Política
A empresa Agis, líder do consórcio vencedor da licitação da Linha 19-Celeste do Metrô de São Paulo, contratou um ex-diretor da estatal que participou diretamente da elaboração do edital da obra.
O engenheiro Paulo Sérgio Amalfi Meca atuava como diretor de engenharia do Metrô de São Paulo e coordenou a preparação do documento que definiu as regras da concorrência pública.
Segundo informações divulgadas sobre o processo, Meca deixou o cargo na estatal em dezembro de 2024 e foi contratado pela Agis no mesmo mês, após sua aposentadoria. A contratação ocorreu meses antes da empresa vencer a licitação para executar as obras da nova linha, como citado pelo site Terra.
O projeto da Linha 19-Celeste prevê 17,6 quilômetros de extensão e 15 estações, conectando o centro da capital paulista à cidade de Guarulhos. A estimativa é que o trajeto seja feito em cerca de 35 minutos e atenda aproximadamente 630 mil passageiros por dia.
Tanto a empresa quanto o Metrô afirmam que não houve irregularidade na contratação. A Agis declarou que a admissão do engenheiro ocorreu após sua aposentadoria e que segue as normas previstas na Lei 13.303/2016, que regula empresas estatais.
Já o Metrô afirmou que o processo licitatório foi conduzido dentro das regras do edital e que as decisões são tomadas de forma colegiada, com participação de diferentes áreas técnicas.
Apesar disso, especialistas em direito público apontam que a rápida transição do ex-diretor da estatal para a empresa vencedora da licitação pode levantar questionamentos sobre possível conflito de interesses.
A concorrência da Linha 19-Celeste enfrenta questionamentos judiciais e administrativos. Inicialmente, o melhor lance havia sido apresentado pelo Consórcio 9 de Julho, formado pela construtora Mendes Júnior e pelas companhias chinesas YellowRiver e Highland.
O grupo ofereceu executar a obra por aproximadamente R$ 4,98 bilhões, valor cerca de R$ 50 milhões menor que a proposta apresentada pela Agis.
A empresa concorrente, no entanto, pediu a desclassificação do consórcio alegando que ele não teria comprovado experiência em escavações de túneis urbanos com tuneladoras TBM, conhecidas como “tatuzão”.
Para comprovar a experiência, o consórcio apresentou documentos de uma obra realizada em Chengdu, metrópole com cerca de 21 milhões de habitantes. A Agis contestou a documentação afirmando que o trecho escavado teria sido construído em área rural.
O Metrô de São Paulo analisou a documentação e decidiu desclassificar o consórcio após avaliar imagens da região por meio do Google Earth, concluindo que a obra não comprovava atuação em área urbana com alto adensamento populacional, como exigia o edital.
A decisão administrativa levou o Consórcio 9 de Julho a recorrer à Justiça. Em fevereiro de 2026, a desembargadora Tania Ahualli, do Tribunal de Justiça de São Paulo, concedeu uma liminar determinando que o Metrô realize diligências oficiais para verificar a experiência técnica apresentada pelo grupo.
A decisão mantém o consórcio na disputa enquanto o caso é analisado. Mesmo assim, a vitória da Agis permanece válida por enquanto, embora ainda exista possibilidade de reversão dependendo do resultado das análises solicitadas pela Justiça.
Em nota enviada à imprensa, o Metrô reiterou que a desclassificação seguiu estritamente os critérios estabelecidos no edital e que o consórcio teve oportunidade de apresentar esclarecimentos durante o processo, mas não conseguiu comprovar tecnicamente o requisito exigido.
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