Polícia
Publicado em 24/09/2026, às 17h00 Foto: Reprodução Amanda Ambrozio
A advogada Esther Neves, hoje com 27 anos, afirma ter sido vítima de abusos durante consultas com o ginecologistaOsmar Trojan, de 82 anos, em São Paulo. Segundo o relato da jovem, os episódios ocorreram entre 2014 e 2022, quando ela tinha entre 16 e 24 anos.
O médico atendia a família de Esther havia décadas e era considerado uma pessoa de confiança.
Durante os atendimentos, segundo ela, Osmar teria realizado exames sem luvas, exibido vídeos pornográficos, tirado fotos íntimas e, em uma ocasião, sugado seus seios sob a justificativa de verificar uma possível secreção.
O ginecologista é investigado por estupro em um inquérito instaurado no 1º Distrito Policial de Itapecerica da Serra, após solicitação do Ministério Público. A Secretaria da Segurança Pública informou que o médico foi formalmente indiciado pelo crime.
A defesa de Osmar nega as acusações e afirma que o médico demonstrará sua inocência durante a investigação.
O advogado Alessandro Fischer Martins Silveira também destacou que o inquérito tramita sob sigilo e que ainda não houve recebimento de denúncia pela Justiça.
A relação entre Esther e Osmar começou antes mesmo de ela nascer.
Segundo o interrogatório do médico, ele conheceu a mãe da jovem em 1992, quando trabalhava em um hospital. Os dois se tornaram amigos e, de acordo com o depoimento, ele deixou de cobrar pelas consultas por causa da amizade e da situação financeira da família.
Osmar também realizou o parto de Esther e frequentava a mesma igreja que os familiares, onde ministrava palestras. A proximidade fez com que a jovem passasse a enxergá-lo como uma espécie de figura paterna.
“Era muito próxima, ele mandava muitas mensagens. Era como se fosse meu pai. O contato que eu não tinha com meu pai, eu tinha com ele”, contou Esther.
De acordo com o g1, a primeira consulta da jovem com o ginecologista ocorreu quando ela tinha 16 anos, em 2014, em um consultório particular no Brooklin, na Zona Sul de São Paulo.
Segundo Esther, o médico costumava sugerir que ela entrasse sozinha na sala de atendimento para ficar mais à vontade. Ao longo dos anos, os dois mantiveram contato também fora do consultório.
Esther afirma que, durante as consultas, passou por situações que acreditava serem procedimentos médicos, mas que posteriormente passou a compreender como abusivas.
Segundo ela, os atendimentos podiam durar cerca de duas horas. Em algumas ocasiões, o médico teria exibido vídeos pornográficos, inclusive quando ela ainda era adolescente, e utilizado o conteúdo para abordar práticas sexuais.
A jovem também relata que foi convencida a participar de uma sessão de fotos no consultório. Segundo ela, Osmar afirmou que produzia um material de conscientização sobre o câncer de mama e que as imagens seriam entregues a ela.
Inicialmente, foram fotografadas as mamas. Depois, segundo Esther, o médico teria passado a registrar outras partes do corpo.
“Ele fotografou minhas mamas por causa do câncer de mama. Até aí, tudo bem. Só que aí, ele começou com uma história de que ele tinha pacientes muito complexadas com o tamanho dos grandes lábios da vagina delas [...] ele tirou muitas fotos da minha vagina também, do meu ânus”, relatou.
Esther afirma ainda que, em outra consulta, o médico sugou seus seios sob a justificativa de verificar o que saía deles.
Segundo a jovem, a forma como os procedimentos eram apresentados fazia com que ela acreditasse que as situações faziam parte de um atendimento ginecológico.
Esther afirma que começou a compreender o que havia acontecido nas consultas somente anos depois, durante o tratamento de problemas relacionados à saúde mental.
Segundo ela, a terapia ajudou a identificar que situações que considerava estranhas não eram procedimentos médicos comuns.
“Foi um sofrimento muito grande. Eu tinha crise de ansiedade todos os dias. Eu chorava pra caramba, eu ficava me tremendo”, contou.
Em 2024, Esther chegou a ser internada após uma crise de ansiedade. Ela afirma que faz acompanhamento psiquiátrico há anos e continua utilizando medicamentos para dormir e estabilizar o humor.
Em depoimento à polícia, Osmar negou ter praticado qualquer ato de conotação sexual durante as consultas. Segundo ele, os exames eram realizados na presença da mãe de Esther ou de uma auxiliar.
O médico confirmou ter realizado um exame retal na jovem, mas afirmou que isso ocorreu apenas uma vez, com luvas, devido à suspeita de endometriose.
Osmar também negou ter exibido pornografia. Ele afirmou que, eventualmente, mostra às pacientes vídeos do YouTube com orientações sobre autoexame das mamas e uso de acessórios ginecológicos.
Sobre as fotografias, o médico confirmou ter realizado uma sessão com Esther, mas afirmou que as imagens faziam parte de uma campanha de combate ao câncer de mama. Segundo ele, a jovem autorizou as fotos, levou o próprio figurino e recebeu os arquivos.
Osmar negou ainda ter mostrado fotografias de pacientes nuas e afirmou não manter esse tipo de arquivo.
O caso continua sob investigação. A defesa ressalta que o procedimento está em fase de apuração e que deve ser garantido ao médico o direito ao contraditório e à ampla defesa.
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