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Casas Bahia e Marabraz: o que explica a crise no varejo? Especialista responde

Especialista explica por que grandes redes enfrentam dificuldades e o que pode acontecer com o varejo nos próximos meses  |  Montagem: BNews São Paulo (Foto: Reprodução)

Publicado em 25/08/2026, às 06h00   Montagem: BNews São Paulo (Foto: Reprodução)   Amanda Ambrozio

A Casas Bahia e a Marabraz recorreram à recuperação judicial neste mês de agosto, em meio a um cenário de pressão financeira que afeta o varejo brasileiro.

As duas empresas, que atuam principalmente nos segmentos de móveis e eletrodomésticos, acumulam dívidas e enfrentam dificuldades para manter as operações diante do aumento dos custos e da mudança no comportamento dos consumidores.

No caso da Casas Bahia, o pedido foi apresentado em 16 de agosto e envolve R$ 17,3 bilhões em dívidas. A companhia também registrou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. Poucos dias antes, a empresa havia anunciado o fechamento de quase 300 lojas.

Já a Marabraz entrou com pedido de recuperação judicial no dia 15 de agosto. O processo envolve aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. Segundo informações apresentadas pela própria empresa, a situação financeira foi agravada pela alta persistente dos juros e por disputas societárias e familiares.

Os dois casos levantam uma questão: o que está por trás da crise que levou grandes empresas do varejo a recorrerem à Justiça para reorganizar suas dívidas?

Juros altos pressionam empresas endividadas

Em entrevista ao BNews São Paulo, o advogado e especialista em Direito Empresarial Renato Ewerton de Melo aponta que não existe uma única explicação.

Mas, um dos principais fatores apontados pelo especialista é o custo do crédito. Empresas varejistas dependem de financiamento para manter estoques, capital de giro e operações, enquanto parte dos consumidores também depende de crédito para realizar compras.

Quando os juros sobem, portanto, o impacto acontece dos dois lados: a empresa paga mais para se financiar e o consumidor passa a ter menos capacidade de compra.

“Quando a Selic sobe, o custo de capital sobe junto, a inadimplência do cliente aumenta e o consumo esfria. A empresa varejista paga mais caro para operar e, ao mesmo tempo, vê sua receita cair.”

A situação se torna ainda mais delicada para companhias que acumularam dívidas durante períodos de crédito mais barato.

“Cresceram e se alavancaram em um ambiente de capital abundante e barato e a estrutura desta dívida foi montada para aquele cenário. Quando o cenário mudou, a estrutura ficou descalibrada.”

No caso da Casas Bahia, o modelo de crediário também aumenta a exposição aos juros. “O crediário é o coração do negócio da Casas Bahia, mas é também sua vulnerabilidade. Quando o juro sobe, o custo de financiar a venda a prazo aumenta, a inadimplência do cliente sobe e o spread aperta.”

Problemas vão além do cenário econômico

Embora juros e consumo sejam fatores importantes, o especialista afirma que também existem questões internas de gestão que ajudam a explicar por que algumas empresas são mais afetadas do que outras.

“Crescer sem planejamento de capital, manter estrutura inchada, demorar a cortar custos, postergar decisões difíceis, não investir em tecnologia; tudo isso é gestão.”

A pandemia também acelerou mudanças que já estavam acontecendo no setor. O crescimento do comércio eletrônico alterou o comportamento do consumidor e colocou em xeque o modelo baseado em grandes redes de lojas físicas.

“A pandemia não criou a crise do varejo físico; ela acelerou uma transformação que já estava em curso.”

Para o especialista, o consumidor passou a pesquisar preços, comparar produtos e comprar pela internet, reduzindo a importância da loja física como único canal de vendas.

Foto: Reprodução
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Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Por que Casas Bahia e Marabraz chegaram à recuperação judicial?

Apesar de terem pontos em comum, as crises das duas empresas possuem características distintas.

“A Casas Bahia é uma companhia de capital aberto, com estrutura complexa e histórico de reestruturações. A Marabraz é uma empresa familiar, com uma disputa societária que pesa na crise. São crises diferentes em formato, mas com a mesma raiz setorial.”

A Casas Bahia, inclusive, já havia realizado uma recuperação extrajudicial em 2024, quando renegociou R$ 4,1 bilhões em dívidas. Para Melo, o novo pedido mostra que aquela estratégia não foi suficiente para resolver os problemas estruturais.

“A reestruturação anterior renegociou a dívida, mas não resolveu a questão estrutural: o caixa operacional não voltou a gerar o suficiente para sustentar a operação.”

Recuperação judicial significa fechamento das lojas?

Apesar de a notícia de uma recuperação judicial provocar preocupação entre consumidores e fornecedores, o mecanismo não significa que a empresa será fechada imediatamente.

O objetivo é permitir que a companhia continue funcionando enquanto negocia suas dívidas e tenta reorganizar as operações.

“Sem dúvida é solução de reestruturação empresarial, dando tempo e fôlego, suspende execuções e permite renegociar as dívidas. Mas se a empresa entrar sem um plano de recuperação judicial sério vira apenas um adiamento de falência.”

Para o consumidor, a tendência é que as operações continuem, embora possam ocorrer mudanças comerciais, como redução de promoções e fechamento de unidades.

Crise pode atingir outras grandes redes?

A possibilidade de novos pedidos de recuperação judicial no varejo não está descartada. Segundo Melo, alguns sinais podem indicar que uma empresa está caminhando para uma situação semelhante.

Entre eles estão fechamento de lojas em série, demissões, renegociação de dívidas, atrasos com fornecedores, queda acentuada de receita, prejuízos recorrentes e dificuldade para conseguir crédito.

O cenário, portanto, pode representar mais do que uma crise temporária causada pelos juros. Para o especialista, o varejo passa por uma mudança estrutural.

“O varejo brasileiro não está passando por uma crise que vai embora quando o juro cair e sim por uma mudança de paradigma: o consumidor mudou, o canal de compras mudou, o custo de capital mudou e o modelo de loja física pesada ficou para trás.”

Nesse novo cenário, as empresas que conseguirem controlar as dívidas, reduzir custos e integrar as operações físicas ao ambiente digital terão mais chances de atravessar o período de turbulência.

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