Política
por Amanda Ambrozio
Publicado em 04/09/2026, às 17h15
Um estudo da Rede Escola Pública e Universidade (Repu) identificou resultados atípicos no Provão Paulista, vestibular seriado destinado a estudantes da rede pública, e levantou dúvidas sobre possíveis impactos na seleção para universidades estaduais de São Paulo.
Criado pelo governo de São Paulo em 2023, durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o exame é aplicado ao final de cada ano do ensino médio e integra as formas de ingresso em instituições como USP, Unicamp, Unesp e Univesp.
Obtida pela Folha de S. Paulo, a análise dos microdados das provas de 2023, 2024 e 2025 identificou 4.305 estudantes com saltos considerados “extraordinariamente elevados e improváveis” de desempenho entre as edições.
Metade dos casos está concentrada em apenas 50 das mais de 5.500 escolas da rede paulista. Também há concentração regional: metade dos resultados atípicos foi registrada em apenas oito das 91 unidades regionais de ensino do estado.
O Provão Paulista é composto por 90 questões de múltipla escolha, com cinco alternativas cada.
Para identificar resultados atípicos, os pesquisadores acompanharam o desempenho dos mesmos estudantes ao longo das três edições e consideraram fora da curva uma evolução superior a três desvios-padrão, aproximadamente 20 pontos em uma prova de 90 questões.
Um exemplo citado no estudo é o de alunos que acertaram 25 questões em 2023 e passaram a registrar mais de 60 acertos nos anos seguintes.
Entre estudantes da rede estadual, 4.305 dos quase 225 mil participantes apresentaram resultados classificados como atípicos, o equivalente a 1,91%. Nas Etecs, a proporção foi significativamente menor: apenas 53 dos mais de 30 mil estudantes do 3º ano tiveram esse tipo de resultado, ou 0,17%.
Segundo Leonardo Crochik, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e um dos responsáveis pelo levantamento, a diferença chama atenção porque a proporção esperada de pontos fora da curva seria de aproximadamente 0,15%.
“O que surpreende é haver uma proporção muito maior, mais de 12 vezes acima do esperado e ainda mais concentrada em poucas escolas”, afirmou.
Em pelo menos nove escolas estaduais, mais de 75% dos alunos do 3º ano tiveram resultados considerados atípicos em 2025. Em uma delas, 45 dos 46 estudantes avaliados apresentaram saltos acima de três desvios-padrão.
O levantamento também aponta que os resultados podem ter impacto direto no acesso ao ensino superior. Dos 14.271 estudantes da rede estadual selecionados para universidades pelo último Provão Paulista, 11,3% estudavam em escolas com alta incidência de resultados atípicos.
Os pesquisadores, no entanto, afirmam que o estudo não permite apontar quais alunos ou escolas teriam cometido fraude. A análise busca identificar padrões estatísticos que merecem investigação e possíveis fragilidades na elaboração e aplicação do exame.
A preocupação aumenta diante de denúncias registradas desde a primeira edição do Provão Paulista. Em 2023, o tema da redação vazou nas redes sociais na véspera da prova. Nos anos seguintes, também houve relatos de vazamento de questões, uso de celulares e facilitação de cola por professores que atuavam como aplicadores.
Outro ponto levantado pelos pesquisadores é que o Provão Paulista passou a exercer funções que, na avaliação da Repu, podem entrar em conflito.
Além de ser utilizado para selecionar estudantes para universidades, o exame também foi empregado como instrumento de avaliação das escolas e como referência para bonificações e punições de professores e diretores.
Para os pesquisadores, essa combinação pode criar incentivos para a inflação artificial dos resultados, especialmente porque profissionais diretamente afetados pelo desempenho das escolas participam da aplicação e fiscalização da prova.
“O Provão Paulista acumula finalidades incompatíveis. A combinação dessas funções produz conflitos de interesse e incentiva a inflação dos resultados”, afirma a nota técnica.
A Secretaria Estadual da Educação (Seduc) afirmou que resultados estatisticamente atípicos, isoladamente, não podem ser tratados como evidência de fraude.
Segundo a pasta, a metodologia utilizada pelos pesquisadores não permite distinguir uma evolução legítima de aprendizagem de uma eventual irregularidade.
A Seduc também informou ter feito uma análise complementar de escolas com grande número de resultados atípicos e encontrado evolução relevante em matemática, medida pelo Saeb, em 34 delas.
“Associar resultados estatisticamente atípicos à ocorrência de fraude, sem evidências individualizadas que estabeleçam essa relação, é uma correlação temerária”, afirmou a secretaria.
Sobre as denúncias de uso de celulares em 2025, a pasta informou que identificou seis casos de estudantes que entraram nas salas com aparelhos e fotografaram questões.
Segundo a Seduc, não houve acesso prévio às provas, os exames foram anulados e as equipes escolares receberam orientações.
Questionada sobre o possível conflito de interesses na fiscalização, a secretaria não informou se pretende alterar o modelo de aplicação.
A Fundação Vunesp, responsável pela elaboração e correção da prova, afirmou adotar procedimentos de segurança em todas as etapas sob sua responsabilidade.
Unesp e Unicamp afirmaram que a responsabilidade pela aplicação e organização do Provão Paulista é da Secretaria da Educação e da Vunesp.
A Comvest, comissão responsável pelo vestibular da Unicamp, afirmou esperar que processos seletivos externos à universidade, como Enem e Provão Paulista, tenham o mesmo nível de segurança adotado em seus exames.
A Unesp informou que participa do processo conforme o acordo de cooperação firmado com as instituições responsáveis, enquanto a USP não respondeu aos questionamentos.
Diante dos resultados identificados, os pesquisadores defendem que sejam investigadas as causas dos desempenhos atípicos e aperfeiçoados os mecanismos de segurança e fiscalização do Provão Paulista, especialmente porque o exame já exerce papel relevante no acesso de estudantes da rede pública às universidades estaduais.
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