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Unidos pela mensagem: por que o BTS mobiliza fãs de diferentes gerações?

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Como o grupo BTS quebrou barreiras de idade ao transformar a vulnerabilidade de suas músicas e o ativismo de sua comunidade em um refúgio  |   BNews SP - Divulgação Foto: Reprodução/Big Hit Ent.
Marina do Val e Andrezza Souza

por Marina do Val e Andrezza Souza

Publicado em 27/10/2026, às 06h30



À primeira vista, quem observa de fora o fenômeno do K-pop pode imaginar um público composto exclusivamente por adolescentes e jovens da Geração Z.

No entanto, ao olhar mais de perto para o ARMY, como é chamada a comunidade de fãs do grupo sul-coreano BTS, surge um retrato muito mais heterogêneo: adolescentes, universitários, pais, mães e até avós compartilham a mesma paixão pelos sete integrantes.

Mas o que faz com que uma boyband sul-coreana consiga romper barreiras culturais, linguísticas e, acima de tudo, geracionais? A resposta passa pela psicologia do pertencimento, pela identificação com as letras e pela construção de redes no ambiente digital.

Letras que acolhem

Diferentemente da fórmula tradicional do pop comercial, frequentemente associada a temas como desamor e problemas cotidianos, o BTS construiu sua discografia abordando questões como ansiedade, pressão social, saúde mental, amadurecimento e busca pela própria identidade.

Para a psicóloga Juliany Silva Gomes, que tem orientação psicanalítica, a identificação com artistas e suas obras pode ajudar a explicar a conexão entre fãs de diferentes idades. Ela ressalta que não conhece profundamente a discografia do grupo, mas relaciona o fenômeno aos estudos de Sigmund Freud sobre o comportamento coletivo.

“Quando a gente fala sobre ser fã de um grupo, ser fã de um artista, é uma identificação com uma figura idealizada. [...] Isso dá um senso de pertencimento, de comunidade”, explica Juliany, em entrevista ao BNews São Paulo.

Segundo a psicóloga, as letras também podem aproximar pessoas que vivem momentos diferentes, mas enfrentam questões semelhantes. Uma pessoa de 15 anos pode lidar com o medo do futuro e a pressão escolar, enquanto alguém de 40 ou 50 anos enfrenta esgotamento profissional, luto ou mudanças na própria identidade.

“Todo mundo está tentando amadurecer, está tentando vencer a sua ansiedade ou passando por um momento difícil”, afirma.

Quando uma música traduz sentimentos que o ouvinte não consegue expressar, a conexão pode ganhar um significado pessoal. “A música não vai ser mais algo legal de se ouvir. Vai ser algo muito mais pessoal”, diz Juliany.

Para ela, a arte pode ajudar as pessoas a reconhecer e expressar emoções, além de contribuir para a construção da identidade em diferentes fases da vida.

Pertencimento e amizade

Outro fator para o engajamento do grupo é o sentimento de comunidade. O ARMY funciona como uma rede de apoio e amizade, reunindo pessoas que nem sempre teriam outros interesses em comum.

Juliany explica que a necessidade de pertencer a um grupo não desaparece na vida adulta. Embora seja comum associar o envolvimento intenso com artistas à adolescência, essa busca por identificação continua presente em outras etapas da vida.

“Essa necessidade de identificação, de pertencimento, de idealização, ela não passa na vida adulta”, afirma.

Na adolescência, o vínculo com artistas e comunidades pode fazer parte do processo de construção da identidade e de busca por autonomia em relação aos pais. Na fase adulta, a mesma necessidade permanece, embora as responsabilidades possam reduzir os espaços de convivência e dificultar a formação de novas amizades.

A psicóloga também destaca que encontros entre fãs podem ajudar a combater o isolamento. A participação em atividades coletivas permite conhecer pessoas, criar vínculos e compartilhar experiências.

“É importante isso pra saúde mental. Você tirar a pessoa de casa, você fazer amizades, você criar relações ali”, diz.

Comunidades digitais e o ativismo social

As redes sociais ampliaram as possibilidades de interação entre fãs de diferentes países e gerações. Nesse ambiente, admiradores podem compartilhar conteúdos, organizar encontros e participar de iniciativas coletivas relacionadas ao grupo.

A identificação com os artistas também ajuda a criar uma linguagem compartilhada. Mesmo com histórias de vida diferentes, os fãs encontram um interesse em comum que pode aproximá-los e favorecer novas relações.

Juliany avalia que essa conexão pode ser positiva quando contribui para que as pessoas se sintam acolhidas e desenvolvam vínculos fora do ambiente virtual. No entanto, ela alerta para os riscos de uma idealização excessiva dos ídolos.

Segundo a psicóloga, alguns fãs podem interpretar críticas dirigidas aos artistas como ataques pessoais. Isso pode levar a comportamentos agressivos, à dificuldade de reconhecer erros dos ídolos e à perda da capacidade de avaliar a relação com distanciamento.

“É uma identificação tão visceral que o sujeito vai perdendo a noção de si”, alerta.

A especialista ressalta que admirar um artista não significa ignorar suas falhas ou transformar sua imagem em um modelo de perfeição. O vínculo passa a ser preocupante quando a pessoa deixa de reconhecer os próprios desejos e passa a organizar a vida em torno da defesa ou da imitação do ídolo.

Um fenômeno que atravessa gerações

O BTS mostra como a música pode ultrapassar barreiras linguísticas e aproximar pessoas que vivem realidades distintas. A identificação com as letras e a participação em comunidades ajudam a explicar por que o interesse pelo grupo não se restringe aos mais jovens.

Para Juliany, a arte pode funcionar como uma forma de expressão emocional, desde que a admiração não faça o indivíduo perder a própria identidade.

“Um artista está lá pra nos inspirar com a sua obra, e não ocupar a nossa vida com a sua existência”, afirma.

Assim, o vínculo com o BTS pode representar mais do que acompanhar lançamentos ou conhecer a trajetória dos integrantes. Para muitos fãs, também significa encontrar acolhimento, construir amizades e compartilhar experiências em uma comunidade que atravessa gerações.

Classificação Indicativa: Livre

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