Política
A crise climática em São Paulo atinge toda a população, mas seus efeitos não são distribuídos de forma igualitária: moradores de áreas periféricas, famílias de baixa renda, populações em situação de rua e grupos historicamente marginalizados enfrentam os impactos mais severos de eventos extremos como ondas de calor, enchentes e escassez de água.
Estudos científicos da Science Direct apontam que as ilhas de calor urbanas, fenômeno em que áreas densamente construídas registram temperaturas significativamente mais altas que zonas arborizadas, intensificam os efeitos das ondas de calor, e isso acontece de forma desigual em São Paulo.
Em bairros mais pobres e com menos vegetação e infraestrutura adequada, o risco de exposição ao calor extremo é muito maior do que em regiões centrais e mais arborizadas da cidade, refletindo diretamente nas condições socioeconômicas precárias dos moradores.
Fatores como tipo de habitação, proximidade de vegetação e moradia em áreas urbanizadas densamente estão diretamente associados ao nível de risco térmico enfrentado pelas populações, com a renda baixa sendo um dos principais elementos dessa equação.
Para a ativista e ambientalista Amanda da Cruz Costa, diretora executiva do Instituto Perifa Sustentável, essa desigualdade é uma expressão clara do que ela chama de “injustiça climática”.
Nascida e criada na periferia de São Paulo, Amanda afirma que as comunidades periféricas sofrem mais com enchentes e calor porque ocupam áreas ambientalmente frágeis e pouco servidas por políticas públicas que poderiam conter esses efeitos, como arborização, drenagem adequada e infraestrutura de água e esgoto.
A metrópole paulista também vê os impactos das mudanças no regime de chuvas. Dados da Natureza ON, ferramenta lançada pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o MapBiomas, com infraestrutura tecnológica do Google Cloud, apontam que centenas de hectares na Região Metropolitana estão classificados como áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos, com grande parte dessas áreas ocupadas por população de baixa renda.
A combinação de urbanização desordenada, falta de infraestrutura urbana adequada e ausência de políticas públicas de adaptação transformam chuvas intensas em tragédias cotidianas nessas regiões.
Em vários bairros periféricos, famílias convivem com risco constante de alagamentos que podem arruinar casas e interromper serviços básicos, sem planos de contingência eficazes.
Outro grupo altamente vulnerável é a população em situação de rua. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas estima que mais de 90 mil pessoas vivem nas ruas de São Paulo, expostas diretamente a adversidades cada vez mais extremas, incluindo ondas de calor e frentes frias intensas, sem abrigo ou proteção adequada.
Essas pessoas enfrentam riscos além do físico: a falta de água potável, cuidados médicos e até de alimentos em eventos climáticos extremos complicam ainda mais um quadro que já é precário.
As mudanças climáticas, junto com a falta de políticas públicas estruturadas, transformam a vida de quem já estava à margem da sociedade em um cenário de risco que corre o risco de ser permanente.
Além disso, um estudo inédito do Instituto Pólis mostra que populações negras e mulheres chefes de família estão desproporcionalmente representadas em áreas de risco climático, reflexo de padrões históricos de exclusão territorial e segregação urbana.
Essas desigualdades se manifestam em acesso inferior a serviços essenciais, menor cobertura de saneamento básico e menor presença de espaços verdes, ao mesmo tempo em que essas mesmas comunidades enfrentam maior exposição a enchentes, calor extremo e outros impactos climáticos.
A percepção do próprio povo reflete essa vulnerabilidade. Em pesquisas realizadas com moradores urbanos, calor excessivo, poluição do ar e enchentes aparecem entre os principais problemas associados às mudanças climáticas. Muitos cidadãos apontam que as cidades estão despreparadas para lidar com esses impactos.
As mudanças climáticas não são apenas um fenômeno ambiental ou meteorológico, mas sim um fator que intensifica desigualdades sociais reais. As condições materiais de moradia, renda, acesso a serviços públicos e a geografia urbana influenciam diretamente como cada pessoa experimenta os efeitos do clima.
Pesquisadores e organizações defendem que políticas públicas integradas de adaptação climática e justiça ambiental são essenciais para diminuir tais desigualdades, investindo em infraestrutura verde nas periferias, promovendo moradia digna em áreas seguras, garantindo acesso à água e serviços básicos e envolvendo as comunidades mais afetadas no planejamento e na execução desses programas.
Classificação Indicativa: Livre