Farinha Lima
por Farinha Lima
Publicado em 21/01/2026, às 07h00
Há um novo espírito rondando corredores acarpetados do Judiciário baiano, gabinetes políticos em Salvador e salas envidraçadas da Faria Lima. Não usa lençol nem faz barulho, mas atende pelo apelido de “Fantasma de Vorcaro”.
A assombração, segundo relatos de bastidores, tem provocado insônia em empresários mais traquinos e políticos acostumados a voos frequentes entre Salvador e São Paulo. O fenômeno não aparece em fotos, mas surge em conversas sussurradas, agendas canceladas e celulares que passam a vibrar fora de hora.
Quem sabe do que se trata prefere não saber demais. Afinal, fantasma bom é aquele que não chama seu nome em voz alta.
Não foi o Copom nem o dólar. O nome que passou a gelar conversas na Faria Lima é João Carlos Mansur, fundador da gestora Reag. Antes vitrine de sucesso do mercado, com patrimônio saltando de R$ 25 bilhões para R$ 341 bilhões em cinco anos, Mansur virou alvo de investigações que envolvem Banco Central, Ministério Público, Polícia Federal e chegam ao STF.
A Reag foi liquidada extrajudicialmente pelo BC um dia após a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura indícios de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e relações com o Banco Master.
Entre falhas graves de gestão, buscas e investigações que tangenciam esquemas no setor de combustíveis, o efeito é visível. Reuniões mais curtas, agendas canceladas e um novo consenso no coração financeiro do país. Hoje, o maior risco atende por nome e sobrenome.
No coração da Faria Lima, no 11º andar de prédios que simbolizam o capitalismo gourmet paulistano, Banco Master, Trustee DTVM e companhia dividiram endereço, corredores e personagens — tudo oficialmente tratado como “mera coincidência imobiliária”.
Documentos mostram que a gestora ligada a investigações da PF por lavagem de dinheiro do PCC funcionou no mesmo endereço do banco de Daniel Vorcaro, hoje liquidado pelo Banco Central, enquanto sócios e executivos circulavam entre cargos, holdings e fundos suspeitos.
A defesa garante que era só um compartilhamento de espaço, prática comum no mercado, sem troca de informações ou atuação conjunta, apesar de operações como Compliance Zero e Carbono Oculto apontarem conexões financeiras, fundos cruzados e até elo com políticos do Centrão.
A Polícia Militar de São Paulo decidiu cortar relações com o Banco Master e encerrou, em novembro de 2025, o acordo que permitia a contratação de empréstimos consignados pela instituição, medida tomada logo após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do banco em meio a investigações por suspeitas de fraude.
A Secretaria da Segurança Pública tratou de esclarecer que a PM apenas formaliza convênios e operacionaliza descontos em folha, já que a escolha do banco é “livre” — desde que ele não esteja sendo liquidado pelo BC.
Hoje, 111 instituições seguem habilitadas para oferecer crédito aos servidores, amparadas por um decreto que há mais de dez anos garante liberdade de escolha, mas aparentemente não imunidade a escândalos financeiros.
O Governo de São Paulo decidiu investir pesado na “transformação digital” e bancou cerca de R$ 62 mil para que o secretário de Gestão e Governo Digital, Caio Paes de Andrade passasse uma temporada em Cambridge, na Inglaterra, entre julho e agosto de 2025, participando de um curso sobre governo digital.
Só em passagens aéreas foram quase R$ 42 mil, apesar de o mesmo trajeto São Paulo–Londres sair por algo em torno de R$ 10 mil no mercado, além de R$ 20 mil em diárias.
A gestão estadual garante que tudo seguiu rigorosamente os critérios administrativos, com direito a classe compatível com o cargo, flexibilidade de remarcação e conexões adequadas, porque aprender sobre tecnologia, ao que parece, exige conforto transatlântico.
Entregue em julho, um condomínio recém-inaugurado na Vila Madalena virou símbolo da energia alternativa forçada: sem ligação definitiva da Enel, cerca de 270 moradores vivem à base de geradores portáteis para tocar a rotina doméstica.
A Justiça já mandou a distribuidora fazer a conexão elétrica, com prazo, multa e tudo, mas a ordem segue no modo economia.
Enquanto a Enel fala em obras complexas, estudos técnicos e agenda marcada, moradores relatam apagões, escadas de 20 andares vencidas no braço e geradores que não dão conta quando a chuva aperta.
O prédio está de pé, os apartamentos foram entregues, a conta judicial corre: só a luz é que ainda não chegou.
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