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Fim do home office muda mercado imobiliário; especialista explica por que morar no interior de SP perdeu força

Fim do home office
Levantamento aponta mudança no mercado imobiliário nas cidades do interior de SP após a pandemia, especialista analisa os efeitos do fim do home office  |   BNews SP - Divulgação Fim do home office - Foto: Magnific
Amanda Ambrozio

por Amanda Ambrozio

Publicado em 13/10/2026, às 06h00



A pandemia de Covid-19 mudou a relação dos paulistas com o trabalho e com o lugar onde vivem. Durante o avanço do home office, muitas pessoas deixaram a capital em busca de imóveis maiores, áreas verdes e cidades mais tranquilas.

Agora, com empresas ampliando a presença nos escritórios, essa lógica começa a mudar. Dados do Colégio Notarial do Brasil – São Paulo (CNB/SP) mostram que a capital registrou 90.402 escrituras de compra e venda de imóveis em 2025, número 49,6% superior ao de 2020.

Na direção contrária, municípios que ganharam força durante o trabalho remoto perderam parte do ritmo. Entre 2021 e 2025, o número de escrituras caiu 57% em Itupeva, 41% em Cotia, 36% em Indaiatuba e 31% em Atibaia.

Em entrevista ao BNews São Paulo, Taunai Moreira, advogado especializado em Direito Imobiliário e sócio do escritório Bruno Boris Advogados, afirmou que a retomada dos escritórios tem relação direta com essa mudança.

“Com o retorno dos escritórios, a localização voltou a ser um fator decisivo na decisão de moradia.”

Home office perde espaço e localização volta a pesar

Durante a pandemia, trabalhar de casa permitiu que a distância entre residência e emprego deixasse de ser um dos principais critérios na escolha de um imóvel. Famílias passaram a buscar casas maiores, condomínios fechados e municípios mais afastados da capital.

Com a retomada do trabalho presencial e a consolidação dos modelos híbridos, porém, o deslocamento voltou a fazer parte da conta.

Pesquisa da WeWork em parceria com a Offerwise mostra que 63% dos profissionais trabalham presencialmente. Para 79%, essa condição é determinada pela empresa.

O impacto também aparece nas dificuldades apontadas pelos trabalhadores: 65% citam o deslocamento como principal desvantagem do trabalho presencial, enquanto 53% relatam aumento das despesas relacionadas à ida ao escritório.

Para Moreira, a proximidade voltou a pesar, mas não significa necessariamente morar ao lado do trabalho.

“O trabalhador aceita o deslocamento, porém exige que ele seja razoável e previsível.”

Cidades que cresceram na pandemia perdem força

Os dados do CNB/SP mostram que algumas cidades que se beneficiaram da migração imobiliária durante o home office devolveram parte dos ganhos.

Entre 2021 e 2025, Itupeva teve queda de 57% no número de escrituras. Depois aparecem Cotia (-41%), Indaiatuba (-36%), São João da Boa Vista (-32%), Atibaia (-31%), Peruíbe (-30%), Itu (-28%) e Itatiba (-28%).

O movimento é mais evidente em municípios conhecidos pela oferta de casas maiores, condomínios e qualidade de vida para quem podia trabalhar remotamente.

Segundo Moreira, a procura por esses imóveis não desapareceu, mas perdeu força.

“A busca por espaço, área verde e imóveis maiores é uma preferência estrutural que a pandemia apenas antecipou.”

Para o especialista, cidades que dependiam principalmente dos trabalhadores remotos passam agora por uma fase de ajuste, enquanto aquelas com economia própria tendem a ser mais resistentes.

Nem todo município do interior perdeu moradores

Apesar do recuo em algumas cidades, o movimento não foi uniforme. Taboão da Serra liderou o crescimento proporcional das escrituras entre 2021 e 2025, com alta de 73%.

Na sequência aparecem Bauru, com 42%; Barueri, com 26%; Paulínia, com 19%; e Limeira, com 14%.

A diferença está na capacidade de cada município de atrair moradores por motivos que vão além do trabalho remoto.

“A cidade com economia própria gera seus próprios empregos, atrai moradores por oportunidades de trabalho, serviços, educação e qualidade de vida.”

Capital volta a ganhar importância no mercado imobiliário

O recorde de escrituras registrado em São Paulo ajuda a ilustrar essa mudança. Em 2025, foram 90.402 escrituras, volume 49,6% superior ao de 2020.

O interior turístico encerrou 2025 com volume equivalente a 99,3% do patamar de 2020. O litoral, por outro lado, permaneceu cerca de 20% acima do nível registrado antes da pandemia, embora sem crescimento relevante desde 2023.

Para o advogado, o mercado não deve simplesmente voltar ao cenário anterior à Covid-19.

“A expectativa mais realista é de uma distribuição mais equilibrada, com a capital consolidada como polo de emprego e as cidades com economia própria ganhando protagonismo.”

O que considerar antes de comprar um imóvel?

A retomada dos escritórios também pode afetar quem pretende mudar de cidade. Segundo Moreira, cinco fatores devem ser considerados antes da decisão: custo e tempo de deslocamento, estabilidade do modelo de trabalho, situação financeira, vínculos familiares e qualidade de vida e potencial de valorização do imóvel e da região.

A mudança no mercado de trabalho também alcança outros segmentos ligados à habitação. Segundo a Robert Half, profissionais de construção civil e engenharia trabalham, em média, 4,8 dias por semana nos escritórios. No setor de serviços, a média é de 3,3 dias.

Ao mesmo tempo, 54% dos gestores consideram que o aumento da presencialidade eleva o risco de perda de talentos, enquanto 52% dos trabalhadores afirmam que considerariam mudar de emprego caso houvesse redução da flexibilidade.

Na pesquisa da WeWork, apenas 42% escolheriam trabalhar presencialmente se pudessem decidir livremente.

O resultado não é uma volta em massa para a capital nem o abandono completo do interior.

O mercado se torna mais seletivo, e cidades próximas a polos de emprego ou com economia própria tendem a ter mais capacidade de sustentar a demanda, enquanto destinos que cresceram principalmente graças ao home office enfrentam um período de ajuste.

Classificação Indicativa: Livre

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