Política

Ex-presidente do BRB mandou aceitar R$ 2,9 bilhões em ativos do Master, diz PF

Ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa
Conversas obtidas pela PF mostram Paulo Henrique Costa cobrando urgência na operação após o Banco Central rejeitar a compra do Master pelo BRB  |   BNews SP - Divulgação Ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa - Foto: Joel Rodrigues/ Agência Brasília
Amanda Ambrozio

por Amanda Ambrozio

Publicado em 23/09/2026, às 15h45



Conversas interceptadas pela Polícia Federal (PF) mostram o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, pressionando diretores da instituição para assumir, com urgência, R$ 2,9 bilhões em ativos oferecidos pelo Banco Master.

As mensagens foram trocadas em setembro de 2025, cinco dias depois de o Banco Central ter rejeitado a compra do Master pelo BRB.

Em uma delas, Costa determinou ao então diretor executivo de Finanças e Controladoria, Dario Oswaldo Garcia Junior, que os ativos fossem colocados como garantia.

“Pega tudo isso em garantia. Depois a gente vê o que faz. O que fica e o que não fica”, escreveu Costa em 8 de setembro.

Segundo a investigação, a pressa estava relacionada à situação financeira do Banco Master. Em outra mensagem, o então presidente do BRB afirmou: “Eles podem morrer a qualquer momento. Não deixe nada disso para depois”.

BRB já havia comprado mais de R$ 20 bilhões em carteiras

Naquele momento, segundo a apuração, o BRB já havia adquirido mais de R$ 20 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master e buscava substituí-las por ativos considerados de melhor qualidade.

Entre os ativos oferecidos estavam participações na Alliança Saúde, avaliada em R$ 300 milhões, na Ligga, de R$ 800 milhões, além de cotas de um empreendimento em São Paulo, estimadas em R$ 457 milhões.

Também apareciam na relação participações na Steelcorp, avaliada em R$ 500 milhões, no hotel Rosewood, de R$ 500 milhões, e na empresa de food service Alife Nino, estimada em R$ 458 milhões.

Dias depois, Paulo Henrique Costa elaborou uma estratégia para tentar reduzir os valores das negociações. Em um documento manuscrito, propôs descontos nos ativos.

No caso da Alife Nino, por exemplo, a sugestão era reduzir o valor para R$ 300 milhões. Para a Steelcorp, a proposta era de R$ 250 milhões.

Apesar disso, segundo a reportagem, o BRB acabou pagando R$ 350 milhões por cada uma das duas participações.

Documentos levantados depois mostraram problemas nos ativos

As mensagens analisadas pela PF também indicam que parte da documentação só era verificada depois que os negócios já haviam sido formalizados.

Uma lista de pendências enviada por Dario a Paulo Henrique em 12 de novembro apontava problemas em fundos adquiridos pelo BRB, de acordo com o portal Metrópoles.

Entre eles estavam os fundos Yvrac e Bouliac, que possuíam cártulas do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Tratava-se de certificados físicos de ações de uma instituição incorporada pelo Banco do Brasil em 2008.

Segundo a apuração, esses papéis eram utilizados pelo Master para inflar o valor dos fundos.

Outro fundo, relacionado ao hotel Rosewood São Paulo, foi adquirido sem documentação que comprovasse que o Banco Master era efetivamente o proprietário das cotas negociadas.

Os nove fundos adquiridos também apresentavam pendências documentais que dificultavam a avaliação dos ativos. Na prática, segundo a reportagem, o BRB ainda não conseguia determinar quanto eles realmente valiam.

Terreno avaliado em R$ 301 milhões valia R$ 62 milhões

Outro caso citado pela PF envolve um terreno em Contagem, Minas Gerais.

Segundo informações apresentadas pelo diretor de controladoria do BRB, o imóvel inicialmente estava avaliado em aproximadamente R$ 301 milhões, mas uma avaliação posterior reduziu o valor para R$ 62 milhões.

Paulo Henrique Costa atribuiu a diferença a possíveis metodologias distintas de avaliação.

“Provavelmente há diferença de metodologia. Eles devem estar considerando o valor do terreno desenvolvido e, nós, a terra crua”, escreveu.

Documentos analisados pela reportagem, porém, apontam características que dificultariam a valorização do terreno. O imóvel teria uma lateral voltada para uma curva da linha férrea, exigindo recuo de 15 metros, além de uma frente estreita para a rua.

O laudo contratado pelo Master também teria atribuído ao terreno um valor por metro quadrado superior ao de outras áreas classificadas como “terra crua” na mesma região.

BRB avaliou outros terrenos e encontrou diferença milionária

As conversas também mostram que o presidente do BRB buscava alternativas para compensar a diferença encontrada no terreno de Contagem.

Quatro outros terrenos oferecidos pelo Banco Master foram avaliados pelo BRB. Segundo a reportagem, o Master atribuía aos imóveis um valor de R$ 280 milhões, enquanto a avaliação do Banco de Brasília apontou que eles valiam apenas R$ 32 milhões.

A diferença entre os valores reforçou, segundo a investigação, as dúvidas sobre a qualidade dos ativos utilizados nas negociações entre as duas instituições.

Carteira de R$ 4 bilhões teria apenas R$ 17 milhões após filtros

Outro diálogo analisado pela PF envolve uma carteira de crédito já adquirida pelo BRB.

Em 13 de novembro, Paulo Henrique Costa cobrou informações sobre a análise da carteira. Dario respondeu com uma tabela que mostrava uma diferença expressiva entre o valor original e o montante considerado aproveitável após a aplicação de filtros de risco.

A carteira tinha uma base de aproximadamente R$ 4 bilhões em créditos. Quando foram retirados clientes com pontuação inferior a 700 no score de crédito e aqueles negativados no Serasa, restavam apenas R$ 17 milhões.

Diante do resultado, Paulo Henrique sugeriu rever os critérios utilizados.

“Precisamos avaliar se esse score não está muito duro. Poderíamos fazer um filtro dos melhores e aplicar um enorme deságio”, escreveu.

Para a Polícia Federal, a conversa indica que o BRB não confiava integralmente na carteira recebida do Master e tentava reconstruir a avaliação dos créditos para determinar quais ativos tinham valor efetivo.

Segundo o relatório da PF, a situação seria incompatível com os procedimentos considerados normais para uma operação desse tipo.

“Isso não é procedimento normal, é sintoma de operação contaminada”, escreveu o agente responsável pelo relatório.

Classificação Indicativa: Livre

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