Política
por Amanda Ambrozio
Publicado em 01/10/2026, às 14h40
A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, havia reservado com quase um mês de antecedência voos em um jato e um helicóptero ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para uma viagem a Campos do Jordão, no interior de São Paulo.
As reservas foram feitas em outubro de 2025 para o feriado da Consciência Negra, em novembro.
Na manhã do dia 18 daquele mês, porém, Viviane pediu o cancelamento dos voos, segundo mensagens trocadas por WhatsApp com funcionários da empresa responsável pela administração das aeronaves.
A mudança ocorreu horas depois de a prisão de Vorcaro, então dono do Banco Master, se tornar pública. O ex-banqueiro havia sido preso na noite anterior, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava deixar o país.
As conversas fazem parte do material obtido nas investigações da Polícia Federal sobre a relação entre Vorcaro, Alexandre de Moraes e o escritório de advocacia de Viviane.
A PF também investigou um segundo contrato de até R$ 50 milhões entre o escritório e uma empresa ligada ao ex-banqueiro, cujo pagamento, segundo os investigadores, envolveria cotas de um Legacy 650 e de um helicóptero.
O escritório nega que esse segundo contrato tenha sido assinado.
Segundo as mensagens obtidas na investigação, Viviane fez o primeiro pedido à empresa Prime You, responsável pela gestão das aeronaves, em 24 de outubro de 2025.
A reserva previa um voo de Brasília para São Paulo em um Legacy 650 e, posteriormente, o deslocamento de helicóptero até Campos do Jordão. O retorno também seria feito pelas aeronaves da empresa.
Em uma das mensagens, a advogada informou que seriam oito passageiros e pediu um helicóptero para sair de São Paulo no dia 20 de novembro, às 10h, com retorno marcado para o dia 23, às 16h.
A programação foi organizada pela equipe da Prime You, que registrava Viviane nas mensagens como cotista das aeronaves.
De acordo com o jornal O Globo, a viagem estava prevista para ocorrer durante o feriadão da Consciência Negra, que naquele ano começou em uma quinta-feira.
A situação mudou na manhã de 18 de novembro, um dia depois da prisão de Vorcaro.
Às 8h34, Viviane enviou uma mensagem a uma funcionária da Prime You informando que gostaria de cancelar o voo previsto para o dia seguinte.
A funcionária respondeu que faria o cancelamento. Pouco depois, porém, Viviane voltou atrás e pediu que a reserva fosse mantida.
Cinco minutos mais tarde, a advogada desistiu novamente e confirmou o cancelamento definitivo da viagem.
A sequência de mensagens mostra a mudança de decisão em poucos minutos: primeiro, Viviane pediu o cancelamento; depois, solicitou que o cancelamento fosse desfeito; por fim, confirmou que o voo deveria ser cancelado.
As conversas recuperadas pela investigação também registram outros pedidos feitos por Viviane à Prime You ao longo de 2025.
Em 11 de novembro, por exemplo, ela solicitou a antecipação de um voo de Brasília para São Paulo. Na mesma conversa, perguntou se seria possível utilizar um helicóptero caso o pouso ocorresse no Aeroporto Catarina.
A advogada também fazia pedidos relacionados ao serviço de bordo das aeronaves.
Em uma das viagens, perguntou pelo cardápio disponível e escolheu itens como tartar de salmão, salada Caesar com frango e torta mousse de chocolate. A solicitação era para duas pessoas.
Em outro voo, informou que seriam dois passageiros e um animal de estimação.
As mensagens também mostram que Viviane costumava utilizar a primeira pessoa do plural ao tratar das viagens, sem mencionar diretamente o nome do marido.
A relação entre o escritório de Viviane e empresas ligadas a Vorcaro também aparece nas investigações da PF.
Segundo relatório da corporação, um segundo contrato de prestação de serviços jurídicos, no valor de até R$ 50 milhões, teria sido firmado em maio de 2025 entre o escritório e a Viking Participações, empresa ligada ao ex-banqueiro.
A investigação aponta que R$ 40 milhões seriam pagos por meio de participações em empresas relacionadas a um jato Legacy 650 e a um helicóptero Airbus EC 155 B1. Outros R$ 10 milhões seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas aos voos.
O escritório de Viviane, porém, afirma que apenas o primeiro contrato, firmado com o Banco Master, existiu. Segundo a defesa, a proposta de um segundo acordo não foi aceita, nada foi assinado e o vínculo com o banco terminou após a liquidação da instituição.
A utilização de aeronaves ligadas a Vorcaro também foi objeto de apuração da PF.
Documentos e mensagens analisados pelos investigadores apontam o uso do Legacy 650 em viagens de integrantes do escritório. Em setembro, o próprio escritório confirmou que Viviane e, em determinadas ocasiões, Alexandre de Moraes viajaram em aeronaves da Prime Aviation.
A banca afirmou, porém, que Daniel Vorcaro não estava presente nesses voos e que nenhum passageiro externo ao escritório participou das viagens.
O uso da aeronave ganhou ainda mais repercussão depois que um vídeo mostrou Alexandre de Moraes e Viviane desembarcando de um Legacy 650 ligado a Vorcaro em agosto de 2025.
As novas mensagens sobre a viagem cancelada para Campos do Jordão agora integram o conjunto de informações analisadas nas investigações sobre a relação entre o ex-banqueiro, o ministro e o escritório de advocacia de sua esposa.
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