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Feminicídio em São Paulo: dados expõem limites das políticas públicas de proteção

Mesmo com delegacias especializadas, tecnologia e medidas protetivas, estado mantém mais de 200 mortes e falha na prevenção.  |  Foto: Imagem feita por IA

Publicado em 09/01/2026, às 12h30   Foto: Imagem feita por IA   Maria Laura Saraiva

No final de novembro de 2025, a paulistana Tainara Souza Santos, de 31 anos, foi vítima de uma violência brutal na Marginal Tietê, na zona norte de São Paulo. Ela foi atropelada, agredida e arrastada por cerca de um quilômetro pelo seu ex-companheiro, Douglas Alves da Silva. Tainara ficou internada por 25 dias em estado grave e teve as duas pernas amputadas, mas infelizmente não resistiu aos ferimentos e morreu em 24 de dezembro, após a Justiça confirmar que o caso foi um feminicídio consumado.

Esse crime chocou toda a cidade pela sua violência e pelo contexto: Tainara tinha acabado o relacionamento e estava seguindo sua rotina quando foi atacada. As autoridades prenderam o agressor e continuam investigando todos os detalhes do ocorrido.

Esse e outros episódios compõem um cenário mais amplo de violência de gênero no estado. O combate ao feminicídio em São Paulo segue como um dos maiores desafios das políticas públicas de segurança e direitos humanos em 2025.

Apesar da ampliação de programas, do uso de tecnologia e do reforço do discurso institucional de proteção às mulheres, os números mostram que a violência letal de gênero continua presente de forma alarmante em todo o estado, especialmente dentro de casa e em relações íntimas.

Dados consolidados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo indicam que, entre janeiro e outubro de 2025, o estado registrou mais de 200 feminicídios, mantendo São Paulo entre as unidades da federação com maior número absoluto de vítimas.

 Embora o governo estadual destaque oscilações e quedas pontuais em alguns meses, especialistas apontam que o volume de casos revela limites estruturais das políticas atuais, sobretudo na prevenção e no acompanhamento das mulheres em situação de risco.

O panorama dos feminicídios em 2025

Levantamento da SSP-SP divulgado ao longo de 2025 mostra que a maioria dos feminicídios ocorre no ambiente doméstico, cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Em muitos casos, havia histórico prévio de violência, ameaças ou registros policiais anteriores, o que reforça um padrão já conhecido pelas autoridades.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em relatórios publicados em 2025, mostram que medidas protetivas de urgência estavam presentes em parte dos casos de violência. No entanto, essas ações não foram suficientes para evitar a escalada da violência. Isso revela que o problema não está apenas na falta de leis, mas também na capacidade do Estado de garantir que essas medidas sejam realmente efetivas na prática.

Outro ponto importante é a questão racial e social. Mulheres negras e moradoras das regiões periféricas continuam sendo as principais vítimas, o que evidencia a necessidade de políticas que considerem as diferentes identidades e desigualdades, levando em conta histórico e o acesso desigual à rede de proteção social.

Foto: Imagem feita por IA

Quais políticas públicas estão em vigor em São Paulo

Em 2025, São Paulo manteve como principal pilar institucional a Secretaria de Políticas para a Mulher, responsável por articular ações de enfrentamento à violência de gênero em parceria com as áreas de segurança, saúde, assistência social e justiça. A pasta coordena programas de prevenção, capacitação de profissionais e campanhas educativas, além de atuar na ampliação da rede de atendimento.

No campo da segurança pública, a SSP-SP mantém as Delegacias de Defesa da Mulher, presentes em dezenas de municípios, com atendimento especializado e foco na investigação de crimes contra mulheres. Em 2025, o governo estadual reforçou o funcionamento de unidades com atendimento 24 horas em algumas regiões, medida considerada estratégica para ampliar o acesso das vítimas.

Tecnologia e medidas protetivas

Uma das metas do governo para 2025 é usar a tecnologia para fortalecer a proteção às vítimas. O monitoramento eletrônico de agressores, com o uso de tornozeleiras, foi ampliado, especialmente em casos em que há medidas protetivas ativas. Esse sistema envia alertas automáticos à polícia sempre que o agressor se aproxima da vítima.

O aplicativo SP Mulher Segura também continua ativo, oferecendo funcionalidades como registro de ocorrências, informações jurídicas, localização de serviços e um botão de emergência. A ideia é facilitar o acesso à rede de proteção, principalmente para mulheres que enfrentam dificuldades para procurar ajuda presencialmente.

Na área da saúde, programas estaduais lançados ou reforçados em 2025 têm como foco capacitar profissionais da atenção básica para reconhecer sinais de violência doméstica e fazer os encaminhamentos corretos. A integração entre as unidades de saúde e a rede de proteção é vista como fundamental para identificar casos cedo e evitar que evoluam para situações mais graves ou até fatais.

Já a assistência social atua por meio de casas de acolhimento e serviços de proteção temporária, voltados a mulheres em risco iminente. No entanto, dados da Defensoria Pública de São Paulo indicam que a oferta desses serviços ainda é insuficiente para a demanda existente, especialmente fora da capital.

O que tem funcionado na prática

Balanços divulgados pela SSP-SP em 2025 apontam aumento nas prisões em flagrante de autores de feminicídio e tentativa de feminicídio, principalmente na capital e na região metropolitana. O governo atribui esse resultado à ampliação do uso de tecnologia, ao cruzamento de dados e ao reforço de protocolos de atendimento.

Outro indicador positivo é o avanço na taxa de esclarecimento dos crimes, com investigações mais rápidas e maior número de inquéritos concluídos. Para especialistas, isso contribui para a responsabilização dos agressores, mas não atua diretamente na prevenção.

Ademais, campanhas institucionais realizadas ao longo de 2025, como ações educativas e mobilizações em datas simbólicas, ajudaram a ampliar o debate público sobre feminicídio e violência doméstica. O tema passou a ocupar espaço constante no discurso oficial e na mídia, o que é considerado um passo importante para romper o silêncio em torno da violência de gênero.

Onde estão os principais gargalos

Pesquisadoras especializadas em violência de gênero alertam que o maior gargalo das políticas públicas em São Paulo segue sendo a prevenção. A maioria das mulheres assassinadas já havia passado por situações anteriores de violência, o que indica falhas no acompanhamento contínuo e na avaliação de risco.

A Defensoria Pública aponta que muitas vítimas conseguem registrar boletins de ocorrência e obter medidas protetivas, mas ficam desassistidas nos meses seguintes, sem acompanhamento psicológico, social ou jurídico adequado.

Outro problema recorrente em 2025 é a falta de integração efetiva entre os diferentes setores do poder público. Segurança, saúde, assistência social e Justiça nem sempre compartilham informações de forma ágil, o que compromete a proteção das mulheres em situação de risco elevado.

Especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ressaltam que políticas fragmentadas reduzem a eficácia das ações e aumentam a chance de reincidência da violência.

O acesso às políticas de proteção varia significativamente entre a capital e o interior. Em municípios menores, a ausência de Delegacias da Mulher, equipes multidisciplinares e serviços de acolhimento limita a capacidade de resposta do Estado. Em 2025, esse desequilíbrio territorial segue como um dos principais entraves para o enfrentamento do feminicídio em todo o estado.

Desta forma, especialistas defendem que o avanço no combate ao feminicídio em São Paulo passa por três pontos centrais: prevenção qualificada, integração entre políticas públicas e investimento contínuo na rede de proteção.

Isso inclui melhorar a avaliação de risco das vítimas, garantir acompanhamento prolongado, ampliar serviços de acolhimento e fortalecer políticas de autonomia econômica para mulheres em situação de violência. Sem essas medidas estruturais, os números tendem a se manter elevados, apesar dos avanços pontuais.

O que diz a Secretaria da Segurança Pública

Em resposta ao Bnews São Paulo, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que o enfrentamento à violência contra a mulher e aos feminicídios é tratado como prioridade permanente no estado.

A pasta afirmou que atua no fortalecimento dos canais de denúncia, no atendimento especializado e na integração de dados das áreas de segurança, saúde e assistência social para identificar situações de risco e orientar ações preventivas.

Segundo levantamento do Núcleo de Enfrentamento à Violência de Gênero da SSP, entre janeiro e novembro de 2025, 72,9% das 233 vítimas de feminicídio no estado não haviam registrado boletim de ocorrência antes do crime.

A secretaria destacou ainda a ampliação da estrutura de atendimento, com 170 Salas DDM 24 horas em funcionamento, 142 Delegacias de Defesa da Mulher — 18 delas com atendimento ininterrupto — e a atuação de mais de 470 policiais civis dedicados exclusivamente a ocorrências desse tipo.

De acordo com a SSP-SP, houve aumento na concessão de medidas protetivas em 2024 e 2025, além do uso de tornozeleiras eletrônicas para monitoramento de agressores, atualmente aplicadas a 188 casos, com protocolos de fiscalização e resposta avaliados de forma contínua.

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