Polícia
Publicado em 21/03/2026, às 13h05 Foto: Reprodução Érica Sena
A investigação sobre a morte da soldado Gisele Alves, ocorrida em fevereiro no Brás, região central de São Paulo, ganhou novos elementos com a análise de mensagens trocadas entre ela e o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto.
O conteúdo, extraído do celular do casal, indica um relacionamento marcado por controle psicológico, imposições e episódios de violência, segundo os investigadores, como citado pelo G1.
Gisele morreu com um tiro na cabeça dentro do apartamento onde vivia com o oficial. Ele foi preso preventivamente e se tornou réu por feminicídio e fraude processual.
A defesa sustenta que a vítima cometeu suicídio, versão que é contestada pelo Ministério Público com base em laudos periciais, registros audiovisuais e nas próprias mensagens.
De acordo com a Polícia Civil, os diálogos reforçam relatos já apresentados por testemunhas sobre um ambiente de conflito constante. As mensagens mostram que o tenente-coronel exercia controle sobre diferentes aspectos da vida da esposa, incluindo comportamento social, vestimenta e rotina.
Em uma das conversas, ele afirma que o casamento deveria seguir uma lógica de troca, associando sua condição de provedor financeiro à exigência de afeto e relações sexuais. A mensagem foi enviada cerca de duas semanas antes da morte de Gisele e é considerada relevante para entender o contexto do relacionamento.
Outros trechos revelam uma visão hierárquica da relação. O oficial se autodenomina “macho alfa” e afirma que a esposa deveria ser “obediente e submissa”. Em diferentes momentos, ele estabelece regras, como proibição de cumprimentar outros homens com proximidade e restrições à liberdade da vítima.
Para os investigadores, esse padrão de comportamento evidencia um perfil autoritário e controlador, além de indicar tentativa de impedir o fim do casamento. Dias antes de morrer, Gisele comunicou ao marido que pretendia se separar, decisão que foi rejeitada de forma imediata por ele.
As mensagens também apontam possíveis episódios de violência física e verbal. Em uma das conversas, Gisele relata ter sido agredida pelo marido e descreve um ambiente de constantes discussões e humilhações. Em outros trechos, ela critica o comportamento do oficial, classificando-o como ofensivo e intolerante.
Segundo a Corregedoria da Polícia Civil, os registros indicam que a vítima já vivia sob pressão e em um ambiente potencialmente violento antes do crime. A escalada de tensão, associada à tentativa de separação, é considerada um fator central para a linha de investigação adotada.
Além disso, os investigadores destacam que o conteúdo das mensagens contribui para contextualizar o relacionamento e entender o cenário em que ocorreu a morte.
O Ministério Público afirma que a soma de provas técnicas e comportamentais enfraquece a hipótese de suicídio. Laudos periciais e uma reprodução simulada indicam que o disparo teria sido efetuado pelo tenente-coronel.
Imagens de câmeras corporais de policiais militares também passaram a integrar o inquérito. Os vídeos mostram o oficial circulando pelo apartamento e interferindo no local da ocorrência, mesmo após orientações para preservação da cena. Para os investigadores, esse comportamento pode ter comprometido vestígios importantes.
A acusação sustenta que houve tentativa de alterar o cenário do crime para simular suicídio, o que fundamenta a denúncia por fraude processual.
Por se tratar de crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja levado ao Tribunal do Júri. O Ministério Público também pediu a fixação de indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima em caso de condenação.
A defesa do tenente-coronel reafirma que ele é inocente, contesta a condução do processo e diz que o oficial colaborou com as investigações desde o início. O Superior Tribunal de Justiça negou um pedido de liberdade apresentado pelos advogados, mantendo a prisão preventiva.
O caso ocorre em um contexto recente de mudanças na legislação, que passou a tratar o feminicídio como crime autônomo, com penas que podem chegar a 40 anos de prisão. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, este é o primeiro registro, desde 2015, de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por esse tipo de crime.
As investigações continuam, e a análise do conjunto de provas deve ser determinante para o desfecho judicial.
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