneça escondido.
Colegas e familiares podem evitar abordar o assunto por medo de parecerem desrespeitosos, de prejudicarem a carreira da pessoa ou de não saberem como conversar sobre o consumo de álcool.
Segundo o psicólogo, a abordagem deve partir de comportamentos concretos e observáveis, sem julgamento.
“A maneira mais adequada de abordar uma pessoa que está com problemas com o uso de álcool é apresentando, de forma acolhedora e respeitosa, os fatos e mudanças observáveis no comportamento do indivíduo”, orienta.
No ambiente profissional, instituições também podem contribuir oferecendo canais sigilosos de acolhimento e encaminhamento para profissionais especializados.
Até o momento, o juiz permanece afastado de suas funções e o procedimento administrativo que apura sua conduta segue em andamento.
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