Política

Dia do Psicólogo: por que tanta gente demora para pedir ajuda?

No Dia do Psicólogo, especialistas explicam por que sinais de depressão, ansiedade e outros sofrimentos podem ser ignorados  |  Foto: Pexels

Publicado em 27/08/2026, às 06h00   Foto: Pexels   Andrezza Souza

Nesta quinta-feira, 27 de agosto, é celebrado o Dia do Psicólogo. A data marca a regulamentação da profissão no Brasil, estabelecida pela Lei nº 4.119, de 1962.

A ocasião também chama atenção para uma questão presente na rotina de muitas pessoas: a demora para buscar ajuda psicológica. Mesmo diante de mudanças persistentes no humor, no comportamento ou na disposição, é comum esperar que o problema passe antes de procurar atendimento.

Para Luciana Xavier, terapeuta, especialista em saúde mental e fundadora da Neuropsicolux, em entrevista ao BNews SP, essa espera pode fazer com que a pessoa procure ajuda somente quando o sofrimento já interfere em diferentes áreas da vida.

“Ninguém espera ter um infarto para começar a cuidar da pressão arterial.”

A especialista defende que o acompanhamento psicológico não precisa começar apenas diante de uma crise.

Quando a pessoa percebe que precisa de ajuda

Nem sempre existe um momento específico que determine a necessidade de procurar um psicólogo. A percepção pode surgir quando mudanças emocionais ou comportamentais permanecem por um período e começam a dificultar a rotina.

Na depressão, por exemplo, a tristeza pode aparecer acompanhada de perda de interesse ou prazer, isolamento, alterações no sono e no apetite, cansaço e dificuldade de concentração. Em alguns casos, a pessoa também pode ter dificuldade para realizar atividades que antes faziam parte do cotidiano.

A ansiedade pode aparecer por meio de preocupação persistente, medo, tensão, irritabilidade e dificuldade para descansar. Há também situações em que sintomas físicos acompanham o sofrimento emocional.

Outros problemas de saúde mental podem apresentar sinais diferentes. Mudanças bruscas de comportamento, dificuldade prolongada para lidar com situações cotidianas, alterações importantes no sono ou afastamento de pessoas próximas também podem indicar que algo precisa ser observado.

Esses sinais não permitem, sozinhos, identificar um transtorno. O diagnóstico e a avaliação devem ser realizados por profissionais habilitados.

Luciana explica que uma das dificuldades está justamente na tentativa de esperar o sofrimento desaparecer.

“Ah, vai passar. Amanhã eu acho que eu amanheço melhor.”

Segundo a terapeuta, esse pensamento pode fazer com que a pessoa adie o atendimento por semanas, meses ou até anos.

“Muitas vezes, a pessoa chega para a terapia quando já está em uma crise.”

Nesse momento, o sofrimento pode estar afetando relacionamentos, estudos, trabalho, sono, alimentação ou outras atividades da rotina.

Depressão pode ser confundida com uma fase ruim

Foto: Pexels
Foto: Pexels

Um dos problemas na busca por atendimento está na dificuldade de reconhecer quando determinadas mudanças deixaram de ser passageiras.

Uma pessoa deprimida pode interpretar a falta de energia como cansaço ou acreditar que perdeu o interesse por atividades apenas porque está atravessando uma fase difícil. A tendência ao isolamento também pode ser percebida como vontade de ficar sozinho.

Quando essas alterações permanecem e começam a interferir na vida, procurar avaliação profissional pode ajudar a entender o que está acontecendo.

O mesmo ocorre com a ansiedade. Preocupações frequentes podem ser incorporadas à rotina e vistas como uma característica pessoal. A pessoa pode passar a considerar normal viver constantemente tensa, preocupada ou com dificuldade para desacelerar.

Para Juliany Silva Gomes, psicóloga entrevistada pelo BNews SP, reconhecer os próprios limites pode ser difícil quando existe o hábito de enfrentar as dificuldades sem apoio.

“A gente aprende a resolver tudo sozinho e acha que pedir ajuda é sinal de fraqueza.”

A profissional ressalta que a procura por acompanhamento psicológico não depende da existência de um diagnóstico.

A terapia pode ser buscada diante de dificuldades emocionais, mudanças na rotina, conflitos, luto, problemas nos relacionamentos ou qualquer situação que esteja causando sofrimento e que a pessoa não esteja conseguindo administrar sozinha.

Esperar chegar ao limite pode atrasar o cuidado

A busca por ajuda costuma acontecer depois que a pessoa percebe algum prejuízo concreto na própria vida.

Ela pode procurar atendimento quando já não consegue dormir bem, começa a evitar situações sociais, sente dificuldade para cumprir compromissos ou percebe mudanças nos relacionamentos.

Para Luciana, esse não precisa ser o ponto de partida.

“A terapia não precisa começar quando a pessoa já está no limite.”

A especialista defende que o acompanhamento seja considerado diante de um sofrimento que persiste e começa a ocupar espaço significativo na vida.

Isso também permite que o profissional compreenda a situação e avalie quais caminhos podem ser adotados.

Os dados mostram o impacto dos transtornos mentais

A discussão ocorre em um período de aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental.

Em 2024, foram concedidos 472.328 benefícios por incapacidade temporáriarelacionados a transtornos mentais no Brasil, segundo dados do Ministério da Previdência Social divulgados pelo g1. O número foi 68% maior que o registrado no ano anterior.

Os dados se referem aos benefícios concedidos e não necessariamente a pessoas diferentes, já que uma mesma pessoa pode receber mais de um benefício no período.

Os números mostram situações em que problemas de saúde mental chegaram a comprometer a capacidade de trabalho. A procura por acompanhamento psicológico, porém, não precisa esperar esse nível de impacto.

Como saber quando procurar ajuda psicológica

Não existe um único sinal que determine quando alguém precisa fazer terapia. A atenção deve estar voltada à persistência dos sintomas e aos efeitos que eles provocam na vida da pessoa.

Alguns sinais que podem indicar a necessidade de conversar com um profissional são:

A presença desses sinais não estabelece um diagnóstico. A avaliação profissional considera a história de cada pessoa, a duração dos sintomas e os impactos na vida cotidiana.

Para Juliany, a mudança também passa pela forma como as pessoas entendem o ato de pedir ajuda.

“Pedir ajuda não significa que você não consegue lidar com a sua vida. Significa reconhecer que, naquele momento, você precisa de apoio.”

No Dia do Psicólogo, a discussão sobre saúde mental também passa pela possibilidade de procurar atendimento antes que o sofrimento chegue ao limite.

Buscar um psicólogo pode ser o primeiro passo para entender mudanças que a própria pessoa ainda não consegue explicar e encontrar formas de lidar com aquilo que está afetando sua vida.

Classificação Indicativa: Livre


TagsSaúde mentalAnsiedadeDepressãoDia do Psicólogo

Leia também


Febre do Nilo Ocidental em São Paulo: entenda transmissão, sintomas e cuidados após diagnósticos


Governador sanciona lei que assegura empregos dos ferroviários da CPTM após privatização de linhas