Política

Deputado cita Vorcaro durante audiência sobre IA e quadrinistas na Alesp

Declaração do deputado Guilherme Cortez no debate sobre quadrinhos ampliou discussão sobre editais, inteligência artificial e incentivo cultural  |  Foto: Gabriela Pessanha

Publicado em 18/05/2026, às 22h32   Foto: Gabriela Pessanha   Por Gabriela Pessanha e Andrezza Souza

O financiamento do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro foi citado em uma audiência pública realizada na noite desta sexta-feira (18) na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

A reunião foi convocada para discutir os impactos da inteligência artificial na produção de quadrinhos, mas ao longo do debate outros temas entraram em voga, como financiamento cultural, regulamentação tecnológica e incentivo à produção artística.

O encontro reuniu quadrinistas e representantes do setor cultural. O aporte de R$ 134 milhões do dono do banco Master foi mencionado pelo deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL).

"Como ninguém aqui é amigo do Vorcaro, precisamos dos editais", afirmou Cortez durante a discussão sobre financiamento cultural.

A declaração ocorreu quando o parlamentar defendia mecanismos públicos de incentivo para trabalhadores da área artística e mencionava desigualdades no acesso a recursos privados. 

Na sequência, ele também criticou discursos que, segundo sua avaliação, rejeitam políticas públicas de cultura enquanto apoiam outros modelos de financiamento.

"É engraçado as pessoas que são contra o financiamento público, mas são a favor do financiamento criminoso que a gente tem na história. Desculpa, mas eu não poderia deixar de falar sobre isso", disse.

Quadrinistas relataram dificuldades e cobraram mudanças

Segundo o deputado, a audiência foi organizada após profissionais do setor procurarem seu mandato para apresentar reivindicações relacionadas às condições de trabalho e à realidade enfrentada pelos quadrinistas. 

Em entrevista ao BNews São Paulo, Cortez afirmou que a produção de quadrinhos cresceu significativamente e se tornou uma área importante da economia cultural.

"Olha, o setor dos quadrinhos é um setor cultural crescente do Brasil. É uma indústria que movimenta milhões de reais em feiras, exposições, no mercado editorial e em compras públicas", afirmou.

Porém, ele destacou a importância dos profissionais que dependem diretamente desse trabalho no impulsionamento do segmento

"Quem está por trás desse setor são os quadrinistas, que são artistas, mas também são trabalhadores que dependem disso para pagar suas contas", disse.

Cortez também explicou que o encontro serviu para ouvir relatos, compreender dificuldades específicas e iniciar discussões sobre possíveis encaminhamentos.

"Foi uma audiência muito positiva, que a gente pôde entender melhor a realidade desse setor e também sair com uma série de encaminhamentos, de projetos, cobranças e denúncias a serem feitas pelo nosso mandato", afirmou.

Entre as reclamações apresentadas na audiência estava a estrutura dos editais culturais atualmente disponíveis. Profissionais relataram que muitos processos possuem poucas vagas e reúnem diferentes áreas em uma mesma disputa.

Segundo relatos feitos no encontro, alguns editais unem literatura e quadrinhos em uma única seleção, criando uma concorrência considerada desigual pelos participantes. Uma das reivindicações centrais foi justamente a criação de mecanismos específicos para o setor.

Inteligência artificial dominou parte dos debates

Foto: Gabriela Pessanha

Embora o financiamento cultural tenha ganhado destaque, o principal foco da audiência foi o avanço da inteligência artificial e seus impactos sobre profissionais criativos. 

Durante o encontro, participantes demonstraram preocupação com o uso de produções artísticas para alimentar ferramentas automatizadas sem autorização ou remuneração aos autores.

Ao comentar o tema, Guilherme Cortez afirmou que o debate precisa deixar de acontecer apenas no ambiente artístico.

"A política, como organizadora da sociedade, inclusive da cultura, ela precisa dar resposta para a inteligência artificial", afirmou.

Ele também ressaltou que o tema não deve ser tratado como uma disputa entre apoiar ou rejeitar a tecnologia.

"Eu não sou contra a inteligência artificial. Não é uma questão de ser contra ou ser a favor. A inteligência artificial, como qualquer tecnologia, ela se impõe sobre a realidade", disse ao BNews São Paulo.

Na avaliação do parlamentar, o avanço tecnológico exige limites claros.

"Você precisa criar parâmetros, regulamentação e parâmetros éticos para que ela seja utilizada. Hoje a inteligência artificial corre solta", declarou.

Ele também criticou a concentração de poder sobre essas ferramentas.

"As únicas pessoas que têm algum controle sobre ela são os donos das empresas que criam essas tecnologias", afirmou.

Ao falar sobre o impacto direto na produção cultural, Cortez argumentou que ferramentas automatizadas utilizam trabalhos já existentes sem garantir retorno aos autores.

"Você consegue fazer livros, filmes e quadrinhos através da inteligência artificial, que na prática rouba produções existentes sem dar direitos autorais, sem remunerar e compensar as pessoas que produziram originalmente", declarou.

Deputado critica investimento cultural do estado

Questionado sobre a viabilidade financeira de ampliar editais e criar mecanismos específicos para quadrinistas, o deputado afirmou que o Estado possui capacidade para aumentar investimentos na área cultural.

"É absolutamente viável. O estado de São Paulo tem um orçamento bilionário, é o estado mais rico do país", afirmou.

Segundo ele, o investimento em cultura não deve ser visto apenas como gasto.

"Esses editais não são um dinheiro que não tem retorno. Eles movimentam a economia depois, fazem o dinheiro circular, valorizam o trabalho artístico, cultural e social", disse.

Ao encerrar a entrevista, Cortez também fez críticas ao cenário atual de investimentos culturais no estado.

"Lamentavelmente, a gente não tem um governo que valoriza a cultura do Estado de São Paulo, a sua riqueza e diversidade", afirmou.

Classificação Indicativa: Livre


TagsAlespPsolvorcaro

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