Política
por Andrezza Souza
Publicado em 19/05/2026, às 18h59
Um projeto criado para ampliar o acesso à internet gratuita em regiões periféricas da capital paulista acabou se tornando alvo de investigações e abrindo novas frentes de questionamentos que ultrapassam a área da tecnologia.
No centro do caso está um contrato de R$ 108 milhões firmado para instalação de 5 mil pontos de wi-fi público e uma conexão que chamou atenção durante as apurações: a relação entre a entidade responsável pelo projeto e o filme Dark Horse, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As informações sobre o caso foram divulgadas inicialmente pelo g1. Segundo a publicação, as apurações passaram a analisar desde a contratação da entidade responsável até a execução do projeto e a estrutura empresarial ligada ao grupo envolvido.
O contrato foi firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização escolhida para implementar o programa de internet gratuita. A proposta previa ampliar o acesso à conectividade em bairros periféricos, comunidades e regiões com menor infraestrutura digital da cidade.
As investigações começaram após denúncias encaminhadas ao Ministério Público e resultaram na abertura de um inquérito conduzido pela Polícia Civil paulista. Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), a apuração busca esclarecer possíveis irregularidades relacionadas ao processo de contratação e à execução do acordo.
Entre os pontos analisados estão suspeitas ligadas à competitividade do chamamento público, possíveis falhas contratuais e eventual utilização inadequada de recursos públicos.
Outro aspecto que entrou no radar dos investigadores envolve os prazos estabelecidos para execução do serviço.
O plano original previa a instalação dos 5 mil pontos de internet até junho de 2025. Entretanto, segundo dados citados pela própria administração municipal e divulgados pelo g1, a implantação não foi concluída dentro do cronograma inicialmente previsto. Até o momento, aproximadamente 3.200 pontos foram entregues. Os demais passaram a integrar um novo calendário com prazo até o final de 2026.
As apurações também observam alterações posteriores no contrato. Segundo as informações publicadas, pelo menos três aditivos modificaram prazos relacionados à execução integral do projeto.
Outro questionamento envolve a seleção da entidade responsável pelo programa. Informações apresentadas aos órgãos de controle indicam que apenas uma organização teria participado do chamamento público realizado para escolha da executora do projeto.
Segundo manifestações atribuídas ao vereador Nabil Bonduki, também foram levantadas suspeitas de possível sobrepreço superior a R$ 27 milhões.
A repercussão aumentou após a divulgação de informações sobre a estrutura ligada ao Instituto Conhecer Brasil.
Segundo reportagem do g1, a empresária Karina Ferreira da Gama, apontada como responsável pelo instituto, também aparece ligada à produtora Go Up Entertainment, empresa associada ao filme Dark Horse.
A produção é inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ainda segundo a publicação, as duas empresas funcionariam no mesmo endereço comercial, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Outro nome citado no caso é o do deputado federal Mário Frias, que atua como produtor executivo e roteirista do longa. De acordo com as informações divulgadas, o parlamentar destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao instituto. A movimentação também passou a integrar outras análises conduzidas em diferentes esferas.
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal após pedidos apresentados pelos deputados Tabata Amaral e Pastor Henrique Vieira. Posteriormente, o ministro Flávio Dino determinou uma apuração preliminar relacionada ao envio de recursos para entidades ligadas ao grupo.
Em nota, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia afirmou que a contratação ocorreu por meio de chamamento público transparente, sem contestações formais, e declarou que a execução do projeto segue em andamento.
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