Polícia
por Andrezza Souza
Publicado em 24/07/2026, às 07h00
Pessoas negras representaram 79,7% das vítimas de mortes violentas intencionais (MVI) registradas no Brasil em 2025, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
O percentual supera em mais de 24 pontos a participação desse grupo na população brasileira, já que, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pretos e pardos correspondem a 55,5% dos habitantes do país.
O levantamento também mostra que o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, o equivalente a uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes. O índice representa uma queda de 8,2% em relação a 2024 e de 31% na comparação com 2012, primeiro ano da série histórica do Fórum. É a primeira vez que a taxa fica abaixo de 20 mortes por 100 mil habitantes.
O Anuário considera como mortes violentas intencionais os casos de homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, tanto em serviço quanto fora dele.
Segundo o levantamento, a desigualdade racial aparece em todas as categorias de mortes analisadas.
Nos homicídios dolosos, pessoas negras representam 79,9% das vítimas. Já nas mortes decorrentes de intervenção policial, esse percentual sobe para 82%, enquanto pessoas brancas correspondem a 17,7% dos casos.
Nos registros de lesão corporal seguida de morte, pretos e pardos representam 68,6% das vítimas, contra 30,1% de pessoas brancas. No latrocínio, os percentuais são de 62,8% e 36,7%, respectivamente.
O relatório ressalta ainda que vítimas indígenas e amarelas aparecem em proporções menores, mas destaca a necessidade de ampliar a produção de dados específicos sobre essas populações.
O Anuário aponta que a taxa de mortes provocadas por intervenção policial foi de 3,5 por 100 mil habitantes entre pessoas negras, enquanto entre pessoas brancas o índice ficou em 1,0 por 100 mil habitantes, uma diferença de 3,5 vezes.
Em 2025, o país registrou 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial, alta de 5,4% em comparação com o ano anterior. Esse tipo de ocorrência passou a representar 16,2% de todas as mortes violentas intencionais, o maior número da série histórica do Fórum.
O perfil das vítimas também evidencia concentração entre homens e jovens.
Segundo o estudo, 90,8% das vítimas de mortes violentas intencionais eram homens. Nos casos de mortes provocadas por intervenção policial, esse percentual chega a 99,3%.
Pessoas entre 18 e 29 anos representam 41,6% das vítimas de mortes violentas no país. Nas ocorrências envolvendo ação policial, a faixa de 18 a 24 anos concentra cerca de 36% dos casos.
Entre crianças e adolescentes, a desigualdade racial também aumenta conforme a idade. Na faixa de 0 a 11 anos, 62,6% das vítimas eram negras. Entre adolescentes de 12 a 17 anos, o percentual sobe para 86,3%, o equivalente a quase nove em cada dez vítimas.
No caso das mulheres, 65,1% das vítimas de feminicídio eram negras, enquanto esse grupo representou 74,6% das vítimas das demais mortes violentas intencionais. Em 2025, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio, alta de 4% em relação ao ano anterior.
O levantamento também identificou que 69,6% da população carcerária brasileira é composta por pessoas negras, maior percentual registrado desde 2005, quando o recorte por raça passou a integrar o estudo.
No sistema socioeducativo, 73,7% dos adolescentes internados se autodeclararam negros, sendo 56,3% pardos e 17,4% pretos. Entre eles, 76,1% têm entre 16 e 18 anos.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a repetição desse padrão ao longo de duas décadas indica uma seletividade racial persistente no funcionamento do sistema de justiça criminal.
O Anuário também registrou crescimento dos crimes relacionados ao racismo.
Em 2025, foram contabilizados 30.743 boletins de ocorrência por racismo, aumento de 13% em relação ao ano anterior. Já os registros de injúria racial chegaram a 21.443 casos, alta de 9,2%.
Pelo segundo ano consecutivo, os registros de racismo superaram os de injúria racial. Segundo o relatório, esse cenário está relacionado à Lei 14.532/2023, que passou a enquadrar a injúria racial como crime de racismo.
Apesar da redução geral dos homicídios, o estudo mostra que feminicídios e mortes decorrentes de intervenção policial foram as únicas categorias de mortes violentas intencionais que registraram aumento em 2025.
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