Política
por Andrezza Souza
Publicado em 19/06/2026, às 07h00
O Brasil possui aproximadamente 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população, segundo dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Apesar do avanço na identificação do transtorno, o acesso ao diagnóstico de autismo e às terapias especializadas ainda é limitado, principalmente para adultos que passaram décadas sem compreender a origem de suas dificuldades.
Um levantamento do Mapa Autismo Brasil (MAB) mostra que grande parte dos diagnósticos e dos tratamentos ainda ocorre fora do Sistema Único de Saúde (SUS).
A pesquisa também aponta que muitas pessoas recebem poucas horas semanais de atendimento especializado, cenário que evidencia a necessidade de ampliar as políticas públicas voltadas à população autista e garantir mais acesso às terapias para pessoas com TEA.
Ao mesmo tempo em que os números revelam desafios, cresce também a quantidade de pessoas que descobrem o autismo na vida adulta.
Segundo especialistas, esse movimento é consequência da evolução do conhecimento científico, da ampliação das pesquisas sobre neurodivergência e da atualização dos critérios utilizados para identificar o transtorno.
O neuropsicólogo especializado em autismo adulto, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) e professor de pós-graduação do Einstein, Clécio Gomes, afirma que o diagnóstico em adultos passou a ser mais frequente porque, até poucos anos atrás, o espectro era compreendido de forma muito mais restrita.
"Primeiramente porque o autismo na vida adulta é algo que está sendo falado, descoberto e conhecido há muito pouco tempo. A gente precisa reconhecer que crianças crescem. Com a mudança dos critérios de identificação do espectro, passou-se a perceber que o autismo nível 1 muitas vezes passa despercebido na infância e só será identificado na adolescência ou na idade adulta", explica Clécio Gomes.
O especialista destaca que muitas pessoas cresceram em uma época em que praticamente não existia conhecimento sobre o autismo nível 1 ou sobre pessoas autistas sem deficiência intelectual e com maior autonomia.
"Estamos falando de gerações em que nem se cogitava esse diagnóstico. Existia um conceito muito limitado sobre o autismo, um estereótipo que não corresponde ao que a ciência conhece hoje. O avanço dos conhecimentos genéticos, epigenéticos e o reconhecimento das características em adultos são algumas das principais razões para o aumento dos diagnósticos", afirma.
Embora o diagnóstico precoce seja considerado importante para o desenvolvimento infantil, especialistas defendem que o diagnóstico tardio do autismo também pode trazer benefícios significativos para adolescentes, adultos e idosos.
Clécio Gomes relata que já acompanhou pessoas com mais de 70 anos que encontraram respostas para dificuldades enfrentadas desde a juventude.
"Sem sombra de dúvida, o diagnóstico tardio sempre vai trazer benefícios, independentemente da idade. Já tive a oportunidade de avaliar pessoas acima de 70 e até 80 anos. O simples fato de perceberem que aquilo que viveram não era preguiça, desleixo ou falta de esforço, mas sim uma condição neurológica, fez com que tirassem dos ombros um peso enorme carregado por muitos anos", diz.
Segundo ele, quando o diagnóstico de TEA acontece aos 30 ou 40 anos, ainda há tempo para transformar completamente a trajetória pessoal e profissional.
"Estamos falando de pessoas extremamente jovens, que têm uma longevidade muito alta pela frente. Todos esses anos podem ser vividos com uma qualidade completamente diferente daquela experimentada nas primeiras décadas de vida, a partir do momento em que existe compreensão sobre o funcionamento do cérebro e acesso às intervenções adequadas", acrescenta Clécio Gomes.
Especialistas avaliam que o crescimento dos diagnósticos evidencia a necessidade de fortalecer a rede de atendimento e ampliar o acesso às terapias multidisciplinares, tanto na saúde pública quanto na suplementar.
Além disso, defendem que o debate sobre inclusão deve considerar também os adultos autistas, especialmente aqueles classificados no nível 1 de suporte, que frequentemente enfrentam dificuldades no ambiente escolar, profissional e social sem que suas necessidades sejam reconhecidas.
Com maior informação, acesso ao diagnóstico de autismo e ampliação das políticas públicas voltadas às pessoas com TEA, especialistas acreditam que mais brasileiros poderão compreender suas características, reduzir o sofrimento causado por anos de incompreensão e conquistar uma melhor qualidade de vida, independentemente da idade em que recebem a confirmação do transtorno.
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