Polícia
Publicado em 25/08/2026, às 07h23 Reprudução/Redes Sociais Tatiana Ribeiro
Um colar de ouro avaliado em R$ 2 milhões, presenteado pelo influenciador Buzeira ao jogador Neymar durante um cruzeiro em 2023, acabou se tornando o ponto de partida de uma investigação da Polícia Civil de São Paulo que chegou a uma suposta rede de receptação, derretimento e revenda de alianças e outras joias roubadas.
Neymar não é investigado no caso. Também não há, nos autos, qualquer indicação de participação do jogador no esquema ou comprovação de que o ouro utilizado na fabricação do colar tenha origem criminosa.
Nesta segunda-feira (24), a Polícia Civil deflagrou a segunda fase da Operação Ouro Reverso, com o objetivo de desarticular uma cadeia que, segundo as investigações, começava com furtos e roubos de joias nas ruas e terminava com a transformação do ouro e sua posterior reinserção no mercado.
A Justiça autorizou quatro mandados de prisão e 28 de busca e apreensão em São Paulo e Guarulhos. Também foi determinado o bloqueio de aproximadamente R$ 34,6 milhões em contas e bens dos investigados.
A investigação que levou à rede de receptação começou a partir de uma apuração que já envolvia Buzeira e possíveis irregularidades relacionadas a rifas realizadas pela internet.
Em dezembro de 2023, durante o cruzeiro "Ney em Alto Mar", o influenciador publicou imagens entregando a Neymar um colar de ouro com pedras preciosas. Na ocasião, Buzeira afirmou que a peça valia R$ 2 milhões.
Segundo ele, o presente foi dado depois que percebeu que o jogador havia gostado da joia, que tinha uma coroa esculpida e o número "00" cravejado.
A repercussão do presente e o alto valor atribuído à peça chamaram a atenção dos investigadores. Por meio de publicações nas redes sociais, a polícia chegou a Douglas Bonetti Rocha, conhecido como "Jimmy", apontado como fabricante do colar.
Douglas foi ouvido em janeiro de 2024. Aos policiais, afirmou que adquiria ouro de diferentes fornecedores e também participava de leilões da Caixa Econômica Federal. Ele apresentou uma nota fiscal no valor de R$ 720 mil.
Segundo um delegado responsável pelo caso, porém, não foi possível esclarecer naquele momento a procedência de todo o ouro utilizado na fabricação da joia. A partir disso, foi aberto um novo inquérito para investigar a origem do material e solicitado ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) um relatório de inteligência financeira.
A polícia ressalta que não teve acesso ao colar, não realizou perícia para confirmar o valor atribuído à peça e não conseguiu comprovar que o ouro utilizado tivesse origem ilícita. Neymar e Buzeira também não foram intimados a depor nessa investigação.
Com o avanço das diligências, os investigadores identificaram relações financeiras e comunicações entre Douglas e Rony Gonçalves, que trabalhava na região conhecida como "Rua do Ouro", no Centro de São Paulo.
Segundo a investigação, Rony atuaria como intermediário entre pessoas que obtinham joias de origem suspeita e comerciantes. Ele seria responsável por conseguir dinheiro junto a lojistas, adquirir as peças e posteriormente repassá-las aos estabelecimentos.
Relatórios de inteligência financeira e informações extraídas de celulares apontaram transações e contatos entre Rony e Douglas.
Rony nega participação em organização criminosa. Em depoimento, afirmou que conhecia Douglas por trabalharem na mesma região e que havia realizado apenas negociações pontuais de ouro com ele.
Para o Ministério Público, no entanto, Rony teria uma atuação mais ampla e funcionaria como fornecedor frequente dos comerciantes investigados. As negociações, segundo a acusação, ocorriam quase diariamente.
Douglas, por sua vez, é apontado como integrante do núcleo responsável pela etapa final da cadeia. Conforme a investigação, comerciantes recebiam joias de procedência criminosa, derretiam as peças e transformavam o material em novos produtos, dificultando a identificação da origem do ouro.
A acusação cita materiais que teriam sido obtidos por meio de furtos, roubos e até latrocínios. O processo, entretanto, não apresenta prova direta de que Douglas tenha realizado pessoalmente o derretimento do ouro ilícito.
Outra frente da investigação levou os policiais a Suedna Barbosa Carneiro, conhecida como "Mainha do Crime". Ela é apontada pela acusação como integrante de um grupo envolvido na obtenção de joias e objetos de ouro roubados.
Segundo os investigadores, Rony seria o elo entre esse núcleo e os comerciantes que adquiriam o material.
No celular apreendido de Suedna, a polícia encontrou um vídeo enviado por uma linha telefônica registrada em nome da mulher de Rony. Nas imagens, um homem aparece pesando alianças de ouro dentro de um copo plástico.
Rony confirmou ter conhecido Suedna depois que ela apareceu como cliente na "Rua do Ouro". Posteriormente, segundo o depoimento, ela teria entrado em contato para oferecer ouro, levando-o até Paraisópolis para uma negociação. Ele afirmou, porém, que desconhecia uma possível origem criminosa das peças.
A investigação sustenta uma versão diferente e aponta Rony como responsável por intermediar a comercialização do ouro entre pessoas ligadas aos crimes patrimoniais e comerciantes.
A primeira fase da Operação Ouro Reverso ocorreu em maio de 2025 e teve Rony Gonçalves entre os principais alvos.
Nesta segunda etapa, os investigadores buscam alcançar outros integrantes da suposta cadeia criminosa. Os mandados são cumpridos na capital paulista e em Guarulhos, inclusive na região central que os policiais chamam de "círculo de fogo".
De acordo com a investigação, empresas instaladas na área seriam utilizadas para comprar joias, processar o derretimento do ouro e posteriormente colocar o metal novamente no mercado.
Cerca de 60 policiais participam da operação. Auditores da Receita Estadual também acompanham a ação para verificar a situação fiscal das empresas investigadas.
A operação conta ainda com avaliadores da Caixa Econômica Federal, que auxiliam na avaliação e na custódia de joias e outros objetos de valor apreendidos.
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