Política
por Amanda Ambrozio
Publicado em 05/10/2026, às 14h36
Doze entidades médicas ligadas a especialidades que trabalham com tratamentos hormonais se posicionaram contra a utilização de implantes hormonais manipulados, conhecidos popularmente como “chip da beleza”, no Brasil.
Entre as entidades estão a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
Em uma carta conjunta, as sociedades pedem que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e outros órgãos públicos adotem medidas contra a manipulação, comercialização, publicidade e uso desses produtos.
O documento também defende o reforço da fiscalização e alerta para o aumento de pacientes que procuram atendimento médico após apresentarem efeitos adversos relacionados ao uso inadequado de hormônios.
Segundo as entidades, o atendimento de pacientes com complicações relacionadas ao uso de hormônios, principalmente por meio de implantes manipulados, passou a fazer parte da rotina de consultórios médicos.
Segundo o UOL, os produtos são pequenos bastonetes de silicone, chamados de pellets, produzidos em farmácias de manipulação e colocados sob a pele para liberar hormônios no organismo.
Eles ficaram conhecidos como “chip da beleza” principalmente por serem divulgados para finalidades estéticas, como ganho de massa muscular, emagrecimento e melhora da aparência física.
A tecnologia, porém, é diferente do Implanon, implante contraceptivo regulamentado no Brasil.
O Implanon possui composição e dosagem padronizadas e é utilizado especificamente para prevenção da gravidez.
Entre os principais hormônios encontrados nos implantes manipulados estão a testosterona e a gestrinona.
Também há relatos do uso de outras substâncias, como ocitocina, oxandrolona, um anabolizante, e tadalafila, medicamento utilizado para tratar disfunção erétil.
Segundo as entidades médicas, alguns produtos são prescritos sob o argumento de que fazem parte de uma “reposição hormonal” ou “terapia de reposição hormonal”.
As sociedades, porém, afirmam que essa utilização pode distorcer conceitos relacionados à terapia hormonal respaldada por evidências científicas.
No caso da menopausa, por exemplo, a terapia hormonal envolve principalmente estrogênio e progesterona.
As entidades destacam ainda que a única indicação de testosterona em mulheres respaldada por consensos internacionais é para casos de transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa, após avaliação médica e com doses que mantenham níveis fisiológicos do hormônio.
Outro ponto de preocupação é a ausência de estudos suficientes sobre os implantes manipulados.
Segundo as entidades, não há evidências capazes de garantir de forma adequada a pureza, esterilidade e velocidade de liberação dos hormônios presentes nos produtos.
Isso significa que os níveis hormonais podem apresentar picos ou variações consideradas perigosas.
Os médicos também alertam para uma dificuldade específica dos pellets: depois de implantados, os produtos podem ser difíceis de retirar.
Dessa forma, caso o paciente desenvolva uma reação adversa ou apresente níveis hormonais elevados, a retirada do implante pode não ser simples ou imediata.
Na carta, as entidades médicas citam uma série de possíveis complicações associadas ao uso inadequado desses hormônios.
Entre os riscos estão alterações no metabolismo de gorduras, problemas cardiovasculares e hepáticos, tromboembolismo e acidente vascular cerebral (AVC).
Também é citado o risco de falta de proteção do endométrio e das mamas, incluindo possíveis impactos relacionados ao câncer de mama.
Diante dos riscos apontados, as sociedades defendem que os órgãos públicos intensifiquem a fiscalização sobre os implantes manipulados e adotem medidas para impedir a divulgação e utilização de produtos que não tenham segurança e eficácia comprovadas.
O posicionamento também reforça a necessidade de diferenciar os implantes manipulados dos dispositivos regulamentados pela Anvisa, evitando que produtos sem padronização sejam apresentados aos pacientes como alternativas equivalentes às terapias hormonais reconhecidas pela medicina.
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