Política
Publicado em 11/03/2026, às 12h14 Foto: Divulgação/Governo de São Paulo Marcela Guimarães
Empresários e trabalhadores do setor de guinchos em São Paulo, que dizem ter apoiado a eleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos), passaram a criticar o governo estadual por conta do modelo de concessão dos pátios veiculares.
Segundo representantes da categoria, a medida favoreceria grandes grupos econômicos e poderia provocar a perda de até 50 mil empregos.
“Nós trabalhamos por ele. Tinha guincho puxando pallet de panfleto. nós trabalhamos em campanha para o Tarcísio. Ele traiu todos que o apoiaram. Não tem prefeito contente com ele, nenhum deputado está contente. Ele quebrou o sistema. É ele, é ele, é ele. Ele liga o trator, não existe democracia com ele”, disse Lázaro Fernando de Carvalho, líder da Associação dos Proprietários de Pátios e Guinchos do Estado de São Paulo (Apagesp).
A concessão envolve serviços de remoção, guarda, liberação e preparação de veículos apreendidos para leilão, atividades realizadas nos pátios que recebem carros recolhidos por órgãos como o Detran e a Polícia Rodoviária Federal.
Atualmente existem 237 pátios no estado, a maioria operada por pequenos empresários. O edital lançado em janeiro prevê sete lotes com cerca de 125 unidades.
A Apagesp argumenta que as exigências do edital inviabilizam a participação dos operadores tradicionais do setor.
Um dos critérios é a comprovação de experiência prévia na gestão de ativos que tenham gerado receitas de cerca de R$ 8 milhões por ano, valor considerado incompatível com a realidade do segmento.
“Fizemos umas 40 perguntas nas audiências públicas, presencialmente e no chat conforme eles pediram. Nenhuma nunca foi respondida. Nunca nos ouviram. Investimos valores significativos para formular um projeto, que foi entregue na SP Parcerias, no Palácio dos Bandeirantes, na Assembleia Legislativa, na Polícia Civil e no Detran. Não tivemos nenhuma resposta”, comentou o representante.
A proposta de concessão aproximou entidades patronais e sindicatos de trabalhadores, que prometem intensificar protestos até 29 de abril, data prevista para a licitação.
Entre os críticos estão a Apagesp, o sindicato dos proprietários de guinchos (Segresp) e o sindicato dos guincheiros (Singuesp).
As entidades também questionam o fato de o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) ter sido contratado sem licitação para elaborar os estudos de viabilidade e o modelo do projeto.
Representantes do setor apontam o modelo do Paraná como exemplo mais equilibrado. No estado, os pátios são administrados pela Polícia Militar e estão sendo privatizados em dois lotes.
Segundo os sindicatos, o estudo elaborado pelo BRDE indicaria aumento de 17% no custo de remoção de veículos leves e de até 300% no caso de caminhões.
A redução do número de pátios também poderia obrigar motoristas a buscar seus veículos em cidades diferentes.
“Quem teve o carro apreendido vai ter que sair da sua própria cidade, sem o carro, para ir para outra cidade. Aumenta ainda mais o custo para alguém que já está em dificuldade financeira”, disse Ronaldo Eger, do sindicato dos proprietários de guinchos.
Outro ponto criticado pelo setor é o acúmulo de veículos nos pátios. Segundo representantes da área, o número de leilões diminuiu desde 2023. Enquanto antes eram realizados cerca de 40 por ano, apenas oito teriam ocorrido desde o início da atual gestão.
Hoje, cerca de 300 mil veículos estariam armazenados nos pátios do estado, muitos em deterioração.
Pelo edital, os atuais operadores continuariam responsáveis por esses veículos após a concessão, mas perderiam parte da receita gerada pelas taxas pagas pelos proprietários que retiram os carros.
Lázaro afirma que o impacto pode atingir centenas de empresas e até administrações municipais.
“Hoje várias prefeituras usam o dinheiro da concessionária para pagar pintura de faixa de trânsito, trocar viatura, fardar policial. Vai quebrar toda uma cadeia. Vai quebrar também quem presta serviço para os pátios, toda a economia indireta. Mais de 400 empresas vão quebrar”, comentou ele.
O governador Tarcísio de Freitas tem defendido publicamente o novo modelo, argumentando que o sistema atual gera custos elevados para os usuários.
“É lógico que eles não têm interesse que a gente faça concessão para a iniciativa privada. A gente quer garantir que esses veículos que eventualmente vão ficar no pátio tenham, de fato, a proteção que precisam ter. A gente quer que esse serviço seja mais barato”, disse o governador durante agenda em Bauru (SP).
As entidades reconhecem a necessidade de mudanças no setor, mas afirmam que o modelo proposto exclui os operadores tradicionais.
“Há pelo menos 20 anos lutamos pela regulamentação do setor e foi isso que o governador nos prometeu na campanha. Entregamos em novembro, nas mãos do secretário Rafael Benini, o modelo de concessão semelhante ao do Paraná, municipalizado. Agora vem esse edital que simplesmente nos impede de participar e direciona tudo para grandes grupos econômicos. Vamos à justiça para derrubar esse absurdo e sobreviver”, afirmou Fábio Gregório, diretor e porta-voz da APPAGESP.
Procurado pelo portal Metrópoles, o governo de São Paulo enviou a seguinte nota:
“A Secretaria de Parcerias em Investimentos do Estado de São Paulo (SPI) informa que o projeto de concessão do serviço de remoção e guarda de veículos tem como objetivo modernizar e padronizar a prestação do serviço em todo o Estado, assegurando atendimento aos 645 municípios com mais transparência, eficiência e previsibilidade ao cidadão. A modelagem foi estruturada com base em estudos técnicos especializados e passou por consulta pública e sete audiências regionais, com análise e consolidação das contribuições recebidas. O novo modelo estabelece metas claras de desempenho, cobertura regional e padrões mínimos obrigatórios de infraestrutura, segurança e rastreabilidade digital de toda a jornada do veículo, sob fiscalização da Arsesp.
A proposta cria uma tabela tarifária única e transparente, substituindo o cenário atual de valores heterogêneos e ausência de padronização entre diferentes órgãos e regiões. O modelo incorpora mecanismos de modicidade e incentivo à regularização, como desconto para retirada em até sete dias e critérios objetivos de cobrança, garantindo equilíbrio entre qualidade do serviço e proteção ao usuário. O edital permite participação por meio de consórcios e autoriza subcontratação, ampliando a competitividade e a possibilidade de atuação de empresas do setor. A contratação do BRDE observou a legislação vigente.
O Estado também atua para reduzir o estoque acumulado ao longo de anos, sendo que, com a implementação do projeto, cerca de 42 mil veículos já se encontram em processo de leilão nos primeiros meses de 2026. Atualmente, aproximadamente 180 mil veículos estão aptos à leilão, e as medidas adotadas visam conferir maior regularidade e previsibilidade ao sistema, reduzindo progressivamente esse volume. O início da operação do novo modelo será gradual e observará os contratos vigentes e as regras contratuais específicas da concessão, assegurando continuidade operacional, segurança jurídica e cumprimento das responsabilidades previstas em lei”.
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