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“Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”: conheça a história real do filme

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Inspirado em uma experiência extrema real da diretora, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” expõe o colapso silencioso de mães deixadas sem apoio  |   BNews SP - Divulgação Foto: Reprodução/IMDB.
Bianca Novais

por Bianca Novais

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Publicado em 09/01/2026, às 13h13



Poucos filmes recentes causaram tanto impacto ao tratar a maternidade sem filtros quanto "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria", novo longa de Mary Bronstein. A obra, que mistura comédia sombria, terror surreal e drama psicológico, nasceu de uma experiência real vivida pela própria diretora, segundo informações da Série por Elas. Essa origem autobiográfica é o que dá ao filme uma força rara: tudo soa desconfortavelmente verdadeiro.

A ideia surgiu quando Bronstein enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua vida. Sua filha, então com sete anos, adoeceu gravemente, obrigando mãe e filha a deixarem Nova York em busca de tratamento médico em San Diego, Califórnia, do outro lado dos EUA.

A atriz Rose Byrne (Linda) e a cineasta Mary Bronstein no tapete vermelho do Festival de Cinema de Berlim. Foto: Reprodução/IMDB.
A atriz Rose Byrne (Linda) e a cineasta Mary Bronstein no tapete vermelho do Festival de Cinema de Berlim de 2025. Foto: Reprodução/IMDB.

Confinamento e esgotamento

O que deveria ser uma estadia curta se transformou em dois meses vivendo em um pequeno motel. Enquanto isso, o marido da diretora permaneceu em Nova York, trabalhando. O isolamento físico logo se tornou emocional. Longe de casa, exausta e sozinha, Bronstein passou a sentir sua própria identidade desaparecer sob o peso do cuidado constante.

À noite, quando o silêncio tomava conta do quarto, ela descreve momentos de profunda crise existencial. Não era apenas o medo pela saúde da filha, mas a sensação de deixar de existir como indivíduo: um sentimento que se tornaria o núcleo emocional do filme.

A história na tela

Na ficção, acompanhamos Linda, interpretada por Rose Byrne, uma terapeuta que vê sua vida ruir após uma sequência de acontecimentos trágicos. Forçada a deixar seu apartamento, ela se muda com a filha doente para um motel, onde tenta manter algum controle sobre a própria rotina enquanto tudo desmorona.

Linda alimenta a filha por sonda, enfrenta médicos hostis, lida com funcionários indiferentes, atende seus pacientes e conversa com um marido ausente apenas por telefone. A cada tentativa de “dar conta de tudo”, sua saúde mental se deteriora ainda mais.

Um sistema que falha

O filme deixa claro que o colapso da protagonista não acontece no vazio. As figuras que deveriam oferecer apoio simplesmente não funcionam: o marido está distante, o terapeuta é ineficaz e o sistema médico age com frieza. O único respiro surge em pequenos gestos de humanidade do gerente do motel, vivido por A$AP Rocky, mas insuficientes para conter a queda emocional de Linda.

Mary Bronstein foge do drama tradicional e aposta no terror psicológico e no absurdo para traduzir sensações internas. A maternidade não é romantizada. Ela aparece como um estado permanente de alerta, culpa e medo, transformando o cotidiano em uma experiência quase delirante.

Mais do que um relato pessoal, "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" funciona como um comentário social. O filme confronta discursos que incentivam mulheres a terem filhos sem considerar o peso real do cuidado e expõe a falácia da maternidade idealizada.

Classificação Indicativa: Livre

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Tags Cinema filmes