Polícia
Publicado em 27/10/2026, às 06h00 Foto: Magnific Amanda Ambrozio
As fraudes virtuais estão cada vez mais sofisticados e podem atingir tanto pessoas comuns quanto empresas que movimentam grandes quantias de dinheiro.
Com o uso de dados pessoais, aplicativos bancários e técnicas de manipulação, criminosos conseguem convencer vítimas a realizar transferências, fornecer senhas e até instalar programas que comprometem a segurança dos dispositivos.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato no Brasil em 2025, um aumento de 429,8% em relação a 2018. O levantamento também aponta que 83,2% da população brasileira tem medo de sofrer golpes pela internet ou pelo celular.
Em São Paulo, a Divisão de Crimes Cibernéticos (DCCIBER), do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), realizou 73 operações policiais nos sete primeiros meses de 2026. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), a unidade cumpriu 254 mandados, indiciou 268 suspeitos por fraudes digitais, apreendeu 164 celulares e esclareceu 44 casos com auxílio do Centro de Inteligência Cibernético.
Ao BNews São Paulo, Hesron Hori, especialista em segurança cibernética e sócio da Under Protection, disse que o combate às fraudes exige atenção tanto aos contatos recebidos quanto aos mecanismos de proteção dos dispositivos e das contas bancárias.
Entre as fraudes virtuais mais frequentes estão os golpes do Pix, do WhatsApp e da falsa central bancária, além da clonagem ou troca de cartões, do uso indevido de CPF e de sites e leilões falsos.
Hori explica que os golpes mais sofisticados nem sempre são aqueles que atingem mais pessoas. Fraudes conhecidas como Business E-mail Compromise (BEC), por exemplo, exploram comunicações comerciais para desviar grandes quantias em negociações entre empresas, fornecedores e clientes.
“Esses golpes são realmente muito avançados e difíceis de detectar. São fraudes grandes e bem nichadas”, afirma.
Já os esquemas de menor valor podem causar prejuízos acumulados expressivos por envolverem muitas vítimas. Nesse grupo, estão as falsas centrais de atendimento, a engenharia social e as invasões de contas com proteção insuficiente.
O especialista ressalta que criminosos também utilizam aplicativos não oficiais para roubar senhas e informações. Por isso, recomenda desconfiar de programas instalados fora das lojas oficiais, especialmente quando prometem acesso a serviços ou ofertas que não parecem confiáveis.
A prevenção começa com medidas básicas de segurança, como manter o bloqueio automático da tela, utilizar senhas diferentes para desbloquear o celular e acessar o banco e ativar a autenticação em duas etapas sempre que disponível.
Hori também recomenda proteger o chip telefônico com senha ou considerar o uso de um eSIM, além de configurar os aplicativos bancários para exigir uma autenticação adicional.
Recursos que restringem o acesso às contas quando o aparelho está conectado a redes Wi-Fi desconhecidas, conhecidos em alguns bancos como “modo rua”, também podem ajudar.
Outras medidas indicadas pelo especialista incluem:
Evitar aplicativos suspeitos: não instalar programas fora das lojas oficiais e desconfiar de solicitações excessivas de permissões.
Restringir instalações: utilizar os recursos do aparelho para limitar a instalação de novos aplicativos.
Proteger o acesso bancário: não repetir a senha do banco em outros serviços nem utilizar o mesmo código de desbloqueio do celular.
Reduzir a exposição: avaliar recursos de área segura ou ocultação de aplicativos bancários, sem depender apenas deles.
Proteger o aparelho contra roubos: configurar bloqueios automáticos e, quando disponível, mecanismos que bloqueiem o dispositivo ao se desconectar de acessórios confiáveis.
O especialista também recomenda o uso do BC Protege+, ferramenta disponibilizada pelo Banco Central que permite informar que o usuário não deseja abrir novas contas bancárias ou ser incluído como titular ou representante em contas de terceiros. A medida pode dificultar a abertura de contas fraudulentas com dados vazados.
Quem identificar uma transferência fraudulenta deve entrar em contato imediatamente com o banco e solicitar os mecanismos disponíveis para tentar recuperar o dinheiro.
No caso do Pix, é possível pedir a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED), utilizado para analisar transações suspeitas de fraude e viabilizar a devolução quando as condições permitem.
O especialista alerta que o tempo é decisivo porque os criminosos podem transferir rapidamente os valores recebidos para outras contas, dificultando o rastreamento e a recuperação.
“Em questão de minutos, o dinheiro ‘evapora’ das contas e sai até uma transação feita num serviço digital, vira criptomoeda ou mesmo é sacado em espécie ou usado num cartão de débito”, explica Hori.
Embora existam mecanismos de bloqueio e devolução, o acionamento não garante o ressarcimento. A recuperação depende de fatores como a disponibilidade dos valores e os resultados da análise das instituições envolvidas.
Além de comunicar o banco, a vítima deve registrar um boletim de ocorrência (BO) e reunir comprovantes de transferências, conversas, mensagens, números de telefone, e-mails e protocolos de atendimento.
O especialista orienta a relatar os fatos com precisão, incluindo o horário das transações, os contatos recebidos e as providências adotadas pela instituição financeira.
Não registrar o BO é o principal erro cometido pelas vítimas, afirma Hori. Segundo ele, apagar conversas, desinstalar aplicativos ou restaurar o celular para as configurações de fábrica pode dificultar a produção de provas e uma eventual perícia.
A possibilidade de responsabilização depende das circunstâncias de cada caso. De acordo com Hori, a análise pode considerar se houve falha nos mecanismos de segurança, na identificação do titular de uma conta ou na detecção de movimentações incompatíveis com o histórico do cliente.
Transferências de valores elevados, empréstimos inesperados, alterações de limite e operações realizadas em horários ou condições incomuns podem ser elementos relevantes para avaliar uma possível falha.
A vítima deve guardar os registros que ajudem a demonstrar o ocorrido e a resposta do banco às tentativas de bloqueio e recuperação.
No entanto, o especialista ressalta que o ressarcimento não é automático e que a avaliação depende das provas e das particularidades da fraude.
A orientação central é não esperar para agir: ao perceber uma movimentação suspeita, o usuário deve procurar imediatamente a instituição financeira, solicitar as medidas de bloqueio e contestação cabíveis, preservar as evidências e registrar a ocorrência policial.
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