Política
Publicado em 07/01/2026, às 20h00 Foto: Edson Lopes Jr./SECOM Marcela Guimarães
Entre mais de 3.700 emendas apresentadas ao orçamento municipal de São Paulo para 2026, apenas uma foi vetada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB).
O corte atingiu um repasse de R$ 100 mil destinado à capacitação de equipes hospitalares no atendimento a mulheres vítimas de violência em duas unidades da zona leste da capital.
O recurso, caso aprovado, seria direcionado ao Coletivo Aurora, responsável pelo Projeto Vivas.
Segundo apuração do Metrópoles, a proposta previa que a organização realizasse treinamentos com profissionais da rede municipal de saúde que atendem mulheres em situação de violência e pacientes com direito ao aborto legal pelo SUS.
No texto encaminhado à Câmara Municipal, o prefeito argumenta que o veto se deve ao impacto da emenda sobre o planejamento da administração.
Segundo Nunes, a “referida alteração interfere diretamente no planejamento setorial previamente definido, construído a partir de diretrizes técnicas, prioridades de gestão e políticas públicas já estruturadas para o exercício financeiro”.
A justificativa, no entanto, não explica de forma objetiva por que a capacitação de equipes hospitalares voltada a vítimas de violência seria incompatível com esse planejamento.
Procurada, a prefeitura enviou uma nota listando ações e serviços já existentes focados em mulheres.
Autora da emenda, a vereadora Luana Alves (PSOL) classificou a decisão como um ato de violência institucional.
“Eu fico muito chateada que, em um contexto de uma epidemia de violência contra as mulheres, inclusive sexual, o prefeito escolha fazer esse gesto tão violento. Foi colocada uma pecha de abortista no Vivas, o que é uma loucura. O Vivas ajuda mulheres e meninas que têm direito a aborto legal a acessar o aborto legal. Não faz aborto, quem faz o aborto legal são os serviços de saúde da prefeitura”.
Antes mesmo do veto, a proposta já havia sido alvo de críticas por parte de vereadores da ala conservadora da Câmara Municipal.
Para Luana, os argumentos usados para barrar o repasse distorcem o papel da organização. “As alegações de que ‘faz aborto, então não tem que ter financiamento’ é misto de ignorância, má fé e não ligar para vida das mulheres. Os serviços de saúde públicos fazem aborto legal e o que o Vivas faz é orientar essas mulheres”, explicou.
A vereadora também questionou a postura do prefeito ao tratar da gravidade do tema.
“Eu temo pelo que acontece no serviço de atendimento à mulher vítima de violência aqui na cidade de São Paulo diante da postura de um prefeito absolutamente machista. Acho que ele não faz ideia do que é atender uma mulher vítima de violência. E, se se faz, não liga”, afirmou Luana.
O veto ocorre em um momento crítico para a capital paulista. São Paulo enfrenta o que especialistas e autoridades classificam como uma “epidemia” de violência contra mulheres.
Em 2025, a cidade registrou 53 feminicídios entre janeiro e outubro, número recorde desde o início da série histórica, em 2015. Mesmo sem os dados de novembro e dezembro, o total era o mais alto já contabilizado.
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