Polícia
Publicado em 13/06/2026, às 08h39 - Atualizado às 09h00 Foto: Divulgação Tatiana Ribeiro
Uma trabalhadora doméstica de 62 anos foi resgatada de uma situação análoga à escravidão após passar 49 anos prestando serviços para a mesma família em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. A operação foi realizada na última quarta-feira (10), pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), após denúncias registradas no Sistema Ipê, plataforma nacional destinada ao recebimento de informações sobre trabalho escravo contemporâneo.
A ação contou ainda com autorização judicial para o ingresso na residência onde a mulher vivia e trabalhava desde a infância. Segundo os órgãos responsáveis pela fiscalização, a vítima foi levada para a casa da família aos 12 anos de idade, em 1977, sob a promessa de ter acesso à educação e melhores condições de vida. No entanto, a realidade encontrada pelas equipes de inspeção revelou décadas de exploração, privação de direitos e isolamento social.
De acordo com as investigações, a trabalhadora foi retirada da escola ainda criança e permaneceu analfabeta. Desde então, passou a desempenhar atividades domésticas diariamente, sem direito a férias, descanso semanal remunerado ou qualquer período regular de folga. Sua rotina era inteiramente dedicada aos cuidados da residência e às necessidades da família empregadora.
Embora tenha tido a carteira de trabalho assinada em parte do período e recebido salários durante alguns anos, a fiscalização constatou que ela não possuía controle efetivo sobre os próprios rendimentos. A situação tornou-se ainda mais grave após sua aposentadoria, em 2015. Desde então, deixou de receber qualquer remuneração pelo trabalho desempenhado, mas continuou exercendo as mesmas funções sem interrupção.
Nos últimos anos, a mulher passou a atuar também como cuidadora exclusiva da empregadora, uma idosa acamada que necessitava de assistência constante. Segundo os auditores-fiscais do Trabalho, a doméstica permanecia à disposição praticamente 24 horas por dia, sendo acionada durante o dia e também ao longo da noite. A sobrecarga provocava privação de sono frequente e agravava seu estado de saúde física e emocional.
Além das condições de trabalho consideradas degradantes, a fiscalização identificou um cenário de profundo isolamento social. Ao longo de quase cinco décadas, a trabalhadora não constituiu família própria, não desenvolveu uma rede de amizades e manteve contato mínimo com parentes. As visitas aos familiares eram raras e, quando ocorriam, geralmente aconteciam na companhia da empregadora e por períodos limitados.
Os relatos apontam ainda que, mesmo durante eventos familiares promovidos pela empregadora, a doméstica não participava das confraternizações em igualdade de condições. Enquanto os demais convidados realizavam refeições e atividades sociais, ela permanecia trabalhando e atendendo às demandas da casa.
Para os auditores-fiscais, o caso também apresenta elementos de controle psicológico. A mulher relatou acreditar que sua saída da residência poderia colocar em risco a vida da empregadora. Esse sentimento de responsabilidade extrema teria sido um dos fatores que contribuíram para sua permanência na situação de exploração durante décadas.
Na avaliação dos órgãos de fiscalização, a combinação entre jornada exaustiva, restrição de liberdade, isolamento social e dependência emocional configurou um quadro de servidão contemporânea. A vítima teve sua autonomia progressivamente anulada, sem condições reais de decidir sobre a própria vida, construir relações afetivas independentes ou planejar o futuro.
Após o resgate, a Inspeção do Trabalho determinou o afastamento imediato da trabalhadora do ambiente onde vivia e prestava serviços. Ela foi encaminhada para acolhimento e passou a receber assistência dos órgãos competentes.
Também foi elaborada uma planilha de cálculos trabalhistas estimando em R$ 1.756.545,16 o valor devido à vítima. O montante inclui salários não pagos, férias, décimos terceiros salários, verbas rescisórias e uma indenização por danos morais individuais fixada em R$ 500 mil.
O pagamento dos valores estava previsto para ocorrer em 11 de junho, mas não foi efetuado dentro do prazo inicialmente estabelecido. Segundo o MTE e o MPT, continuam as negociações com os representantes legais da família para a regularização da situação e quitação das verbas devidas.
Os órgãos também ressaltaram que, conforme prevê a legislação brasileira, a responsabilidade pelo vínculo empregatício pode atingir não apenas o empregador formal, mas também outros integrantes da família que tenham se beneficiado diretamente do trabalho prestado e que tinham conhecimento das condições em que a trabalhadora vivia.
O caso é considerado um dos mais emblemáticos de trabalho doméstico em condições análogas à escravidão registrados nos últimos anos no país e reacende o debate sobre formas contemporâneas de exploração laboral, especialmente em ambientes privados, onde violações de direitos podem permanecer ocultas por longos períodos.
Denúncias de trabalho análogo ao de escravo podem ser feitas de forma anônima por meio do Sistema Ipê, ferramenta criada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) para fortalecer o combate a esse tipo de crime.
SP: PM resgata adolescente estrangeira vítima de trabalho escravo; veja
Organizadora do Rock in Rio é penalizada por trabalho escravo; entenda o caso