Política
Publicado em 20/08/2026, às 07h00 Foto: Reprodução/ Redes Sociais Tatiana Ribeiro
Leonardo “Avalanche”, presidente do PRTB e candidato a vice-presidente da República na chapa de Pablo Marçal, é réu na Justiça de São Paulo por suspeitas relacionadas a crimes como associação criminosa, ameaça e manipulação de sistemas públicos de informações.
O processo foi recebido pela Justiça em março e tramita em segredo de Justiça por ter origem em uma denúncia de violência política contra uma mulher.
Além da ação judicial, Avalanche é alvo de pelo menos outros cinco inquéritos conduzidos pela Polícia Federal, que apuram suspeitas relacionadas a crimes de natureza semelhante.
Duas pessoas obtiveram medidas protetivas contra o político, que está proibido de se aproximar delas a menos de 500 metros e de manter qualquer tipo de contato.
Uma das testemunhas que prestaram depoimento no caso trabalhava para Avalanche e passou a contar com proteção da Polícia Federal. Segundo o relato apresentado às autoridades, ela teria presenciado diferentes episódios envolvendo o político, entre eles o suposto encaminhamento da então vice-presidente do PRTB, Rachel de Carvalho, a uma espécie de tribunal ligado ao crime organizado, onde teria sido pressionada a deixar o cargo.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), após investigação da Polícia Federal, um dos episódios ocorreu em 16 de março de 2024, data do aniversário de Rachel de Carvalho.
Segundo o documento, Rachel teria sido atraída para o escritório de Joaquim Pereira de Paulo Neto, advogado de Avalanche. No local, conforme a acusação, ela foi submetida a ameaças e pressões depois que Leonardo dissolveu o diretório paulista do PRTB, que era comandado por ela.
Ainda segundo a denúncia, o controle do diretório teria passado posteriormente para um integrante do PCC e, depois, para o advogado Joaquim Pereira.
O MPE afirma que, durante o encontro, Rachel teria ouvido ameaças caso não aceitasse as determinações de Avalanche. O conteúdo consta no processo com base no depoimento prestado pela ex-dirigente às autoridades.
A pressão teria continuado nas semanas seguintes. Em 3 de abril, um dia após a morte do pai, Rachel estava em uma unidade do McDonald’s quando, segundo seu relato à polícia, homens ligados a Avalanche apareceram no estabelecimento.
Ela afirmou ter sido levada para um local onde teria ocorrido uma espécie de “tribunal do crime”, com a presença de pessoas que seriam integrantes do PCC. Segundo o depoimento, os celulares dos presentes foram recolhidos durante o encontro.
Rachel também relatou ter sido ameaçada para assinar um documento de renúncia à vice-presidência do partido. Conforme a denúncia do MPE, Patrícia Reitter, consultora jurídica do PRTB e sócia de Joaquim, teria afirmado que Rachel poderia sofrer consequências graves caso não assinasse o documento.
A acusação afirma ainda que Patrícia teria se apresentado como integrante do PCC e dito que a organização criminosa teria influência sobre o partido. Em 2024, Avalanche também teve um áudio divulgado publicamente no qual teria feito referência a uma ligação com a facção.
Segundo a denúncia, o celular de Rachel foi entregue à secretária de Avalanche, que havia encaminhado previamente um termo de renúncia para assinatura digital. Ainda conforme o MPE, uma fotografia de Rachel teria sido feita durante o procedimento e utilizada para formalizar a renúncia.
Outro episódio teria ocorrido em 12 de março, em um restaurante de São Paulo. Segundo Rachel, Avalanche teria feito uma ameaça de morte e dito que, caso recebesse determinada ligação com a frase “pega tua vara e vai pescar”, deveria se despedir dos familiares. Duas testemunhas teriam confirmado à polícia que ouviram a declaração.
As acusações estão relacionadas também à disputa pelo controle do PRTB após a morte de Levy Fidelix, fundador da legenda, em abril de 2021.
Após a morte do fundador, três grupos passaram a disputar o comando do partido. Entre os envolvidos estavam a viúva de Fidelix, Aldineia Fidelix; o irmão dele, Júlio Cezar Fidelix; e Rachel de Carvalho, que havia sido assessora do político.
Rachel chegou a ser eleita presidente do PRTB, mas a convenção acabou anulada pela Justiça. A decisão considerou, entre outros pontos, a situação de filiação de integrantes que participaram da eleição.
A disputa chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em junho de 2023, o então ministro Alexandre de Moraes determinou uma intervenção na legenda e a realização de novas eleições.
Em meio à disputa sobre quais filiados poderiam participar da escolha, o interventor estabeleceu critérios para definir os eleitores aptos a votar. Foi nesse contexto que Leonardo “Avalanche” passou a atuar na disputa pelo comando da legenda.
Segundo relatos apresentados por Rachel à polícia, Avalanche teria afirmado que controlava os votos de 42 fundadores do partido, que haviam sido filiados de uma só vez. Ele também teria dito possuir influência sobre decisões judiciais.
Ainda conforme o depoimento, Avalanche teria apresentado a Rachel duas alternativas: formar uma composição com ele ou deixar a disputa. Ela acabou integrando o grupo.
A eleição ocorreu em Brasília, em 23 de fevereiro de 2024, e Avalanche assumiu posteriormente a presidência do partido.
Meses depois da eleição, em agosto de 2024, Maxson Rodrigues Milton procurou a polícia de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, e relatou que teria sido recrutado por Avalanche para falsificar documentos de identidade e conseguir pessoas que se passassem por fundadores do PRTB durante a eleição.
Posteriormente, outras quatro pessoas teriam apresentado relatos semelhantes às autoridades e mostrado documentos de identidade falsificados que teriam sido utilizados no processo.
A investigação sobre a suposta fraude eleitoral interna é apontada como um dos inquéritos que permanecem em andamento contra Avalanche.
O político também é investigado em outro procedimento relacionado a um atentado a tiros contra o veículo de Patrícia Reitter e Joaquim Pereira, ocorrido no fim de 2024, depois do rompimento entre eles.
Segundo os relatos reunidos no processo, as supostas pressões contra integrantes do PRTB teriam começado poucos dias depois de Avalanche assumir a presidência da legenda.
Prints de conversas anexados aos autos indicariam que, em 28 de fevereiro, apenas alguns dias após a eleição, ele já encaminhava a integrantes do partido links para documentos de renúncia.
O MPE também aponta que alguns membros eleitos que participaram da votação em Brasília teriam sido alvo de ameaças e chantagens.
Segundo a acusação, Avalanche teria usado como forma de pressão a possibilidade de divulgar fotografias de uma festa promovida por ele, caso os integrantes não atendessem às suas determinações.
As acusações fazem parte de processos e investigações que ainda estão em andamento. Como o caso tramita parcialmente sob sigilo, nem todos os elementos da investigação são públicos. As suspeitas atribuídas a Leonardo “Avalanche” ainda dependem da análise da Justiça, e a condição de réu não representa, por si só, condenação definitiva.
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