Polícia

Esquema envolvendo ex-vereador de Santo André permitia acesso do PCC a recursos públicos

Foto: Câmara Municipal de Santo André.
Operação aponta uso de campanhas eleitorais e serviços municipais para viabilizar lavagem de dinheiro e ampliar influência institucional do PCC  |   BNews SP - Divulgação Foto: Câmara Municipal de Santo André.
Bianca Novais

por Bianca Novais

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Publicado em 28/04/2026, às 15h36



A prisão de um ex-vereador do ABC Paulista trouxe novos elementos para uma investigação que apura a tentativa de infiltração do crime organizado em estruturas do poder público em São Paulo.

Segundo informações divulgadas pelo g1, Thiago Rocha de Paula é apontado como peça-chave na articulação política de um esquema associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação em diferentes cidades e possíveis conexões com o governo estadual.

A ação faz parte da Operação Contaminatio, conduzida pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Mogi das Cruzes, que também resultou na prisão de outros três investigados.

Ao todo, foram cumpridos 22 mandados de busca e apreensão em municípios paulistas e em outros estados, além do bloqueio de mais de R$ 500 milhões em bens e ativos.

Ponte entre crime e política

De acordo com a decisão judicial, o ex-vereador teria exercido um papel estratégico ao estabelecer conexões entre integrantes do grupo criminoso e agentes públicos. Embora não atuasse diretamente no tráfico ou na movimentação financeira central, sua função seria abrir caminhos institucionais para viabilizar interesses da organização.

As investigações indicam que campanhas eleitorais poderiam receber apoio financeiro do grupo, com o objetivo de garantir influência posterior dentro da administração pública.

Essa atuação incluiria tanto o nível municipal quanto tentativas de aproximação com órgãos estaduais.

Fintech e gestão pública

Um dos principais pontos apurados envolve a tentativa de inserir uma fintech, criada por integrantes do PCC, em sistemas de arrecadação municipal. A proposta seria utilizar serviços como emissão de boletos e gestão de receitas — incluindo taxas e impostos — para viabilizar a lavagem de dinheiro.

Registros analisados pela polícia apontam que Thiago Rocha de Paula participou de reuniões e negociações com representantes de prefeituras e agentes políticos em cidades como Santo André, Santos, Campinas e Ribeirão Preto. Em alguns casos, as conversas envolviam propostas concretas de implementação desses serviços.

Expansão e articulação

Além da atuação local, a investigação também identificou tentativas de ampliar o alcance do esquema. Há indícios de contato com um servidor ligado à Secretaria de Agricultura do estado, descrito como interlocutor para possíveis projetos e agendas institucionais.

Outro ponto levantado foi o planejamento de um “núcleo político” voltado a favorecer a organização criminosa, incluindo o lançamento de candidatos em eleições municipais. A análise de dispositivos eletrônicos e dados financeiros reforçou a hipótese de articulação coordenada entre os investigados.

Contexto da operação

A Operação Contaminatio é um desdobramento da Operação Decurio, realizada em 2024, que já havia identificado um esquema estruturado de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.

Na fase atual, o foco recai sobre a relação entre o grupo e agentes públicos, além da possível exploração de recursos estatais.

Até o momento, nenhum dos investigados possui mandato eletivo ou foro privilegiado. As autoridades seguem analisando o material apreendido para aprofundar as conexões identificadas e dimensionar o alcance do esquema.

Classificação Indicativa: Livre

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