Política
Publicado em 23/03/2026, às 15h30 Foto: reprodução/Freepik Ana Caroline Alves
A violência contra mulheres ultrapassou as ruas e ganhou escala nas telas. Em um cenário cada vez mais digital, os ataques se multiplicam e atingem desde a reputação até a segurança física das vítimas.
Dados recentes mostram que uma em cada dez brasileiras com 16 anos ou mais sofreu violência digital no último ano, números que chegam a quase 9 milhões de mulheres impactadas.
As agressões variam de mensagens ofensivas e perseguição online até invasão de contas, disseminação de mentiras e vazamento de imagens íntimas. Em muitos casos, o crime evolui para ameaças diretas, chantagens e até riscos fora do ambiente virtual.
Apesar da gravidade, especialistas apontam que esse tipo de violência ainda é subnotificado e, frequentemente, naturalizado.
O crescimento da violência digital contra mulheres não é um fenômeno isolado da internet, mas um reflexo direto das desigualdades de gênero já existentes. O ambiente online apenas amplia o alcance e a velocidade desses ataques.
“Isso ocorre em razão de uma continuidade da violência de gênero já existente no mundo físico, agora potencializada pelo ambiente digital. A internet não criou esse tipo de violência, mas ampliou sua escala”, afirma a advogada Letícia Macedo ao BNews São Paulo.
A facilidade de disseminação de conteúdo e a possibilidade de anonimato tornam o ambiente virtual ainda mais propício para esse tipo de prática. Uma única publicação ofensiva pode ser replicada inúmeras vezes, prolongando o impacto sobre a vítima.
Daniel Marques, presidente da AB2L, diz ao BNews São Paulo que a lógica desses crimes está profundamente ligada a fatores sociais.
“A violência contra as mulheres já existe há muito tempo e é marcada por exposição, controle e tentativa de silenciamento. Elas são alvos frequentes de crimes cibernéticos não por razões ligadas exclusivamente à tecnologia, mas por uma combinação de fatores que passam, principalmente, por questões sociais, que acabam sendo reproduzidas e adaptadas ao ambiente digital.”
Esse cenário se intensifica com o crescimento de comunidades online que promovem discurso de ódio contra mulheres, reforçando comportamentos agressivos e normalizando a violência simbólica.
A sofisticação dos crimes digitais é um dos principais desafios no combate à violência online. Hoje, criminosos utilizam desde engenharia social até inteligência artificial para enganar e manipular vítimas.
Entre os golpes mais comuns está o chamado “golpe do relacionamento”, em que criminosos criam vínculos afetivos para obter dinheiro ou informações sensíveis.
“Criminosos criam perfis falsos, desenvolvem vínculos afetivos e, depois, passam a solicitar dinheiro sob diferentes pretextos”, explica Daniel Marques.
Outro crime recorrente é o vazamento de imagens íntimas, muitas vezes utilizado como forma de chantagem. De acordo com Letícia, essa prática pode ter origem em relações de confiança que são posteriormente quebradas:
“Frequentemente, esse material foi obtido de forma legítima, dentro de uma relação de confiança, mas passa a ser utilizado como instrumento de humilhação após o término do relacionamento.”
Além disso, o uso de inteligência artificial tem ampliado o alcance da violência. Deepfakes e montagens digitais permitem criar conteúdos falsos com alto grau de realismo, dificultando a identificação e aumentando o impacto dos ataques.
“Esse cenário é agravado pelo uso de inteligência artificial, que permite a criação de perfis falsos mais realistas, mensagens automatizadas e até conteúdos manipulados, como deepfakes”, destaca Fernando Manfrin, advogado especialista em data privacy.
A forma como as pessoas utilizam as redes sociais também influencia diretamente na vulnerabilidade a esses crimes. O compartilhamento constante de informações pessoais pode facilitar a ação de criminosos.
“O principal fator é o compartilhamento excessivo de informações pessoais, como localização, rotina e detalhes da vida privada”, afirma Fernando Manfrin.
Além disso, práticas comuns como aceitar solicitações de desconhecidos, reutilizar senhas ou não ativar mecanismos de segurança aumentam os riscos.
“As redes sociais operam com base em algoritmos que priorizam conteúdos com alto engajamento, o que pode favorecer a disseminação de conteúdos sensíveis ou até violentos”, acrescenta o especialista.
Em São Paulo, o combate aos crimes digitais tem avançado com o uso de inteligência e tecnologia. A Polícia Civil registrou a solução de 353 casos em 2025, com operações que incluem rastreamento digital e análise de dados.
Apesar disso, o ritmo de evolução dos crimes ainda supera a capacidade de resposta. A sensação de anonimato e a rapidez de disseminação de conteúdos dificultam a identificação e punição dos agressores. Para Letícia Macedo, no entanto, a ideia de impunidade não corresponde mais à realidade:
“A falsa percepção de impunidade, já que muitos autores acreditam que o uso de perfis falsos ou mecanismos de ocultação de identidade os protegerá de responsabilização, não corresponde à realidade atual, diante do avanço dos meios de investigação digital.”
Diante desse cenário, especialistas apontam que o enfrentamento da violência digital passa por três pilares: prevenção, denúncia e fortalecimento de políticas públicas.
Medidas simples, como o uso de autenticação em dois fatores, a revisão de configurações de privacidade e a cautela ao compartilhar informações, podem reduzir significativamente os riscos.
Em caso de violência, a recomendação é reunir provas e buscar ajuda imediatamente por meio de delegacias, canais de denúncia e apoio psicológico e jurídico.
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