Polícia
por Andrezza Souza
Publicado em 19/08/2026, às 12h00
São Paulo terminou 2025 entre as cidades brasileiras com maior taxa de roubo e furto de celulares. Foram 1.390,5 aparelhos levados para cada 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
O índice colocou a capital paulista na terceira posição do ranking nacional, atrás apenas de São Luís (MA), com 1.517 ocorrências por 100 mil habitantes, e Belém (PA), com 1.487. A média brasileira foi de 371,2 casos por 100 mil habitantes.
A dimensão do problema também aparece na quantidade de ocorrências. A cidade de São Paulo concentra 5,6% da população brasileira, mas respondeu por 20% dos roubos e furtos de celulares registrados no país em 2025. Em todo o Brasil, foram mais de 830 mil aparelhos subtraídos, média de 95 casos por hora.
O próprio levantamento aponta que os registros podem estar subdimensionados. Pesquisa de vitimização do FBSP indica que 8,3% da população brasileira com 16 anos ou mais declarou ter sido vítima de roubo ou furto de celular, o equivalente a cerca de 13,9 milhões de pessoas. A estimativa considera pessoas que podem não ter procurado as autoridades para registrar a ocorrência.
O cenário faz com que saber como agir depois de um roubo de celular em SP seja uma questão prática para quem circula diariamente pela capital e pela região metropolitana.
Mas a primeira orientação não envolve o aparelho, o banco ou o rastreamento. É preservar a própria vida.
Os números específicos sobre celulares ajudam a dimensionar o problema, mas os dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) mostram que a preocupação está inserida em um cenário mais amplo de roubos no estado.
Em 2025, foram registrados 161.310 roubos em todo o estado de São Paulo. Na capital, foram 98.358 ocorrências.
No primeiro semestre de 2026, foram 71.448 roubos no estado e 44.649 na capital. No mesmo período de 2025, os registros haviam chegado a 85.530 no estado e 51.266 na cidade.
A comparação mostra redução nos registros, mas não significa que o problema tenha deixado de ser expressivo. Em apenas seis meses de 2026, o estado já acumulou mais de 71 mil roubos e a capital, mais de 44 mil.
Os números da SSP não são específicos para celulares. Eles reúnem diferentes tipos de roubos e, por isso, não permitem dizer quantos desses casos envolveram aparelhos. O dado serve para contextualizar o cenário de violência no qual os roubos acontecem.
A mesma base mostra que São Paulo registrou 549.973 furtos em 2025, sendo 250.168 na capital. No primeiro semestre de 2026, foram 263.002 no estado e 120.806 na cidade.
Nos casos mais graves, quando o roubo resulta na morte da vítima, a SSP registrou 129 latrocínios em todo o estado em 2025, dos quais 39 ocorreram na capital. De janeiro a junho de 2026, foram 44 no estado e 16 na cidade de São Paulo.
Os dados de latrocínio não têm relação específica com celulares, mas ajudam a reforçar uma orientação diante de qualquer abordagem: o aparelho não deve ser motivo para colocar a vida em risco.
Em entrevista à BNews SP, a delegada de Polícia do Estado de São Paulo Raquel Gallinati explica que a reação começa somente depois que a vítima consegue sair da situação de perigo.
A partir daí, o tempo passa a ser usado para reduzir outros riscos. O celular pode dar acesso a contas bancárias, cartões, e-mails, redes sociais e informações pessoais.
“A prioridade é bloquear os acessos bancários e financeiros e, logo em seguida, a proteção dos dados, e-mail, WhatsApp e redes sociais”, afirmou Raquel.
Segundo a delegada, não é necessário esperar chegar em casa ou registrar o boletim de ocorrência para começar os bloqueios.
“Assim que estiver em segurança. Não precisa esperar chegar em casa e muito menos esperar registrar o boletim de ocorrência”, explicou.
A recomendação é começar por aquilo que pode gerar prejuízo financeiro imediato. Bancos, cartões e meios de pagamento devem ser bloqueados primeiro. Depois, a vítima deve bloquear a linha telefônica e o acesso ao aparelho.
Na sequência, entram as senhas do e-mail principal, da conta Apple ou Google, do WhatsApp e das redes sociais.
O e-mail recebe atenção especial porque pode servir para recuperar senhas de outros serviços. Se o criminoso conseguir acessá-lo, pode encontrar caminhos para entrar em outras contas.
“É por meio do e-mail que várias senhas podem ser recuperadas. Se o criminoso consegue entrar no seu e-mail, ele pode conseguir acesso a uma série de outras contas”, afirmou Raquel.
Por isso, um dos erros apontados pela delegada é deixar os bloqueios para depois enquanto a vítima tenta descobrir onde o celular está.
“Esses primeiros minutos podem ser justamente o tempo que o criminoso precisa para tentar acessar banco, e-mail, aplicativos e redes sociais”, disse.
A possibilidade de acompanhar a localização do aparelho pode dar à vítima a sensação de que existe uma maneira de recuperá-lo rapidamente. A orientação policial, porém, é não transformar o rastreamento em uma nova situação de risco.
Em nota ao BNews SP, a SSP orientou que, em casos de roubo ou furto de celular, a vítima priorize a própria segurança e, especialmente quando o crime acabou de acontecer, acione imediatamente a Polícia Militar pelo telefone 190.
A Secretaria também afirmou que o aparelho não deve ser recuperado por conta própria, mesmo quando a localização em tempo real estiver disponível. A informação deve ser repassada às forças de segurança.
Raquel reforça a recomendação.
“Se conseguir localizar o celular, guarde essa informação e passe para a polícia”, orientou a delegada.
Ela também alerta para outro risco que pode surgir depois do roubo. Criminosos podem enviar mensagens dizendo que o aparelho foi encontrado e solicitar senha, código de autenticação ou acesso a algum link.
Segundo Raquel, esse tipo de contato pode ser uma tentativa de conseguir informações que o criminoso ainda não conseguiu acessar.
A localização, por outro lado, pode contribuir para a investigação. A delegada orienta que a vítima faça um print ou preserve de alguma forma a informação exibida pelo sistema.
“Não vá até o local tentar recuperar o celular sozinho”, reforçou Raquel.
A SSP afirma que a investigação de roubos e furtos de celulares envolve análise das informações registradas nas ocorrências, diligências, cruzamento de dados e outras ferramentas disponíveis, respeitando os requisitos legais. O trabalho também busca identificar receptadores e locais utilizados para a comercialização irregular dos aparelhos.
É nesse processo que informações aparentemente simples, como o IMEI, o número da linha, a marca e o modelo, podem ganhar importância.
A SSP explicou que, quando um celular é recuperado, as equipes consultam informações para identificar a procedência do aparelho e confrontam os dados com os registros policiais. Confirmada a relação com uma ocorrência, são adotadas medidas para localizar o proprietário e, quando cabível, devolver o bem.
Por isso, a Secretaria orienta que o boletim de ocorrência contenha o maior número possível de informações sobre o celular e sobre o crime. Marca, modelo, número da linha e IMEI devem ser informados, assim como horário, local, dinâmica da ocorrência e eventual informação sobre a localização do aparelho.
A recomendação é manter esses dados fora do próprio telefone. Segundo a SSP, o IMEI, a marca e o modelo devem ser guardados em local seguro e separado do aparelho.
O boletim de ocorrência deve ser registrado o quanto antes. Segundo a SSP, o procedimento pode ser feito presencialmente em uma unidade da Polícia Civil ou, para as naturezas disponíveis, pela Delegacia Eletrônica.
Além dos dados do aparelho, o registro deve detalhar as circunstâncias do crime. A vítima deve informar, se possível, horário, local, dinâmica da ocorrência, características dos criminosos, roupas, veículo utilizado, placa ou parte dela e direção tomada durante a fuga.
Testemunhas e câmeras próximas também podem contribuir. A delegada recomenda, quando possível, obter o contato de testemunhas e informar à polícia sobre a existência de câmeras em prédios, comércios e residências.
O IMEI também pode auxiliar na identificação do aparelho.
“Sim, o IMEI continua sendo importante. O bloqueio dificulta que aquele aparelho seja utilizado normalmente nas redes móveis e ajuda a combater a circulação de celulares roubados”, afirmou Raquel.
Outra ferramenta citada pela delegada é o Celular Seguro, que possui diferentes mecanismos de proteção. Entre eles está o Modo Recuperação, no qual o IMEI não é bloqueado imediatamente. Segundo Raquel, a modalidade pode permitir a identificação de uma nova linha colocada no aparelho e contribuir para uma possível recuperação.
“Existem ferramentas que vão além daquele bloqueio tradicional do IMEI e que podem ser utilizadas de acordo com cada situação”, explicou.
A estrutura de recuperação também inclui o SP Mobile. De acordo com a SSP, o programa contribuiu para a recuperação de 31,9 mil celulares com registros de furto ou roubo entre junho de 2025 e julho de 2026. Desse total, 10,3 mil aparelhos foram restituídos aos proprietários.
Quando um celular com registro de roubo ou furto é encontrado com outra pessoa, a situação é analisada individualmente. São considerados fatores como a procedência do aparelho, a forma de aquisição e outros elementos que possam indicar participação no crime ou receptação.
Nesse processo, informações fornecidas pela vítima podem fazer diferença. Segundo a SSP, dados incompletos ou incorretos podem dificultar a identificação e a devolução do aparelho.
A experiência do morador de Guarulhos Luiz Feitosa, que frequenta diariamente a cidade de São Paulo, mostra como os primeiros minutos podem ser difíceis para quem não está preparado.
Em entrevista à BNews SP, Luiz contou que levou horas para tomar as primeiras providências depois de ter o celular roubado.
Ele afirmou que não teve dificuldades para bloquear as contas, mas disse que não tinha clareza sobre quais serviços deveria bloquear primeiro.
Luiz também não tinha outro celular ou computador disponível para realizar os procedimentos.
Segundo ele, não houve tentativa de movimentação financeira ou acesso às contas depois do crime. O entrevistado também não conseguiu bloquear o número de telefone, o aparelho ou o IMEI.
Depois do roubo, Luiz afirmou que não recebeu novas informações sobre o celular.
“Esperava que rastreassem o celular, não ocorreu nada”, relatou.
O depoimento mostra uma dificuldade que pode aparecer justamente quando a vítima precisa tomar decisões rapidamente: saber qual medida vem primeiro e ter condições de executá-la.
Ter outro dispositivo disponível, manter o IMEI anotado fora do aparelho e conhecer previamente os mecanismos de bloqueio podem diminuir esse intervalo.
Para Raquel, a preparação começa antes de qualquer ocorrência.
“Eu diria que a melhor proteção começa antes de o crime acontecer. Tenha o IMEI anotado em outro lugar, use senhas diferentes, ative a autenticação em dois fatores e deixe configurados os recursos de localização e proteção do aparelho”, afirmou.
A delegada também recomenda conhecer previamente o funcionamento do Celular Seguro.
“No momento de um roubo, a pessoa está nervosa e assustada. Quanto mais mecanismos já estiverem preparados, mais rápido ela consegue agir”, explicou.
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