Política

Ricardo Nunes veta emenda para treinamentos que atendem mulheres vítimas de violência

Decisão ocorre em um contexto de aumento recorde da violência contra mulheres em São Paulo, que já contabilizava mais de 53 feminicídios em 2025  |  Foto: Edson Lopes Jr./SECOM

Publicado em 07/01/2026, às 20h00   Foto: Edson Lopes Jr./SECOM   Marcela Guimarães

Entre mais de 3.700 emendas apresentadas ao orçamento municipal de São Paulo para 2026, apenas uma foi vetada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB).

O corte atingiu um repasse de R$ 100 mil destinado à capacitação de equipes hospitalares no atendimento a mulheres vítimas de violência em duas unidades da zona leste da capital.

O recurso, caso aprovado, seria direcionado ao Coletivo Aurora, responsável pelo Projeto Vivas.

Segundo apuração do Metrópoles, a proposta previa que a organização realizasse treinamentos com profissionais da rede municipal de saúde que atendem mulheres em situação de violência e pacientes com direito ao aborto legal pelo SUS.

Justificativa da prefeitura

No texto encaminhado à Câmara Municipal, o prefeito argumenta que o veto se deve ao impacto da emenda sobre o planejamento da administração.

Segundo Nunes, a “referida alteração interfere diretamente no planejamento setorial previamente definido, construído a partir de diretrizes técnicas, prioridades de gestão e políticas públicas já estruturadas para o exercício financeiro”.

A justificativa, no entanto, não explica de forma objetiva por que a capacitação de equipes hospitalares voltada a vítimas de violência seria incompatível com esse planejamento.

Procurada, a prefeitura enviou uma nota listando ações e serviços já existentes focados em mulheres.

Críticas e reação política

Autora da emenda, a vereadora Luana Alves (PSOL) classificou a decisão como um ato de violência institucional.

“Eu fico muito chateada que, em um contexto de uma epidemia de violência contra as mulheres, inclusive sexual, o prefeito escolha fazer esse gesto tão violento. Foi colocada uma pecha de abortista no Vivas, o que é uma loucura. O Vivas ajuda mulheres e meninas que têm direito a aborto legal a acessar o aborto legal. Não faz aborto, quem faz o aborto legal são os serviços de saúde da prefeitura”.

Antes mesmo do veto, a proposta já havia sido alvo de críticas por parte de vereadores da ala conservadora da Câmara Municipal.

Para Luana, os argumentos usados para barrar o repasse distorcem o papel da organização. “As alegações de que ‘faz aborto, então não tem que ter financiamento’ é misto de ignorância, má fé e não ligar para vida das mulheres. Os serviços de saúde públicos fazem aborto legal e o que o Vivas faz é orientar essas mulheres”, explicou.

A vereadora também questionou a postura do prefeito ao tratar da gravidade do tema.

“Eu temo pelo que acontece no serviço de atendimento à mulher vítima de violência aqui na cidade de São Paulo diante da postura de um prefeito absolutamente machista. Acho que ele não faz ideia do que é atender uma mulher vítima de violência. E, se se faz, não liga”, afirmou Luana.

Contexto de violência crescente

O veto ocorre em um momento crítico para a capital paulista. São Paulo enfrenta o que especialistas e autoridades classificam como uma “epidemia” de violência contra mulheres.

Em 2025, a cidade registrou 53 feminicídios entre janeiro e outubro, número recorde desde o início da série histórica, em 2015. Mesmo sem os dados de novembro e dezembro, o total era o mais alto já contabilizado.

Classificação Indicativa: Livre


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