Polícia
Publicado em 07/09/2026, às 10h35 Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Amanda Ambrozio
Um dos bairros mais monitorados de São Paulo, Pinheiros, na zona oeste, também está entre os principais alvos de ladrões de celulares.
Mesmo com ampla rede de câmeras e presença policial mais visível do que em regiões periféricas, roubos e furtos de aparelhos cresceram 21,5% em 2026, na contramão da tendência registrada na capital.
Entre janeiro e julho, foram registrados mais de 4,6 mil casos na região, contra pouco mais de 3,8 mil no mesmo período de 2025.
O volume equivale a mais de 20 ocorrências por dia. O 14º Distrito Policial, responsável pela área, é a delegacia com maior número de registros desse tipo na cidade, com média superior a 22 casos diários nos primeiros sete meses do ano.
O cenário expõe a dificuldade de conter um tipo de crime que permanece recorrente mesmo em áreas consideradas prioritárias pelas forças de segurança.
Segundo levantamento realizado pelo Metrópoles com base em dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), mais de 280 vias de Pinheiros registraram ao menos um roubo ou furto de celular no período.
Entre as dez ruas e avenidas com maior incidência em 2025, oito continuam no ranking neste ano. Apenas duas apresentaram redução, enquanto, em alguns pontos, os registros mais que dobraram.
Outro dado chama atenção: 71% dos celulares roubados ou furtados em Pinheiros são iPhones, segundo o levantamento.
A grande quantidade de câmeras instaladas no bairro poderia sugerir uma maior capacidade de prevenção. Para especialistas, porém, o problema está justamente na falta de integração entre os equipamentos e as forças policiais.
Professor titular da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em segurança pública, Rafael Alcadipani afirma que Pinheiros reúne condições que poderiam fazer do bairro um laboratório para um modelo mais eficiente de policiamento.
“Pinheiros é um caso que mostra como as nossas formas de fazer segurança pública não conseguem dar conta da realidade de hoje. Tem todo um aparato de câmeras, aparato policial, mas essas coisas não são integradas. Não estão umas relacionadas com as outras”, diz.
Para ele, seria possível utilizar a estrutura já existente para criar um sistema de patrulhamento baseado em inteligência, cruzando imagens, informações policiais e dados sobre os pontos de maior incidência criminal.
Alcadipani também aponta o déficit de profissionais da Polícia Civil como um obstáculo para o trabalho de investigação e inteligência.
Para Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, o aumento da criminalidade pode estar relacionado à própria dinâmica urbana de Pinheiros.
O bairro concentra comércio, restaurantes, bares, casas noturnas, estações de transporte e uma grande população circulante, além de moradores com renda elevada.
Rocha afirma que já presenciou diferentes modalidades de roubos na região, inclusive crimes cometidos por homens em motocicletas.
Na avaliação do especialista, o reforço do policiamento em regiões centrais pode ter contribuído para deslocar parte da criminalidade para bairros como Pinheiros.
“Se ele sai do centro, ele não vai para o Capão Redondo. Se está todo mundo meio desguarnecido, vai pra Pinheiros. Tem ali pessoas, em geral, de mais alta renda, é um bairro relativamente tranquilo, mas ao mesmo tempo tem um certo movimento em algumas vias”, afirma.
Rocha diz ainda que solicitou à SSP, por meio da Lei de Acesso à Informação, dados sobre o efetivo da Polícia Militar para verificar se houve deslocamento de policiais de Pinheiros para outras regiões, mas afirma que não recebeu as informações.
Para ele, as câmeras acabam funcionando mais como um “VAR do crime” do que como instrumento efetivo de prevenção.
“Ela não garante que você não vai ser roubado. Ela vira um VAR do crime”, diz.
O especialista também defende uma atuação mais forte contra a cadeia de receptação, revenda e desbloqueio de celulares roubados.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que o policiamento preventivo é constantemente reorientado a partir da análise dos indicadores criminais e do cruzamento de informações policiais e de inteligência.
Segundo a pasta, 3.122 infratores foram presos ou apreendidos na área da 3ª Delegacia Seccional no período citado pela reportagem.
A SSP também afirma que as vias com maior incidência criminal são monitoradas permanentemente e cita operações como Impacto, Big Mobile, Mobile, DRAKE e Pedal, além de ações da Polícia Militar, como Centauro, Hidden Trails e Cavalo de Aço.
A secretaria ressalta ainda que, nos primeiros sete meses de 2026, os roubos e furtos de celulares caíram 15,5% e 2,7%, respectivamente, na capital. Na área da 3ª Delegacia Seccional, os roubos em geral tiveram redução de 9,81%.
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) informou que a Guarda Civil Metropolitana mantém patrulhamento preventivo e ostensivo em Pinheiros, com reforço em pontos considerados prioritários.
A prefeitura também afirma que a atuação da GCM é apoiada por mais de 14 mil câmeras instaladas na zona oeste e pelo CompStat Paulistano, ferramenta utilizada para acompanhar ocorrências e analisar a distribuição territorial dos crimes.
Apesar da estrutura disponível, os dados de Pinheiros mostram que tecnologia e presença policial, isoladamente, não têm sido suficientes para interromper a rotina de roubos e furtos de celulares em uma das regiões mais movimentadas e valorizadas da capital.
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