Política
Publicado em 04/09/2026, às 16h34 Foto: Ricardo Stuckert/PR Amanda Ambrozio
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (4) que nenhuma autoridade pode utilizar o cargo público em benefício próprio e cobrou uma resposta do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) diante da crise envolvendo o Banco Master e integrantes das duas instituições.
As declarações foram feitas durante uma cerimônia no Palácio do Planalto, que contou com a presença do presidente do STF, Edson Fachin, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Sem citar diretamente os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça ou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Lula afirmou que a sociedade espera esclarecimentos sobre os episódios revelados nas últimas semanas.
Segundo o presidente, tanto a Suprema Corte quanto a PGR precisam agir para preservar a confiança da população nas instituições.
Lula também pediu que as autoridades não escondam informações relacionadas ao caso.
Durante o discurso, Lula afirmou que Fachin e Gonet têm a responsabilidade de apresentar respostas à sociedade diante das suspeitas que envolvem integrantes do Judiciário e o empresário Daniel Vorcaro.
"A Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República estão com muita expectativa da sociedade", afirmou.
Na sequência, o presidente fez uma cobrança direta aos dois:
"Quando os filhos, dentro de casa, estão em desordem, quem manda na casa é quem resolve. Então, meu caro [Fachin], tá nas tuas costas e do Gonet passar um mínimo de tranquilidade [para a sociedade], sem tentar esconder absolutamente nada."
Lula afirmou ainda que está preocupado com a possibilidade de a crise provocar perda de confiança nas instituições responsáveis pelo funcionamento do sistema democrático.
"Se não tiver instituições sólidas e funcionando, a democracia estará muito vulnerável. Por isso, algumas pessoas tentam enfraquecer, desmoralizar", declarou.
O presidente também voltou a defender uma discussão sobre uma nova reforma do Judiciário. Segundo ele, o tema deverá ser tratado no próximo ano.
Sem mencionar diretamente os ministros envolvidos nas discussões, Lula afirmou que autoridades públicas precisam seguir os mesmos procedimentos previstos na legislação e não podem utilizar suas posições para obter vantagens pessoais.
"Ninguém, em nome da democracia, pode utilizar o cargo que tem em benefício pessoal", disse.
Em seguida, o presidente afirmou que o princípio deve valer independentemente da posição ocupada por cada pessoa.
Lula também declarou que pretende trabalhar para evitar que a crise comprometa a credibilidade das instituições.
"Eu estou fazendo um esforço sobrenatural para que a sociedade brasileira não perca esperança, fé e credibilidade nas instituições responsáveis de garantir o funcionamento do sistema democrático e do Estado brasileiro", afirmou.
A manifestação de Lula ocorre após a divulgação de um relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens e informações atribuídas a Daniel Vorcaro e seus interlocutores.
Segundo o SBT News, o documento foi divulgado pelo ministro André Mendonça e apresenta conversas nas quais o ex-banqueiro teria procurado Alexandre de Moraes em diferentes ocasiões. Segundo o relatório, os contatos ocorreram entre março de 2024 e agosto de 2025.
As mensagens indicariam que Vorcaro teria buscado informações sobre uma operação da PF contra ele. O empresário foi preso em duas etapas da Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas relacionadas ao sistema financeiro.
O relatório também cita negociações envolvendo o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Segundo as informações apresentadas no documento, teria existido um contrato de aproximadamente R$ 130 milhões entre o banco de Vorcaro e o escritório.
Também é mencionado um segundo acordo, estimado em R$ 50 milhões, que envolveria cotas de helicóptero e jatinho. A defesa da advogada, porém, afirmou que esse contrato não chegou a ser finalizado ou assinado.
Em outro diálogo, Vorcaro teria afirmado possuir uma "dívida de vida" com Moraes e agradecido ao ministro por sua atuação.
A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, pediu a nulidade do material obtido pela PF e o arquivamento do relatório. A PGR argumenta que as diligências teriam sido realizadas sem pedido prévio do Ministério Público ou da própria Polícia Federal.
Durante o discurso, Lula também fez referência aos vazamentos de informações relacionados à investigação envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
O nome de Lulinha aparece em uma apuração da PF sobre supostas irregularidades envolvendo fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O presidente afirmou que vazamentos seletivos podem ser utilizados com interesses políticos ou econômicos.
"O que nós não podemos nesse país é oficializar a indústria da fake news, dos vazamentos seletivos por interesse político ou econômico. Não é possível", afirmou.
Para Lula, a divulgação fragmentada de informações pode prejudicar a confiança da população na Justiça.
Presente na cerimônia, Edson Fachin discursou antes de Lula e afirmou que o STF deverá dar uma resposta aos fatos relacionados aos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Segundo Fachin, a resposta da Corte deverá ser "firme, proporcional e rigorosa", diante das informações que vieram a público.
O presidente do STF também defendeu o encerramento do chamado inquérito das fake news, investigação aberta pela própria Corte em 2019 para apurar ataques e ameaças contra ministros e instituições.
Mais cedo, Fachin havia retirado um pedido apresentado por Moraes para a abertura de um processo contra Mendonça dentro do inquérito. As informações relacionadas ao episódio foram encaminhadas ao gabinete da presidência do Supremo.
A sequência de declarações ocorre em um momento de forte pressão sobre o STF e a PGR, que passaram a ser cobrados por esclarecimentos diante das informações envolvendo Vorcaro e autoridades do Judiciário.
Ao longo do discurso, Lula procurou defender a preservação das instituições, mas também afirmou que transparência e responsabilização são necessárias para impedir o desgaste da democracia.
O presidente encerrou a fala comemorando a sanção de três projetos relacionados a fundos destinados à Justiça e afirmou que espera que o país consiga superar o atual ambiente de tensão.
"Nós estamos vivendo uma época muito perigosa. O denuncismo, a fake news, os vazamentos não contribuem pra democracia. Portanto, boa sorte ao Brasil e boa sorte a todos nós", concluiu Lula.
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