Polícia
Publicado em 01/09/2026, às 11h54 - Atualizado às 11h55 Natane Ramos
Um jovem paulistano de 27 anos deu detalhes sobre um momento assustado que viveu após ter sido vítima de tráfico humano em Madagascar. O rapaz, que preferiu não ser identificado, declarou que foi recrutado para uma vaga de emprego no exterior que fazia parte de golpes financeiros.
Em seu relato ao g1, a vítima declarou que ele e é um dos 23 brasileiros de diferentes estados que estão em Antananarivo, capital de Madagascar, na África, depois de conseguirem escapar da organização criminosa que, de acordo com o relato, era comandada por chineses.
As vítimas tentam retornar ao Brasil mas afirmam estar sem passaportes. "Estão todos assustados, querendo voltar para casa. Mas não estamos recebendo ajuda de quem deveria estar dando, que é o consulado e o Itamaraty. Estamos com medo e tendo que nos virar sozinhos. Tem gente de vários estados e cerca de cinco mulheres", relatou.
O Ministério das Relações Exteriores declarou que, por meio da Embaixada do Brasil em Maputo, capital de Moçambique, responsável pelas relações com Madagascar, estava auxiliando o caso.
O paulistano declarou que procurava emprego quando encontrou uma oferta de trabalho no exterior em um grupo no Telegram. "Eu estava pesquisando empregos porque queria uma fonte de renda boa. Eu tinha perdido minha habilitação e não estava conseguindo emprego em São Paulo. Então fui procurar na internet. Nisso, caí em um grupo no Telegram que oferecia vaga de emprego no exterior", revelou.
"Eu vim naquela ilusão de tipo: ‘Estou sem emprego, provavelmente vou conhecer um novo país, uma nova cultura, vou ter uma moradia, vou ter uma alimentação, vou ter um salário, vou conseguir resolver minha vida no Brasil e vou voltar no fim disso com algum dinheiro no bolso’", relatou.
Os brasileiros foram enganados e encaminhados ao Camboja, no sudeste asiático. Lá, eles foram levados a uma suposta empresa. "Quando eu cheguei à empresa, onde seria essa empresa, era um prédio pequeno. Lá tinham várias pessoas de várias etnias. Tinham chineses, pessoas do próprio Camboja, brasileiros, pessoas de Angola. Foi daí que eu comecei a perceber. Me perguntei: ‘Por que está se mudando?’. Aí me falaram que eles estavam fugindo da polícia, que estavam sob investigação", relembrou.
Ao chegar a Madagascar, o brasileiro percebeu que o trabalho na verdade era um esquema de golpes financeiros. "Quando chegou lá, eu entendi o que era. Eles me deram um script, um roteiro, falaram para eu estudar esse roteiro. E eu vi que era uma central de golpes, através de ligações", declarou.
O brasileiro declarou que ele e os outros foram presos por um mês e passaram por situações desesperadoras. "Eles levaram todos nós, prenderam a gente. Eles acharam nosso passaporte no quarto de um chinês. Ele achou tudo, tudo, tudo: passaporte de todos juntos. Então levaram a gente para a prisão. A gente ficou totalmente no escuro, dormindo no chão. E era isso. A gente não tinha água. A gente não tinha alimentação", comentou.
"Eles estavam vendendo a gente. A gente ia voltar para a máfia. A máfia está levando a gente de volta. Eu tentei fugir, mas fui o único dos 23 que não conseguiu. Eu fui um dos únicos que fui ameaçado. Eles colocaram a arma na minha cabeça, colocaram a arma no meu peito", revelou.
Após a fuga, os 23 brasileiros se reencontraram e passaram a receber ajuda de voluntários. Em um documento enviado ao Itamaraty em 29 de agosto, o grupo pede repatriação emergencial, a liberação dos passaportes ou a emissão de Autorizações de Retorno ao Brasil (ARBs), além de proteção consular presencial.
"Todos os e-mails, todas as ligações que a gente tem, a resposta é sempre a mesma: que nós mesmos temos que comprar nossas passagens. A partir do momento que nós compramos nossas passagens, eles falam que nós vamos ter que apresentar nossas passagens para a polícia que prendeu a gente e que eles vão devolver o nosso passaporte", afirmou.
Em nota, o Itamaraty afirmou ainda que não pode fornecer informações sobre casos individuais de assistência a cidadãos brasileiros.
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