Polícia

Celular escondido, novos trajetos e menos ruas: como o medo mudou São Paulo

Foto: Reprodução/Paulo Pinto/Agência Brasil
Moradores relatam mudanças significativas em seus hábitos diários devido ao medo da violência nas ruas.  |   BNews SP - Divulgação Foto: Reprodução/Paulo Pinto/Agência Brasil
Fernanda Montanha

por Fernanda Montanha

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Publicado em 01/07/2026, às 09h58



Evitar sair à noite, guardar o celular ao caminhar pela rua, mudar trajetos e reforçar a segurança de casa passaram a fazer parte da rotina de muitos moradores de São Paulo. Em uma cidade marcada pela preocupação com a violência urbana, a sensação de insegurança tem alterado a forma como a população circula e ocupa os espaços públicos.

Mesmo sem ter sido vítima de um crime, parte dos paulistanos relata viver em estado constante de alerta. O medo da violência tem influenciado decisões simples do dia a dia, como horários, caminhos e locais frequentados.

Moradora da Barra Funda, na zona oeste, Marília, de 29 anos, afirma que passou a avaliar situações que antes não faziam parte de sua rotina. “Se vou voltar mais tarde para casa, já penso no trajeto, evito ficar mexendo no celular na rua e tento não demonstrar que estou distraída”, conta.

Segundo ela, a região tem bastante circulação de pessoas por causa do transporte e dos eventos, mas a percepção muda dependendo do horário. “Durante o dia eu me sinto mais tranquila, mas à noite muda bastante. Você começa a prestar mais atenção em quem está perto, nas ruas mais vazias e até prefere esperar um pouco mais em um local fechado”, relata.

A mudança de comportamento também aparece em atividades de lazer e na relação com os espaços públicos. Para alguns moradores, locais que antes eram frequentados com mais naturalidade passam a exigir planejamento. A sensação de insegurança faz com que parte da população deixe de frequentar determinados locais ou altere horários de lazer.

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Foto: Reprodução/Paulo Pinto/Agência Brasil

Medo muda relação dos moradores com a cidade

Ailton Silva, de 45 anos, morador de Itaquera, na zona leste, diz que passou a planejar mais seus deslocamentos. “Hoje, dependendo da hora, você já começa a calcular tudo: por onde vai passar, se a rua está movimentada, se dá para ir a pé ou se é melhor chamar um carro”, afirma.

Outro hábito que mudou foi o uso do celular nas ruas. “Se preciso responder alguma coisa, entro em algum comércio ou espero chegar em casa. A gente acaba ficando em alerta o tempo todo”, explica.

Para ele, alguns pontos da região também mudaram de acordo com o horário. “Tem lugares em que eu continuo indo normalmente, mas dependendo da hora você percebe menos pessoas na rua, o comércio fecha mais cedo e parece que todo mundo está tentando se proteger”, conta.

Além das mudanças fora de casa, moradores também relatam aumento da preocupação com proteção dentro das residências. A busca por câmeras, monitoramento e outros equipamentos de segurança passou a ser vista como uma forma de reduzir a vulnerabilidade.

A preocupação constante também pode afetar a qualidade de vida da população. Especialistas em violência urbana e saúde mental apontam que a exposição frequente a relatos de crimes, mesmo quando a pessoa não foi vítima direta, pode contribuir para uma sensação permanente de ameaça e mudança de comportamento.

Dados oficiais apontam queda nos crimes, mas percepção continua

Apesar dos relatos de insegurança, os indicadores oficiais apontam redução em alguns crimes contra o patrimônio na capital. Em nota enviada ao BNews São Paulo, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que os roubos em geral caíram 13,64% e os furtos tiveram redução de 1,92% na cidade de São Paulo no primeiro quadrimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025.

No combate aos crimes envolvendo celulares, a SSP informou que roubos e furtos de aparelhos caíram 16% na capital no primeiro quadrimestre. O programa SP Mobile recuperou mais de 28,4 mil celulares desde junho de 2025, com cerca de 33% já devolvidos aos proprietários.

A diferença entre os números oficiais e a percepção dos moradores mostra que a sensação de insegurança não depende apenas da ocorrência direta de crimes, mas também dos relatos, notícias e experiências compartilhadas.

A SSP também informou que as polícias Civil e Militar atuam de forma integrada em ações de policiamento ostensivo, patrulhamento preventivo e operações baseadas em inteligência. Em junho, o Governo de São Paulo entregou 251 viaturas e 4,2 mil armamentos como parte da modernização das forças de segurança.

Para Marília, o principal impacto está na liberdade de circular pela cidade. “A gente continua trabalhando, saindo e vivendo, mas sempre com uma preocupação a mais na cabeça”, afirma.

Segundo ela, a violência acaba interferindo na autonomia dos moradores. “Você não precisa ter passado por uma situação para sentir medo. Às vezes os relatos de outras pessoas e as notícias já fazem você mudar sua rotina”, conclui.

Classificação Indicativa: Livre

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