Esportes
Publicado em 13/02/2026, às 14h45 Foto: Arquivo pessoal/Irineu Augusto Bianca Novais e Marcela Guimarães
Não precisa de muito. É só juntar uma turma e arrumar uma bola que a diversão está garantida por horas a fio.
Sem gramado de manutenção milionária, uniforme esportivo de marcas internacionais parecendo um outdoor ou chuteiras tecnológicas. Deixando tudo isso de lado, resta apenas o jogo que não permite tocar a bola com as mãos; exceto o goleiro dentro da área.
A popularização do futebol no mundo todo se dá pela facilidade de praticá-lo. E, analisando bem, também foi por isso que ele se tornou o esporte nacional de um país com desigualdades sociais profundas há tantos séculos.
Em São Paulo, às margens do Rio Tietê e de seus afluentes, onde os negros, operários e imigrantes viviam distanciados da elite da cidade, o futebol tinha função social, de unir as comunidades que ocupavam esses territórios sujeitos a alagamentos: a várzea.
Atualmente, o desafio é manter essa essência diante de uma realidade onde o futebol amador se tornou profissionalizado em muitos aspectos, inclusive financeiramente.
Dessa maneira improvisada que qualquer partida pode começar, surgiu o time Vamo Q Vamo, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. Irineu Augusto, professor de educação física e fundador do time, começou a organizar partidas entre as crianças que acompanhavam os pais nos campos do bairro.
“Os filhos dos veteranos acompanhavam, iam ver os pais jogar e ficavam na beira do campo, brincando”, contou ele. “Aí, foi passando o tempo, foi aumentando a quantidade de garotos, e eu falei: ‘Por que vocês não montam um timinho, só entre vocês? Vai jogando contra os coleguinhas mesmo, só para brincar aqui’. Aí eles gostaram da ideia”.
O que era brincadeira virou time, o time virou projeto e, com o tempo, uma referência no Jardim São Vicente. Hoje, a equipe tem categorias desde o sub-10 até o adulto, treina quatro vezes por semana e completa 45 anos de existência — mais de 30 deles com Irineu na linha de frente.
Ao longo dessa trajetória, o projeto revelou jogadores para o futebol profissional dentro e fora do Brasil. Um deles é Bruno Gonçalves, que caminhava quase 40 minutos para treinar e recebeu ajuda de Irineu para comprar um pneu de bicicleta para facilitar seu deslocamento.
Ele construiu a carreira em clubes paulistas como Ferroviário,Inter de Limeira e em equipes do Nordeste, carregando a marca de fazer o primeiro gol do São Bernardo na Copa do Brasil.
Mais recentemente, o Vamo Q Vamo viu jovens assinarem contratos com grandes clubes: atletas formados no projeto passaram por Corinthians, Palmeiras e Athletico-PR.
Mas, para Irineu, o orgulho não está apenas nos que viraram profissionais, mas também nos que seguem outros caminhos e que levam valores aprendidos em campo. “O foco principal é formar o cidadão. O futebol vem depois”, resumiu ele.
Se a várzea resiste, não é sem dificuldades. Falta de patrocínio fixo, cobrança pelo uso de espaços públicos, custos com transporte, uniformes e material esportivo fazem parte da rotina.
Durante 13 anos, o time adulto do Vamo Q Vamo ficou fora das competições porque não tinha condições de pagar os jogadores, prática que se tornou comum em campeonatos amadores.
“A várzea inflacionou. Quando mais precisei, muitos jogadores foram jogar por dinheiro em outros times”, lembrou. O retorno aconteceu apenas em 2025, com atletas formados no próprio projeto jogando pela tradição, e terminou em título invicto na Copa São Miguel.
A principal estratégia para manter o projeto ativo passa pela solidariedade: doação de chuteiras, rateio entre pais que podem ajudar e trabalho voluntário.
No segundo semestre de 2025, o Vamo Q Vamo conseguiu, pela primeira vez, captar recursos via Lei de Incentivo ao Esporte, o que garantiu seis meses de atividades com material esportivo e ajuda de custo para professores do projeto “A Arte de Educar Através do Esporte”.
A história do Vamo Q Vamo dialoga com a própria origem do futebol em São Paulo, que se popularizou justamente nas áreas de várzea, ocupadas por trabalhadores e bairros populares como Barra Funda e Glicério.
Com a expansão da cidade e a especulação imobiliária, essas populações foram empurradas para as periferias, levando o futebol junto.
Não por acaso, a história do Carnaval de escolas de samba é a mesma. A diferença se dá a partir dos anos 1970, com a oficialização dos desfiles, o início das transmissões televisivas e o processo de industrialização do evento até o modelo que conhecemos hoje: um mercado que movimenta bilhões de reais, mas que se distanciou drasticamente de suas origens.
Hoje, apesar da cultura do futebol de várzea ainda ser regional, com foco em bairros e comunidades amigas, existem movimentos para aumentar a visibilidade do esporte.
A Super Copa Pioneer (Liga dos Campeões da Várzea), que existe há 10 anos, reúne cerca de 80 clubes, realiza mais de 200 jogos por edição e chega a atrair até 400 mil pessoas ao longo do campeonato. Em 2023, a final foi disputada no Allianz Parque, estádio do Palmeiras.
Por mais que não seja classificada como futebol de várzea, a Taça das Favelas aparece hoje como um desdobramento organizado do futebol amador nas periferias.
Criada há 15 anos no Rio de Janeiro, dentro do ecossistema da Central Única das Favelas (Cufa), a competição ganhou dimensão nacional e se consolidou como uma das principais vitrines para jovens talentos do país.
Segundo Geovana Borges, diretora-geral da Taçae vice-presidente da Cufa, o torneio envolve centenas de milhares de jovens em todo o Brasil e vai além da lógica esportiva. “O futebol é o maior meio de mobilização que existe. A partir dele, a gente fala de educação, de políticas públicas e de oportunidade”, afirmou.
Disputada por seleções formadas dentro das próprias comunidades, o torneio reúne atletas de 13 a 17 anos no masculino e de 13 anos em diante no feminino. A faixa etária é mais ampla por conta das dificuldades históricas de formação no futebol de mulheres.
O modelo difere da várzea tradicional: os times não levam nomes de clubes, mas das favelas que representam, e seguem regras pedagógicas rígidas, como punições coletivas para ofensas à arbitragem e normas para coibir a simulação de faltas.
A visibilidade conquistada ao longo dos anos, com finais transmitidas pela TV aberta, transformou o torneio em ponte direta para o futebol profissional. Patrick de Paula, ex-Palmeiras, passou pela Taça, assim como mais de 180 jovens que, apenas no último ano, foram encaminhados para clubes do Brasil e do exterior.
A Taça das Favelas mantém a essência dos projetos de várzea, como o Vamo Q Vamo: usar o futebol como ferramenta de formação social.
“Às vezes o impacto não aparece no placar, mas na vida adulta, quando a gente encontra um ex-jogador que virou gerente de banco, por exemplo, e diz que o futebol o tirou da rua”, relatou Geovana sobre um reencontro pessoal.
Apesar das dificuldades em torno das finanças, o futebol de várzea resiste à prova do tempo ao preservar seu propósito original: não existe partida sem churrasco e roda de samba e, enfim, sem comunidade.
A cultura de várzea é um espaço de pertencimento onde o poder público muitas vezes não chega. Também é um território em disputapor reconhecimento, principalmente no futebol feminino, que enfrenta falta de horários, infraestrutura e apoio, segundo levantamento da Federação Paulista de Futebol Varzeano.
“Quando você consegue pegar um garoto que tem muita dificuldade, tanto financeira como técnica, e consegue fazer com que ele aprenda a jogar, para ele estar inserido na comunidade e jogar com os amigos”, contou Irineu com satisfação.
“É bom para nós, que valoriza o nosso trabalho, e é bom para o garoto que participa da comunidade, independente se vai ser jogador profissional ou não. É muito gratificante”, finalizou.
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