Polícia
Placas discretas, anúncios nas redes sociais e mensagens em aplicativos prometendo consulta imediata. Em São Paulo, clínicas médicas e estéticas ilegais funcionam de forma silenciosa em diferentes regiões da cidade.
Algumas operam em salas comerciais improvisadas; outras, dentro de apartamentos adaptados para parecer consultório. Na internet, oferecem exames, consultas e procedimentos invasivos por valores até 70% menores que os cobrados em estabelecimentos regularizados.
O discurso costuma ser o mesmo: rapidez, facilidade de pagamento e “resultado garantido”. O que o paciente geralmente não sabe é que, em muitos casos, não existe autorização sanitária, responsável técnico nem profissionais habilitados para o atendimento, e os números oficiais mostram que esse é um problema crescente no estado.
Relatos publicados por pacientes nas redes sociais indicam que o primeiro contato costuma acontecer justamente por anúncios online.
Em um comentário publicado em uma plataforma de reclamações, uma usuária relatou: “Vi a propaganda no Instagram dizendo que era uma clínica nova com promoção de preenchimento. O lugar parecia normal, mas depois meu rosto inchou muito e precisei ir ao hospital.”
Dados mais recentes do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) apontam que, entre janeiro de 2022 e maio de 2024, o órgão recebeu cerca de 300 denúncias envolvendo pessoas que não eram médicas realizando procedimentos médicos no estado.
Desse total, aproximadamente 90% se referiam a procedimentos estéticos feitos por quem não era médico, segundo levantamento divulgado pelo conselho. Esse volume representa uma média de mais de 10 situações denunciadas por mês.
Dados nacionais do Conselho Federal de Medicina (CFM) também apontam que, no Brasil, foram registrados cerca de 10 mil processos por exercício ilegal da medicina entre 2012 e 2023, colocando São Paulo entre os estados com maior número de ocorrências.
O funcionamento segue um padrão relativamente simples. Primeiro, aluga-se uma sala pequena, muitas vezes sem estrutura hospitalar mínima. A decoração tenta reproduzir o ambiente de um consultório: maca, armário branco, jaleco, equipamentos de estética e certificados impressos na parede.
Depois, cria-se presença digital com:
Grande parte dos atendimentos não acontece por telefone, mas por mensagem direta. O paciente agenda sem receber qualquer informação formal sobre quem irá atendê-lo.
Quando a fiscalização aparece, o local fecha. Pouco tempo depois, reabre em outro endereço ou com outro nome fantasia.
As investigações e denúncias mostram que não existe um único perfil de responsável. Há uma mistura de profissionais irregulares e pessoas sem formação.
Alguns chegaram a possuir inscrição profissional, mas tiveram o registro suspenso ou cancelado. Mesmo assim continuam atendendo, aproveitando o desconhecimento dos pacientes.
Profissionais formados fora do país podem atuar legalmente apenas após revalidar o diploma. Muitos não passam pelo processo e optam por trabalhar clandestinamente.
Procedimentos invasivos, como infiltrações, retirada de lesões, aplicação de substâncias e até pequenas cirurgias, são executados por quem não tem autorização para isso.
Há também casos em que o responsável aprendeu pela internet ou em cursos livres de poucos dias.
Para o paciente, a diferença é quase imperceptível: jaleco branco, linguagem técnica e um ambiente aparentemente organizado criam sensação de segurança.
A divulgação digital se tornou a principal porta de entrada. Plataformas permitem anúncios segmentados por bairro, idade e interesse. Pessoas que pesquisam sobre dor crônica, estética facial ou emagrecimento passam a receber ofertas de tratamento com preços reduzidos.
Outro recurso comum é o uso de avaliações fabricadas. Perfis novos surgem com dezenas de comentários positivos em poucos dias, todos com frases semelhantes.
Sem conhecer os mecanismos de verificação profissional, muitos pacientes consideram a popularidade online como prova de credibilidade.
Uma paciente que comentou sobre sua experiência em uma rede social descreveu a confiança inicial criada pela aparência digital da clínica: “O perfil tinha muitos seguidores e várias fotos de antes e depois. Achei que fosse confiável, mas depois descobri que o profissional nem era médico.”
A Vigilância Sanitária municipal atua principalmente por denúncia. O problema é a velocidade com que esses estabelecimentos mudam de identidade.
O ciclo costuma acontecer assim:
1. Abertura com CNPJ recém-criado;
2. Funcionamento por alguns meses;
3. Denúncia de paciente ou vizinho;
4. Inspeção e interdição;
5. Encerramento formal;
6. Reabertura em outro endereço.
Como não se trata de grandes clínicas estruturadas, a mudança é rápida e barata. Em poucos dias, o atendimento retorna.
Além disso, parte dos serviços acontece fora do consultório. Profissionais atendem em domicílio ou alugam salas por hora, o que dificulta rastreamento.
Fiscalizações realizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em parceria com vigilâncias estaduais e municipais mostram que irregularidades são a regra e não a exceção.
Na operação “Estética com Segurança, fase II”, entre 38 estabelecimentos fiscalizados em 2025, 35 apresentaram irregularidades sanitárias, e três foram completamente interditados por falta de protocolos, ausência de responsáveis técnicos e uso de produtos sem registro.
Em algumas inspeções, fiscais encontraram mais de 300 ampolas de substâncias injetáveis em condições de risco à saúde, além de equipamentos inadequados, reforçando que o problema vai além de irregularidade documental, trata-se de risco real à segurança do paciente.
Muitos casos só chegam ao sistema de saúde quando surgem complicações. Profissionais hospitalares relatam aumento de pacientes com infecções graves após procedimentos simples.
Um estudo multicêntrico com mais de 1.000 dermatologistas e cirurgiões plásticos no Brasil mostrou que cerca de 12,7% dos pacientes atendidos por especialistas haviam passado por procedimentos feitos por pessoas não habilitadas, frequentemente em ambiente irregular.
Em vários atendimentos de emergência, o paciente não sabe informar qual produto foi utilizado nem o nome completo do profissional.
Uma paciente descreveu, no "X" a dificuldade enfrentada no hospital após complicações: “Quando cheguei ao pronto-socorro perguntaram o que tinham aplicado em mim, mas eu não sabia dizer. A clínica só falou que era um ‘preenchimento importado’.”
Além das consequências físicas, há efeitos emocionais importantes.
Muitos pacientes sentem vergonha de relatar o ocorrido por acreditarem ter cometido um erro ao buscar atendimento barato. Outros enfrentam custos médicos altos para corrigir danos.
A ausência de responsável legal dificulta indenizações. Sem prontuário, nota fiscal ou identificação correta do profissional, o processo judicial se torna complexo.
Uma usuária relatou em rede social que evitou contar o que havia acontecido por meses: “Eu fiquei com vergonha de falar que fiz o procedimento em um lugar barato. Só procurei ajuda quando a dor ficou insuportável.”
Mesmo com operações periódicas, clínicas clandestinas continuam surgindo. O baixo custo de abertura e a demanda constante favorecem a repetição do modelo.
A questão envolve acesso à saúde, educação do paciente e fiscalização contínua. Os números de denúncias do Cremesp e os dados de complicações tratados pelos especialistas indicam que muitas vítimas ainda nem sabem quem as atendeu, e que a dificuldade de fiscalização e rastreamento pode permitir que o ciclo continue.
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