Polícia
por Marcela Guimarães
Publicado em 06/08/2026, às 12h50
O roubo e o furto de motocicletas continuam entre os crimes patrimoniais que mais preocupam motociclistas na capital paulista. Mas, por trás de cada moto levada por criminosos, existe um esquema que vai muito além do momento do crime: um mercado clandestino de peças que abastece oficinas irregulares, desmanches ilegais e consumidores em busca de opções mais baratas.
A venda de peças de origem ilícita é um dos principais fatores que fazem a prática acontecer em uma das maiores cidades do mundo. Enquanto houver demanda por peças sem procedência comprovada, terá incentivo para novos roubos e furtos de motocicletas.
A maior parte das motos levadas por criminosos não é revendida inteira. Em muitos casos, o veículo é desmontado poucas horas após o crime, o que dificulta sua localização e, consequentemente, aumenta os lucros ilegais.
Após o roubo ou furto, as motocicletas costumam ser levadas para imóveis clandestinos conhecidos como “desmanches”, onde são desmontadas de forma rápida e fácil.
Motor, rodas, painel, tanque, suspensão, escapamento, faróis e módulos eletrônicos estão entre os componentes mais valorizados no mercado ilegal. As peças são revendidas pela internet, em oficinas irregulares ou até misturadas a estoques de estabelecimentos aparentemente legalizados.
Como a maioria desses componentes não possui identificação individual facilmente rastreável, a fiscalização enfrenta dificuldades para comprovar sua origem.
Segundo Marcelo Bulhões, dono de oficina localizada no bairro da Penha, o desmanche clandestino, pelo menos na Zona Leste, representa uma das principais fontes de renda das quadrilhas especializadas em roubos de motocicletas.
Ao contrário da revenda do veículo inteiro, a venda separada das peças aumenta o lucro dos criminosos e diminui o risco de recuperação da moto pelas autoridades. “Não dá para a gente calcular, mas eles armam tudo visando cada valor”, disse Marcelo.
Nos últimos anos, operações da Polícia Civil e ações de fiscalização do Detran-SP têm fechado desmanches irregulares e apreendido milhares de peças sem documentação.
Os estabelecimentos legalizados precisam cumprir diversas exigências, como cadastro junto ao Detran-SP, rastreabilidade das peças vendidas e emissão de notas fiscais.
Já os desmanches clandestinos desafiando a legislação, o que dificulta a identificação da origem dos componentes e alimenta continuamente o mercado ilegal.
Antes de adquirir qualquer componente, a recomendação é verificar se a empresa possui registro regular, exigir documentação da peça e desconfiar de ofertas com valores incompatíveis com o mercado.
Além do risco de comprar um produto proveniente de crime, peças sem procedência podem apresentar falhas mecânicas e comprometer a segurança da motocicleta.
Para milhares de entregadores por aplicativo e profissionais autônomos, a motocicleta representa a principal fonte de renda da família.
Com isso, foi apontado que uma moto é roubada ou furtada a cada 41 minutos na cidade de São Paulo em 2026, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Apenas em janeiro deste ano, foram contabilizados 202 roubos e 903 furtos desse tipo de veículo na capital paulista.
No ano passado, foram registrados 4.300 roubos e 10.955 furtos de motociclos, ciclomotores e motonetas na cidade durante todos os 12 meses do ano.
Para o especialista em segurança pública José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva da Polícia Militar e ex-secretário nacional de Segurança Pública, o mercado clandestino de peças é um dos principais motores desse tipo de criminalidade.
“O roubo de motocicletas não termina quando o criminoso foge com o veículo. Existe uma cadeia econômica que transforma aquela moto em dezenas de peças comercializadas ilegalmente. Enquanto houver consumidores dispostos a comprar sem verificar a procedência, esse mercado continuará financiando novos crimes”, disse Filho.
Segundo ele, o enfrentamento exige ações de repressão e fiscalização. “Fechar desmanches clandestinos é fundamental, mas não basta. Precisamos subir a fiscalização sobre o comércio de peças, fortalecer os mecanismos de rastreabilidade e conscientizar o consumidor de que uma peça muito barata pode ter origem em um crime”.
Sem agir por impulso, exija nota fiscal e documentação da compra; verifique se o estabelecimento possui cadastro regular no Detran-SP; desconfie de preços muito abaixo da média do mercado; evite compras em anúncios sem identificação do vendedor; e solicite informações sobre a origem da peça.
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