Política
Publicado em 20/06/2026, às 08h00 Foto: Pexels/Polina Andrezza Souza
Apesar dos avanços na conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), pessoas classificadas com autismo nível 1 de suporte ainda enfrentam um desafio silencioso: a invisibilidade. A crença de que esses indivíduos levam uma vida "normal" faz com que suas necessidades sejam frequentemente minimizadas, dificultando o acesso a diagnósticos, tratamentos, políticas públicas e inclusão social.
Embora sejam consideradas mais independentes em comparação a outros níveis do espectro, pessoas autistas nível 1 também apresentam prejuízos no neurodesenvolvimento, dificuldades de interação social, rigidez cognitiva e alterações no processamento sensorial que impactam diretamente sua rotina e qualidade de vida.
Para Tatiana Zuccari, psicóloga clínica formada pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a ideia de que o autismo nível 1 é um "autismo leve" contribui para o apagamento das necessidades dessa população.
"Se fosse uma vida completamente normal, não seriam autistas. Todo transtorno precisa apresentar algum prejuízo para ser caracterizado como tal. No caso das pessoas autistas, existem dificuldades que afetam diretamente o dia a dia e exigem suporte."
Segundo a especialista, o autismo é um espectro e pode se manifestar de maneiras diferentes em cada indivíduo, tornando impossível generalizar as necessidades de apoio.
Questões sensoriais e sociais estão entre os principais desafios enfrentados por pessoas autistas nível 1. Muitas evitam determinados ambientes, roupas, alimentos ou sons por conta da hipersensibilidade, além de apresentarem dificuldades para compreender sinais sociais e interagir com outras pessoas.
"As questões sensoriais e sociais trazem bastante dificuldades e prejuízos para a vida da pessoa autista. Muitas têm dificuldade de perceber emoções dos outros, de lidar com mudanças e até de identificar sinais do próprio corpo, como fome ou sede."
Tatiana explica que essas limitações nem sempre são percebidas por familiares, colegas de trabalho ou pela sociedade, justamente porque não são visíveis.
Para a psicóloga, a invisibilidade do autismo nível 1 acaba produzindo ainda mais sofrimento emocional, já que as necessidades dessas pessoas costumam ser desacreditadas.
"Pessoas invisíveis não são vistas nas suas necessidades. E isso leva ao sofrimento. Acolher essas necessidades é fundamental para que elas vivam melhor e com mais conforto."
Ela ressalta que o desconhecimento sobre o espectro faz com que muitos comportamentos sejam interpretados apenas como traços de personalidade ou falta de esforço.
Essa percepção contribui para o atraso no diagnóstico e dificulta o acesso ao tratamento adequado, principalmente entre adultos que passaram décadas sem compreender a origem de suas dificuldades.
A mudança na compreensão científica sobre o autismo fez com que muitas pessoas fossem diagnosticadas apenas na fase adulta. Segundo Tatiana, isso acontece porque, no passado, o diagnóstico estava muito associado ao atraso na fala e aos casos mais graves.
"Hoje vemos crianças, adolescentes e adultos autistas que apresentam vários prejuízos do neurodesenvolvimento, mas não tiveram atraso de fala. Por isso, muitas pessoas só recebem o diagnóstico agora, na vida adulta."
Além disso, avaliações neuropsicológicas ainda possuem custo elevado e não estão amplamente disponíveis na rede pública, dificultando o acesso ao diagnóstico para grande parte da população.
Outro fenômeno comum entre pessoas autistas nível 1 é o chamado masking, estratégia utilizada para esconder características do autismo e tentar se adaptar aos padrões sociais.
Segundo a psicóloga, essa necessidade constante de mascarar comportamentos pode gerar intensa sobrecarga emocional e sensorial.
"Imagine ter que representar um papel o tempo todo, prestando atenção em tudo enquanto todos os estímulos do ambiente estão no volume 150. Para muitas pessoas autistas nível 1, é assim que elas vivem todos os dias."
Ela explica que esse esforço pode resultar em episódios de shutdown, quando a pessoa simplesmente deixa de responder aos estímulos do ambiente, ou de meltdown, crises intensas provocadas pelo excesso de sobrecarga emocional e sensorial.
Tatiana Zuccari defende que a sociedade precisa abandonar a ideia de que apenas pessoas com deficiência visível enfrentam limitações importantes.
"Nem toda deficiência é visível. As pessoas acreditam na dor de cabeça de alguém, mesmo sem enxergá-la. Com o autismo acontece a mesma coisa: as dificuldades existem, ainda que não possam ser vistas."
Para a especialista, ampliar direitos e oferecer suporte às pessoas autistas não significa criar privilégios, mas garantir igualdade de oportunidades e participação social.
"O suporte não é frescura. É uma possibilidade de tornar a vida dessa pessoa um pouco mais fácil diante das dificuldades que ela enfrenta diariamente. Pessoas autistas têm talentos, sonhos e o direito de viver com dignidade e inclusão, assim como qualquer outra pessoa."
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